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D. Manuel II – O Último Rei de Portugal Morreu Há 87 Anos

No dia 2 de Julho de 1932, aos 42 anos – 22 dos quais viveu no exílio- morreu S.M.F. El-Rei Dom Manuel II, último Rei de Portugal.

A 1 de Julho, D. Manuel II foi a Wimbledon assistir a um jogo de ténis e à saída sente uma fortíssima dor de garganta. No regresso a Fulwell Park, em Twickenham, sua residência no exílio em Inglaterra, sente-se pior e manda chamar o seu médico particular. Lord Dawson proíbe-o de sair de casa no dia seguinte. El-Rei não sai, mas o seu estado piora e resolve deslocar-se a Londres para consultar um especialista que, depois de o observar, o mandou recolher ao leito.
D. Manuel II voltou a casa, onde decorre uma festa de jardim na qual não participou, e a situação torna-se cada vez mais aflitiva, e é encontrado a sufocar pela Rainha D. Augusta Victoria –  Augusta Vitória, Princesa de Hohenzollern-Sigmaringen (Potsdam, 19 de Agosto de 1890 — Eigeltingen, 29 de Agosto de 1966) casara, em 4 de Setembro de 1913, em Sigmaringen, aos vinte e dois anos, com D. Manuel II, que era seu primo de segundo grau, pois ambos eram bisnetos da rainha D. Maria II de Portugal, sendo Augusta Vitória neta da infanta D. Antónia de Bragança. Lamentavelmente, o seu casamento com D. Manuel II não gerou descendência.

Foi chamado um médico local, mas que foi incapaz de fazer uma operação muito simples, uma traqueotomia – uma incisão que abriria exteriormente a garganta para Sua Majestade respirar, o que teria salvado o Rei. D. Manuel II pede um tubo de borracha para tentar introduzir na garganta e respirar, e por gestos indica que lhe abram as janelas. Um edema de glote estrangulava-o. El-Rei morre de anafilaxia a 2 de Julho de 1932, em agonia, sufocado.
O Governo Português, chefiado pelo Dr. Salazar, autorizou a sua sepultura em Lisboa, organizando o funeral com honras de Estado. Os seus restos mortais chegaram a Portugal, em 2 de Agosto, sendo o Último Rei de Portugal sepultado no Panteão dos Bragança, no Mosteiro de São Vicente de Fora em Lisboa, junto de Seu Pai, Irmão e Reais avoengos.

O Infante Dom Manuel não nasceu o herdeiro presuntivo do Trono, antes sim, era Duque de Beja, pois enquanto filho secundogénito do Rei Dom Carlos I ostentava esse título Ducal dos terceiros filhos, porque o título de Duque do Porto – reservado ao segundo filho varão do Soberano – ainda estava na posse do Infante Dom Afonso Henriques de Bragança, irmão d’El-Rei Dom Carlos I.

Com as mortes do Rei e do seu irmão D. Luís Filipe – Príncipe herdeiro-, o Infante Dom Manuel sucedeu ao Rei de cujus através da ascensão ao trono que é automática e que se rege pelas leis de Sucessão ao Trono plasmadas na Carta Constitucional inspiradas nas Actas das Cortes de Lamego, existindo mais tarde a Aclamação em Cortes com uma participação dos Pares do Reino e dos deputados da Nação e uma aclamação popular que ratificaria essa sucessão – sendo que esse passo era o acto jurídico que verdadeiramente faria o Novo Rei!

Não se pense que a educação de Dom Manuel II, por ser filho segundo, fora descurada, pois, aos seis anos já falava e escrevia em francês, estudou línguas, história e música com o professor Alexande Rey Colaço e teve o tenente-coronel José de Castro como preceptor de balística, táctica e topografia, e, em 1907, iniciou os seus estudos de preparação para ingresso na Escola Naval, preparando-se para seguir carreira na Marinha.

Após uma estadia de alguns dias em Vila Viçosa, com toda a Família Real, havia regressado mais cedo a Lisboa precisamente para se preparar para os exames da Escola Naval, tendo ido esperar os Augustos Pais e irmão ao Terreiro do Paço e eis que o destino do futuro marinheiro se viu alterado pelo terrível atentado terrorista conhecido como o Regicídio em que o Rei e o Príncipe Real foram tragados à vida pelos facínoras da Carbonária, numa conspiração que envolveu ainda muitos outros actores, esses autores morais.

A última Aclamação de um Rei de Portugal decorreu a 6 de Maio de 1908, na qual foi solenemente Aclamado Rei na Assembleia de Cortes o último Rei de Portugal, Sua Majestade Fidelíssima El-Rei Dom Manuel II. A Sua Majestade El-Rei Dom Manuel II, forçava-o o imperativo fado dos Reis: reinar após a morte de seu Pai!

Talvez por ser a época de maior liberdade que Portugal gozou, com censura inexistente – lembremos só as caricaturas de Bordallo Pinheiro – e total liberdade de expressão, no reinado de D. Manuel II verificou-se uma forte propaganda republicana em que se insulta o Rei por panfleto e escrito impresso através de pasquins como A Cartilha do Cidadão da Carbonária, e revistas como a Alma Nacional – dirigida por António José de Almeida – e dos mais diversos jornais criados com esse propósito; relembre-se o dito do republicano Brito Camacho: ‘quanto mais liberdades nos derem, mais delas usaremos contra eles’.

A rede de serviços de informação da Monarquia Constitucional era assegurada pela pouco eficaz Polícia Preventiva, à qual escapou primeiro o Regicídio, depois, os engenhos artesanais de João Borges e Manuel Ramos, o recrutamento da Carbonária nos quartéis, os tumultos e a organização da comissão militar republicana para o derrube da Monarquia.

No Exército e na Marinha contínua o vazio de fidelidades que já vinha da deposição de Vasconcellos Porto e Ayres D’Ornellas – esta quebra da estratégia reformista levou à confusão, ao imobilismo e à deserção para as hostes carbonárias, que alcança o perigoso número de 20 mil primos. A Carbonária era uma organização política, mas de cariz armado, uma espécie de brigada de artilharia, terrorista e secreta, inimiga da Monarquia, do clero e das congregações religiosas. Oficialmente, foi fundada em 1898 e o seu líder, desde 1900, era Luz de Almeida. Era paralela da Maçonaria, embora sem ligações orgânicas à Maçonaria Portuguesa ou outras Obediências Maçónicas, não obstante ter utilizado algumas lojas do então Grande Oriente Lusitano Unido para aquartelar os seus órgãos superiores, e colaborado oficialmente com esta Obediência para a tentativa de revolução republicana falhada de 28 de Janeiro de 1908 – conspiração urdida pelos republicanos, pela Carbonária e pelos dissidentes progressistas -, para o Regicídio de 1 de Fevereiro de 1908, e, depois para a implantação da República. A Carbonária impunha aos seus filiados que ‘possuíssem ocultamente uma arma com os competentes cartuchos’.

Entretanto, atiravam ao Monarca Dom Manuel II as culpas que eram dos políticos e do sistema que os últimos foram viciando, de sorte que, por parte do rotativismo partidário nos últimos tempos da Monarquia não havia senão interesses e nenhuma sincera dedicação à Coroa – especialmente com a partida forçada de uns poucos aptos e dedicados ao Rei e à Monarquia. Todos diligenciavam as suas comodidades e agenciavam o seu sossego e ninguém dentro do sistema estava disposto ou tinha coragem para sacrificar a vida pela bondade do regímen e do Monarca.

El-Rei Dom Manuel II subsistia como a única força ainda viva e operante no País! Bem ciente e zeloso das suas funções enquanto Rei procurava cumprir da melhor maneira possível as suas funções de Chefe de Estado. Dentro dos princípios da Carta Constitucional e da legalidade, sabia que naqueles momentos de nova degradação do constitucionalismo, o Monarca era essencial e deveria reinar de forma muito activa, dedicada e exercendo escrupulosamente o seu Poder Moderador, desdobrando-se incansavelmente, de forma a reformar a política de desentendimentos, de ódios invejosos e de interesses que assolava o País, pelo que se dedicava exclusivamente à servidão de reinar: ’Depois de Vós, Nós’, rezava a divisa D’El-Rei Dom Manuel II de Portugal.

Prova da Sua visão política foi a tentativa de captar para o lado da Monarquia o emergente Partido saído da fusão do Partido dos Operário Socialistas com os outros socialistas, que por diferenças irreconciliáveis se afastaram dos republicanos, pelo que estes últimos nunca tiveram do seu lado as classes trabalhadoras. Estas diligências deixaram o Rei muito benquisto entre as classes operárias. ‘Os homens de hoje, como eu, crêem com ardente fé na redenção da nossa Pátria pelo Povo, o qual intervindo, a exemplo de outros países, de um modo directo, consciente dos próprios interesses e, ouso, dizer, preponderante no andamento dos negócios públicos, há-de regenerar fundamentalmente a sociedade…, põem todas as esperanças, como uma espécie de fetichismo, na vontade indomável, na largueza de vistas, na energia que em Vossa Majestade são preciosas qualidades individuais, mas também qualidades inalteradamente herdadas’, escreveu o socialista Alfredo Achiles Monteverde a El-Rei Dom Manuel II, em 07 de Outubro de 1909.

Rei de todos e para todos, suprapartidário, independente, acima de intrigas políticas, justo e recto, Dom Manuel II nunca foi fonte de qualquer crise ou problema político.

Se no Paço existiam acções negativas não eram causadas pelo Rei, talvez não se possa dizer o mesmo de alguns áulicos, da Velha Nobreza, que com ideias demasiado aristocratizantes e com aquele ‘prazer aristocrático de desagradar’, de que falava Beaudelaire, despertavam as invejas da burguesia política e social.

Também, era ensejo dessa burguesia político-social apropriar-se do poder definitivamente, mesmo aqueles que, porque haviam alcançado estatuto social baseado na acumulação de bens, o liberalismo fizera Pares, mas porque sem pingo de nobreza baseada no modelo de nascimento que funcionava como o mais importante classificador social em que a antiguidade era o bem fundamental da linhagem, carregavam esse estigma que os diferenciava da nobreza de espada… dos Grandes de Portugal.

Já Sua Majestade o Rei Dom Manuel II calcorreava, ainda, o País de lés a lés, onde o Povo o aclamava entusiasticamente e exortava de alegria à Sua passagem, sugestionados não já pela expressão superlativa da imagem real – Ele que tinha por avoengos os Imperadores romanos da Dinastia Comnenus e Paleólogo, os Reis Capetos de França, a estirpe real dos Orleães, os Saxe-Coburgo e Gotha, os Imperadores da Hispânia, o Rei Fundador Afonso Henriques -, mas porque percorria as ruas sondando e interagindo com o Seu Povo, visitando os doentes nos hospitais, levando-lhes o tão importante aconchego espiritual, mostrando-se português em tudo e não se fazendo esquisito em estender a mão a qualquer súbdito e a dirigir a Sua palavra cordial a qualquer um.

Quando era necessário medir a popularidade da Coroa e da Monarquia, o comboio real rumava ao Porto e ao Minho. Às visitas do Rei, em qualquer localidade deste Portugal, como no Porto ou Viana do Castelo, acudia o Povo e a nobreza urbana e rural, com ruidosas manifestações de sentimento e dedicação traduzidos em ensurdecedores e castiços ‘Bib’ó Rei!’, pelo que mais do que nunca o trono do Rei de Portugal era alçado não num estrado, mas erguido nas bases sólidas do direito público nacional e escorado na dedicação recíproca entre Monarca e Povo que acontecia deste os primórdios da nacionalidade quando o Rei Fundador Dom Afonso Henriques teve esta ideia chamada Portugal.

Mas na política as crises sucediam-se e Júlio de Vilhena que se propunha formar um governo de combate, foi finalmente convidado por Dom Manuel II, mas para formar um governo que pudesse ser apoiado por todos e estabelecesse um período de trégua política entre os partidos. Vilhena não correspondeu com a diligência que se impunha ao mandado d‘El-Rei e deu-se por vencido avançando como razão lhe ser impossível conciliar os dissidentes e os teixeiristas com os progressistas. Foram então, também, encarregados de organizar o governo Teixeira de Sousa, António de Azevedo, Anselmo de Andrade e Wenceslau de Lima. Incumbe formar governo a Teixeira de Sousa, amigo pessoal de Bernardino Machado, Afonso Costa, Brito Camacho e França Borges. Teixeira de Sousa, aquele que considera que o  governo estava sempre com a liberdade, ou melhor liberalidade, e não com a tradição. Assim, tal como os republicanos, estabeleceu como adversários primordiais os clérigos e o ultramontismo.

Emergiu então, do lado monárquico um coro oposicionista de progressistas, vilhenistas, henriquistas, franquistas e nacionalistas, todos Paivantes e todos contra o governo.

O Rei apela a uma trégua nas lutas partidárias, mas não é ouvido!

O Rei e as instituições da Monarquia nunca foram os bloqueadores do funcionamento das instituições políticas, mas os que mais contribuíam para o seu funcionamento, porém a política é terreno podre.

Os republicanos cavalgam a onda e a 22 de Julho, José Relvas, Magalhães Lima e Alves da Veiga, mandatados pelo Partido Republicano Português, deslocam-se a Paris e Londres para contactos diplomáticos, regressando com o apoio da internacional maçónica, lembrando uma outra reunião, numa deslocação a Paris, em 1907, em que o supra-mencionado comité revolucionário urdira com um grupo de revolucionários anarquistas franceses o atentado para assassinar a Família Real. Com o falecimento do amigo de Portugal e da Família Real, o Rei Eduardo VII, o novo governo liberal britânico não tem qualquer interesse na manutenção da Monarquia em Portugal, até porque seria mais fácil com um novo e desestabilizado regímen republicano esbulhar as cobiçadas colónias portuguesas de África.

Ainda, em Julho, deu-se a solene instalação das oposições monárquicas e o Governo de Teixeira de Sousa, a 19 de Agosto, dizendo temer um movimento revolucionário das oposições monárquicas, põe as tropas de prevenção: errou o alvo!

Novas eleições! Na 46ª eleição geral – a 37ª eleição da 3ª vigência da Carta – realizada a 28 de Agosto de 1910, pouco mais de três meses antes da revolução que instaurou a República, a ida às urnas traduz-se numa vitória dos Governamentais de Teixeira de Sousa (58%), mas sobretudo numa vitória dos Partidos Monárquicos (91%) contra uns meros 9% do Partido Republicano Português que não traduz em voto popular o barulho que faz nas ruas, pois esse é feito pelos seus acólitos e não pelo justo e bom Povo que é Monárquico. Abre o Parlamento em 23 de Setembro, mas as questiúnculas partidárias mantêm-se, e no dia seguinte as Cortes são adiadas sine die.

Em 3 de Outubro de 1910, Miguel Bombarda, que era uma das figuras proeminentes dos republicanos é assassinado por um doente mental e os seus camaradas aproveitam e urdem uma teoria da conspiração: o médico fora assassinado a mando da Coroa! Num jantar com o Rei Dom Manuel II o presidente brasileiro de visita ao País informa Sua Majestade que se previam tumultos; Teixeira de Sousa quer pôr o exército em estado de alerta, mas o Gabinete não entende ser necessário. O infante Dom Afonso Henriques, Duque do Porto, último condestável do Reino e tio do Rei parte para a Cidadela de Cascais, o Rei fica mal guardado nas Necessidades, a jogar bridge com alguns dos seus mais dedicados áulicos.

De madrugada os republicanos apoiados no seu braço armado, uns 3.000 primos da Carbonária, assumem posições e perfilam-se para o combate. A Capital estava nas mãos inexperientes do nervoso governador militar Rafael Gorjão. O carbonário Machado dos Santos assalta o paiol do quartel de Campo de Ourique – sem resistência que se justifique relatar -, e segue com a sua milícia de maltrapilhos para a Rotunda. No Tejo o Adamastor e o S. Rafael amotinam-se, o D. Carlos permanece fiel. Cândido dos Reis, perante a manifesta incapacidade da Carbonária se apoderar do Arsenal do Exército e julgando tudo perdido, suicida-se. A artilharia 1 coloca-se ao lado dos revolucionários, mas sem sair para a rua. Na Rotunda os terroristas acantonam-se, junta-se-lhe a súcia de Lisboa que vai engrandecendo a unidade da ralé, os comandantes monárquicos ficam impávidos e não atacam. O Comandante Paiva Couceiro – o único oficial que se bateria com denodo em defesa da Coroa e da Monarquia – em torno do qual se haviam colocado as oposições monárquicas, que pernoitava em Cascais, é posto ao corrente da situação. Dirige-se ao seu quartel, mas os seus homens já haviam saído, junta-se-lhes e verifica que a moral dos soldados está em baixo. Começam as deserções em todos os quartéis que ainda se mantinham do lado do regime legítimo. Algumas centenas de cavaleiros do Regimento de Lanceiros 2 ajudam o Comandante, mas o terreno era pouco propício para a arma de cavalaria.

A luta intensifica-se nas ruas, os ministros da Guerra e da Marinha estão completamente desorientados, o Palácio das Necessidades começa a ser bombardeado e o Rei em perigo e sem protecção de artilharia que havia sido desviada para fazer frentes aos revolucionários da Rotunda, é aconselhado via telefone pelo presidente do Governo a ir para Mafra; o Rei recusa, mas os áulicos insistem e insistem e o jovem Rei anui. O Rei quase perde a vida quando uma granada é atirada contra o automóvel em que seguia a caminho de Mafra, ainda que não soubessem que nele seguia Dom Manuel II vestido à civil, contrariamente ao que pretendia, pois quis substituir o anterior uniforme de gala e vestir o uniforme de marechal-general, mas não o deixaram. O Rei já não reinava… sequer!

Às 22 horas a corveta D. Carlos cai nas mãos dos marinheiros revoltosos e a Monarquia caía com as ameaças de bombardeamento sobre as forças monárquicas. Apenas 60 homens perderam a vida nesse dia, o que mostra a insipiência dos combates. A Monarquia é derrubada! Ou melhor a Monarquia não caiu, deixaram-na cair.

Horas após o golpe revolucionário El-Rei Dom Manuel II e último de Portugal, juntamente com Sua augusta Mãe, Avó e restante comitiva de fiéis monárquicos, embarca numa barqueta de pescadores rumo ao Yacht Amélia onde os aguardava o Infante D. Afonso de Bragança.

‘Forçado pelas circunstâncias, vejo-me obrigado a embarcar no iate Real “Amélia”. Sou Português e sê-lo-ei sempre. Tenho a convicção de ter sempre cumprido o meu dever de Rei em todas as circunstâncias e de ter posto o meu coração e a minha vida ao serviço do meu País. Espero que Ele, convicto dos meus direitos e da minha dedicação, o saberá reconhecer. Viva Portugal!’, declarou El-Rei O Senhor Dom Manuel II de Portugal.

O Rei deposto, mas que ainda não se dera por vencido olha o mar de frente, sem se despedir da Terra Portugal, que não imaginava, ainda, não voltaria a ver. Julgava ir para o Porto onde organizaria a resposta monárquica ao coup – daí ter pretendido abandonar o Paço de pequeno uniforme de generalíssimo, mas pouco depois o comandante do navio, ‘para segurança de Sua Majestade’, recusa essa responsabilidade até porque disse recebera ordens do presidente do Governo para rumar a Gibraltar; o presidente do Conselho era mais um repentinamente convertido em republicano, iniciando a que seria uma enorme onda de adesivismo, maculando-se todos esses traidores ‘monárquicos’ com um Crime de Lesa-majestade.

Os italianos recolheram a Rainha Dona Maria Pia e depois, já em Gibraltar, El-Rei Dom Manuel II e a Rainha Dona Amélia embarcariam no iate particular do seu primo o Rei George V do Reino Unido, encaminhando-se o último Rei de Portugal para o exílio em Inglaterra.

No exílio, em Inglaterra, foi então tempo de, sem deixar de se interessar pela política, aprimorar os seus dotes culturais. Elevou a sua perícia como organista à perfeição e, mais importante, tornou-se um erudito de mérito reconhecido. O gosto pelos livros sempre fora um deleite para D. Manuel II, mas os afazeres primeiro de príncipe ‘suplente’ e, em consequência do terrível regicídio, de Rei, impossibilitavam-no de se dedicar como desejaria a esta paixão. Ora, com o golpe republicano que, contra a vontade geral, derrubou a Monarquia, nos seus anos de exílio, Dom Manuel II dedicou-se aos livros e aplicou-se nos estudos literários.

Dom Manuel II escreveu então um tratado sobre literatura medieval e do Renascimento em Portugal ao mesmo tempo que, mesmo no exílio, não se eximiu das funções para as quais tinha sido preparado. Assim, com o dealbar da 1.ª Grande Guerra, o Monarca exilado, em Inglaterra, colocou-se à disposição dos aliados para servir como melhor pudesse. Inicialmente, tomou-o o desapontamento quando o colocaram como oficial da Cruz Vermelha Britânica, mas o empenho que mostrou no decorrer da guerra, cooperando em conferências e na recolha de fundos, visitando hospitais e mesmo os feridos na frente, acabou por ser-Lhe muito gratificante. Porém, o seu zelo nem sempre foi penhorado, e certa vez lamentou-se disso: “A sala de operações do Hospital Português, em Paris, durante a guerra, foi montada por mim. Sabe o que puseram na placa da fundação? ‘De um português de Londres’.” El-Rei criou, ainda, o departamento ortopédico do hospital de Sheperds Bush, que por perseverança do Monarca continuou a funcionar até 1925, dando assistência aos mutilados de guerra. Uma prova de reconhecimento dos ingleses para D. Manuel II de Portugal foi quando o Rei britânico Jorge V – primo do Monarca português pelos laços da Casa de Saxe-Coburgo e Gotha – tê-Lo convidado e à Rainha Augusta Vitória a ficar a seu lado na tribuna de honra durante o Desfile da Vitória, em 1919.

Nos tempos que se seguiram, à I.ª Grande Guerra, e com mais tempo livre, embora sem negligenciar a proximidade com as estruturas monárquicas, El-Rei passou a dedicar-se mais aos estudos, seguindo assim a tradição que já vinha de seu pai, de seu avô e de seu bisavô.

Primitivamente projectou elaborar uma biografia sobre D. Manuel I, que pensava ter sido injustamente examinado pelos historiógrafos da época. Foi aí que começou a Sua senda: primeiro, em 1919, agenciou os labores do bibliófilo Maurice Ettinghausen, que se encarregou de lhe encontrar os livros antigos de que precisava, tarefa facilitada pelo desmembramento de incontáveis bibliotecas privadas que ocorrera em Portugal depois do estabelecimento da república. Mas antes de começar a biografia do Primeiro dos Reis com nome homónimo, Ettinghausen aconselha Sua Majestade a anteceder a obra com a catalogação de todos os livros antigos que possuía na sua biblioteca. O último Rei de Portugal faz a elaboração da lista, mas também um prévio estudo das mesmas e acometesse-lhe também o ensejo de ampliar essa biblioteca. Começa então a compra arrebatada de grandes e raras obras da literatura portuguesa.

Em 1926, já o real objectivo havia sido redireccionado. O real pesquisador tornou-se um investigador, renunciando à ideia da biografia para se concentrar na enumeração, definição e explicação dos clássicos e livros raros e antigos da sua biblioteca. Não era já um rol elementar dos livros de um coleccionador, mas uma obra erudita, pois o autor tratou de escrever e descrever as pretéritas glórias do Portugal dos antigos Reis, narrando cada volume não só bibliograficamente, mas documentando-o com um ensaio sobre cada autor e cada tema do livro, inscrevendo-o no seu âmbito histórico. A explicação e interpretação de cada obra pelo Rei era estribada com fontes, provas e documentos conferindo-lhe rigor e carácter científico.

Sua Majestade Fidelíssima El-Rei Dom Manuel II de Portugal, o derradeiro dos Reis da Nação valente e imortal, torna-se então um ilustre Erudito, pois produz a mais admirável e brilhante obra de bibliografia portuguesa de sempre.

Em três densos volumes (o terceiro inacabado) Livros Antigos Portugueses, ao resultado final, só pode ser apontado, não a crítica, mas o elogio de ser ferido pela dilecção e amor pátrios, bem notórios no encómio da História de 771 anos da Monarquia Portuguesa e do Reino de Portugal.

El-Rei publica os dois primeiros volumes, que, naturalmente, sendo uma obra de objecto específico, tinha uma edição e tiragem limitada e era adquirida por subscrição. Cada volume encontrava-se ricamente ilustrado por fac-similis das obras analisadas e dissertadas e eram edição bilingue pois a obra era redigida em português e em inglês (recorde-se que Dom Manuel II foi instruído desde muito cedo nas línguas clássicas e modernas, falando e escrevendo fluentemente também em inglês, francês, alemão, latim e grego antigo).

O primeiro volume da obra “Livros Antigos Portuguezes 1489-1600, da Bibliotheca de Sua Magestade Fidelíssima Descriptos por S. M. El-Rey D. Manuel em Três volumes” foi publicado em 1929. Como havia sido o primeiro subscritor da obra, o primeiro exemplar foi entregue em mão ao primo, o Rei britânico George V, tendo-se D. Manuel II deslocado ao Castelo de Windsor para esse efeito. O Volume aborda dois manuscritos, cinco incunábulos e trinta e três livros impressos em Portugal até 1539.

A obra colheu óptimas críticas dos especialistas o que estimulou El-Rei a empenhar-se prontamente na elaboração do segundo Volume, que abrangeu o período de 1540 a 1569.

Foi uma tarefa estafante: o trabalho de redigir o Volume II tornou-se o mote de vida do incansável Rei, com as necessárias e correspondentes consequências para a Sua saúde. Todavia, excepcionando as sobrecapas, o segundo Volume estava pronto em 1932. Faleceu sem o ver editado.

Miguel Villas-Boas | Plataforma de Cidadania Monárquica

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Abolição da Pena de Morte no Reino de Portugal

Abolição da Pena de Morte no Reino de Portugal

Em 1 de Julho de 1867, em pleno Reinado do popular Rei D. Luís I, Portugal é o primeiro Estado soberano moderno europeu a abolir a pena de Morte.


A Carta de Lei de 1 de Julho de 1867, assinada por Sua Majestade Fidelíssima El-Rei Dom Luís I de Portugal, abolindo a pena de morte para crimes comuns, seria profusamente difundida e enaltecida nacional e internacionalmente.

“Está, pois, a pena de morte abolida nesse nobre Portugal, pequeno povo que tem uma tão grande história!
Desde hoje, Portugal está à frente da Europa. Vós, os portugueses, não haveis cessado de ser navegadores intrépidos. Ides sempre para a frente, outrora no Oceano, hoje na Verdade. Proclamar princípios é ainda mais belo do que descobrir mundos.
Felicito o vosso Parlamento, os vossos filósofos. Felicito a vossa Nação. Portugal dá o exemplo à Europa. Disfrutai de antemão essa imensa glória. A Europa imitará Portugal. Morte à morte! Guerra à Guerra! Ódio ao ódio! Vida à vida! A liberdade é uma cidade imensa da qual todos nós somos cidadãos. Aperto-vos a mão como um meu compatriota na humanidade, e saúdo o vosso generoso e eminente espírito.”

Victor Hugo | Carta a Brito Aranha, de 15 de Julho de 1867

| Plataforma de Cidadania Monárquica


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525 Anos do Tratado de Tordesilhas – Portugal Torna-se Dono De Metade Do Mundo

A 7 de Junho de 1494 foi celebrado entre o Reino de Portugal e o recente Reino de Espanha o Tratado de Tordesilhas, para dividir as terras ‘descobertas e por descobrir’ por ambas as Coroas fora do Continente Europeu. O Tratado ocorreu no seguimento da contestação portuguesa às aspirações da Coroa espanhola que reclamara oficialmente o Continente Americano para a Rainha Espanhola Isabel, a Católica, resultantes da viagem empreendida por Colombo, que um ano e meio antes chegara ao Novo Mundo.
O Tratado de Tordesilhas, assim chamado embora fosse assinado na povoação castelhana de Arévalo, foi assinado por El-Rei Dom João II de Portugal e pelo Rei-consorte Espanhol D. Fernando II de Aragão, marido da Rainha Soberana Dona Isabel I de Castela, a Católica e que juntos ficaram para a História como os Reis Católicos.
O tratado definia como linha de demarcação o meridiano 370 léguas a oeste da ilha de Santo Antão no arquipélago de Cabo Verde. Esta linha estava situada a meio caminho entre estas ilhas – já portuguesas – e as ilhas das Caraíbas descobertas por Cristóvão Colombo, no tratado referidas como Cipango e Antilha. Os territórios a leste deste meridiano pertenceriam a Portugal e os territórios a oeste, à Espanha. O tratado foi ratificado pela Espanha a 2 de Julho e por Portugal a 5 de Setembro de 1494. Portugal tornava-se assim uma Nação de Descobridores e Espanha um Reino de Conquistadores.

Mas mais importante que a História do Tratado de Tordesilhas é a lenda, pois este tratado encerra muitos mistérios.
El-Rei Dom João II de Portugal ganhou o cognome de ‘O Príncipe Perfeito’, pois em tudo o que fazia ou deliberava punha um cunho de perfeição, e para o sucesso das suas decisões em termos de política externa e geoestratégia contava sem dúvida as decisões que tomava em função da informação privilegiada que os seus serviços secretos recolhiam e que o tornavam no mais esclarecido dos monarcas europeus da época. Prova disso, e expoente máximo da sua política, é o Tratado de Tordesilhas. É muitas vezes apontada a tese de que a Descoberta do Brasil, apesar de ter ocorrido oficialmente em 1500, por Pedro Álvares Cabral ao serviço d’El-Rei Dom Manuel I de Portugal, já havia sido achado nas misteriosas viagens do capitão Duarte Pacheco Pereira para oeste de Cabo Verde e que um lançado – Lançados eram agentes desembarcados na costa ocidental de África e depois seguiam para o interior recolhendo informação que facilitasse a expansão portuguesa no continente que se começava a explorar, e sobretudo sobre o então lendário Reino de Preste João. Eram homens de uma enorme coragem lançados no desconhecido e que por isso lhes deram o nome indígena de Tangomaos, sendo que tangomao significa: ‘aquele que morre ausente ou desterrado da pátria’ – de nome João Fernandes ‘Lavrador’ terá mesmo feito uma pequeníssima exploração do território. Então, sabendo disso, Dom João II nas negociações do Tratado de Tordesilhas tudo fez para que o acordo fosse gizado daquela forma, incluindo a ainda por descobrir Terra de Vera Cruz.

Miguel Villas-Boas | Plataforma de Cidadania Monárquica

 


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Origem Das Cores Clubísticas

A ORIGEM DAS CORES CLUBISTAS

Tudo começou na Antiga Roma, ainda no tempo dos Reis, no séc. VI a.c., com as corridas de aurigas no Circo Máximo. que era um circo — um estádio utilizado para corridas de bigas — e a maior arena de entretenimento de Roma. Situada no vale entre o Aventino e o Palatino, media 621 metros de comprimento e 118 metros de largura e podia acomodar mais de 150 000 espectadores.
As corridas estavam envoltas numa certa aura mística e a vitória de um aurigarius – assim se chamava o cocheiro – para os vencedores atingia proporções de vitória nacional e, para os derrotados, de catástrofe pública.
Os adeptos dos aurigas distribuíam-se por clubes que correspondiam às quatro facções representadas no Reino, depois na República e ulteriormente no Império, por quatro cores diversas: os Azuis, os Brancos, os Verdes e os Vermelhos.
E o público, sedento de emoção, favorecia uma ou outra, e não o cocheiro em si, o que demonstrava que muito mais do que valores desportivos se jogava na competição. Estas facções puxavam e aplaudiam pela bandeira da sua facção, e persistiam, mesmo quando mudava o cocheiro encarregue de fazer triunfar a sua cor. Acresce que, eram sempre os mesmos fautores, ou seja simpatizantes ou torcedores, que aplaudiam fanaticamente.
A razão para todo este fervor consistia em que cada uma daquelas cores fora adoptada por uma classe social, que a adoptava como símbolo e com ela se identificava. O Povo e os Liberais exultavam pelos Verdes e apoiavam esta facção. Ao contrário, o Senado e alta aristocracia tradicional apadrinhava os Azuis, pois desde os primórdios da civilização romana que o Azul foi sempre identificado como a cor da nobreza e da aristocracia. Os nobres populares eram partidários dos Brancos e os Vermelhos correspondiam à camada mais popular. Assim sob a aparência de uma simples competição desportiva, muitos outros valores estavam em causa!
A bandeira era assim, cumulativamente, a bandeira do Estado e do estrato.

Miguel Villas-Boas | Plataforma de Cidadania Monárquica


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Parabéns, Portugal – 840 Anos do Reconhecimento da Independência Pelo Papa

840 Anos da Bula Manifestis Probatum

Em 23 de Maio de 1179, o Papa Alexandre III, através da Bula Manifestis Probatum, reconhece como ‘Rex Portucalensis’- Rei de Portugal – El-Rei Dom Afonso Henriques, então com 70 anos de idade e 51 de governação (pois Portugal tinha ganho a sua Independência e soberania enquanto Estado no 5 de Outubro de 1143).

D. Afonso Henriques era há muito o maior de todos os Reis na Terra: D. Afonso, O Primeiro de seu nome, Rei dos Primeiros Portugueses, filho do sangue dos Lusitanos, dos Bracos, Alanos, Suevos e Visigodos, filho do Conde D. Henrique e como tal neto de Henrique de Borgonha, trineto de Roberto I de França, sobrinho-bisneto do Abade S. Hugo de Cluny, filho da Infanta D. Teresa de Leão, neto de Reis e Senhores de Leão e Castela, algoz do Sarraceno, Tomador de Praças e Unificador dos 5 Reinos. Afonso I, mais conhecido pelo seu nome de príncipe, Dom Afonso Henriques (de Henrique, em tradução literal do patronímico Henriques), também chamado de Ibn-Arrik (“Filho de Henrique”) e El-Bortukali (“O Português”), apelidado de “o Conquistador”, era já o primeiro Rei de Portugal desde 1139 e assim foi até à sua morte, a 6 de Dezembro de 1185.

Na Bula referida ab inicio, o Papa ao aceitar que Dom Afonso Henriques lhe preste vassalagem directa, reconhece não só, definitivamente, a independência do Reino de Portugal, como o Rei de Portugal fica liberado de prestar vassalagem – que de resto nunca prestou – ao Rei de Leão e Castela, o primo Don Alfonso VII autointitulado Imperador de toda a Espanha, porque nenhum tributário podia ter dois senhores directos.

‘Alexandre III Bispo de Roma e Servo dos Servos de Deus, ao Caríssimo filho em Cristo, Afonso, Ilustre Rei dos Portugueses, e a seus herdeiros, para sempre.
Com claros argumentos está provado que tu, intrépido extirpador dos inimigos do Nome de Cristo e diligente propagador da Fé Cristã, pelo esforço da guerra e por acções de cavalaria, tens prestado multíssimos serviços à tua Mãe, a Sacrossanta Igreja, como bom filho e Príncipe católico, assim deixando aos vindouros nome digno de memória e exemplo a imitar. Deve a Santa Sé amara com sincero afecto os que a Providência Divina escolheu para governo e salvação do Povo, sendo tu Afonso, pessoa ornada de prudência, particularmente dotada de justiça e idónea para reger o Povo. Por isso tomamos a tua pessoa sob a protecção de S. Pedro e nossa e concedemos e confirmamos o teu excelso domínio sobre o Reino de Portugal, com inteiras honras de Reino e com a dignidade que aos reis pertence, bem como todos os lugares que com o auxílio da graça celeste conquistaste das mãos dos sarracenos e nos quais não podem reivindicar direitos os vizinhos príncipes cristãos”.
Alexander Episcopus

Com a bula “Manifestis probatum”, o Papa Alexandre III declarou o Condado Portucalense independente do Reino de Leão, e D. Afonso Henriques, o seu soberano. Na prática, a bula reconheceu a validade do Tratado de Zamora, assinado a 5 de Outubro de 1143 em Zamora, pelo rei de Leão, e por D. Afonso Henriques. Estava, assim, reconhecido Dom Afonso I Henriques como Rei de Portugal, o Seu direito às conquistas e estabelecida a independência do Reino sob a protecção de Roma.

Miguel Villas-Boas | Plataforma de Cidadania Monárquica


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Batalha de Alfarrobeira – 20 de Maio de 1449

Assinala-se hoje o 570.º aniversário da Batalha de Alfarrobeira, ocorrida a 20 de Maio de 1449.
O Infante D. Pedro O Regente, Duque de Coimbra, filho D’El-Rei D. João I e irmão D’El-Rei D. Duarte, assumira a Regência plena do Reino desde 1439, durante a menoridade do moço Rei D. Afonso V. Foi um governante esclarecido, pois era um Infante preclaro, chamado o “Das Sete Partidas”, biógrafo e peregrino de Jerusalém, mas a sua Regedoria foi tudo menos pacífica, pois a necessidade de aumento de tributos para despesas militares face à ameaça externa, e a opção pela expansão marítima ao longo da costa africana, foram muito custosas para o povo, o que lhe granjeou o ódio dos procuradores dos concelhos; e a atribuição dos principais cargos a pessoas da sua confiança como o seu amigo e valoroso D. Álvaro Vaz de Almada, Conde de Abranches (Avranches no original), que nomeou Alcaide-Mor de Lisboa, como forma de manter o centralismo régio, desagradava muito à alta nobreza, como o seu meio-irmão D. Afonso, Conde de Barcelos (futuro Duque de Bragança), com visão tendencialmente senhorial e mesmo feudal. D. Afonso, homem ambicioso, conspirou sempre contra o meio-irmão durante a regência, não obstante ter visto o seu património sempre reforçado pelo Infante, e na breve reconciliação dos dois, em 1442, ser-lhe atribuído o Ducado de Bragança, mas que nunca foi suficiente para afastar o ressentimento do recém Duque de Bragança em relação aos irmãos, pelo facto de ser filho ilegítimo de D. João I com uma mulher solteira, Inês Pires.
Quando D. Afonso V atinge a maioridade, em 1446, convocam-se as Cortes de Lisboa, e começa a governar de pleno direito. O ex-regente D. Pedro fica, então, numa situação precária, cercado por todos lados de inimigos à procura de um ajuste de contas, e conspirando e envenenando o Rei contra si.

‘E tanto, que fizeram entender a El-Rei meu senhor que eu nunca lhe havia de entregar o regimento de seus reinos, que sempre o havia de trazer em meu poder, que fizeram com que o dito senhor me requeresse o dito regimento’, escreveu D. Pedro ao Conde de Arraiolos.

Isso, não impediu que D. Afonso V casasse com D. Isabel de Avis, filha do Infante D. Pedro, mas por Carta Régia de 15 de Setembro de 1448, Dom Afonso V condena declaradamente a política do Ex-regente e ordena inquirições aos beneficiados com a outorga de bens por D. Pedro e desmantela todo o sistema político administrativo do Infante. O Conde de Avranches é um dos partidários do Infante que é destituído, outros são mesmo presos. No sentido inverso o arquirrival do Infante, o 1° Duque de Bragança é nomeado Fronteiro-mor de Entre-Douro-e-Minho, com poderes militares superiores ao Condestável do Reino, o filho do Infante.
Foi um assalto ao poder, o que D. Afonso fez.
Perseguido e acossado, D. Pedro tinha de reagir, embora fazê-lo fosse uma sentença de morte anunciada, pois bater-se com forças desproporcionais às reais, engrossadas pelas do Duque de Bragança, era no mínimo uma acção típica do romanceado Cavaleiro Medieval. Outro exemplo do ideal de cavalaria aristocrático era o Conde de Avranches, ideal esse plasmado no seu discurso a quando da partida para recontro fatal em Alfarrobeira:

‘Antes morrer grande e honrado, que viver pequeno e desonrado, e que para isso vestissem todos, os corpos de suas armas, e os corações armassem principalmente de muita fortaleza, e que se fossem caminho de Santarém não como gente sem regra desesperada nem leal, mas como homens d’acordo, e que iam sob governança e mando, de um tal príncipe e tal Capitão, que a El-Rei seu Senhor sobre todos era mais leal e servidor mais verdadeiro, e que mandasse a El-Rei pedir e requerer, que com justiça o ouvisse com seus amigos, que lhe tão sem causa tanto mal ordenavam, ou lhe desse com eles campo, em que de suas falsidades e enganos, ele por sua limpeza e lealdade faria que se conhecessem e desdissessem. E que quando El-Rei alguma destas cousas nom houvesse por bem, e todavia quisessem. E que quando El-Rei alguma destas cousas nom houvesse por bem, e todavia quisesse vir sobre ele, que então defendendo-se morressem no campo como bons homens e esforçados cavaleiros.’

A 20 de Maio de 1449, junto à ribeira do lugar de Alfarrobeira, em Vialonga, perto de Alverca, extramuros da capital do Reino, as duas forças dispuseram-se frente a frente. Ao ver os seus homens a tombarem vítimas dos virotes dos besteiros reais e às balas dos espingardeiros, D. Pedro ordena o disparo das suas bombardas, sendo que um projéctil cai junto da tenda d’el-rei; isso traçou o destino do Infante e dos seus homens, caindo sobre eles toda a cólera do exército real. D. Pedro cai ferido de morte por uma flecha no coração. D. Álvaro Vaz de Almada varava à espadeirada a horda de vilãos que sobre tão nobre cavaleiro da Jarreteira se lançavam. Parecia que fora ontem quando o mesmo homem, bravo cavaleiro, no meio, também, de vagas de soldados franceses, quando decorria a Guerra dos Cem Anos contra a França, auxiliara o Rei inglês Henrique VI na conquista da Normandia e fizera cair a seus pés Avranches, razão pela qual foi agraciado pelo monarca inglês com o título de Conde de Avranches (Earl of Avranches), a favor de D. Álvaro Vaz de Almada e seus descendentes, por carta de 4 de Agosto de 1445. Entende-se que já antes, em 1415, tinha participado na batalha de Azincourt ao lado dos Plantageneta. Por isso, também, foi dos poucos estrangeiros e o único português que não da realeza a ser agraciado cavaleiro da Ordem da Jarreteira, a mais nobre ordem da Inglaterra, da qual é o 162° Cavaleiro. Foi ainda um dos míticos ‘Doze de Inglaterra’, Alferes-mor do Reino e Capitão-mor do Reino e do Mar.
Pelo pacto de sangue com o seu Senhor, o Infante, e o cavaleirismo de que era o epítome, sabia que estava ali para morrer, cercado dos corpos exangues dos seus homens e dos inimigos que matara, com a espada na mão, caindo aos golpes dos infanções reais que o feriam e suspirando:

– Meu corpo sinto que não podes mais; e tu, minh’alma, já tarda!

Levanta-se e de espada em riste, solta o último grito de guerra e lança-se para a morte que lhe deram os cavaleiros-vilãos de D. Afonso V e D. Afonso (I) de Bragança:

– É fartar vilanagem, rapazes!

Morre o Infante D. Pedro e o primeiro dos Condes de Avranches e último rico-homem de Portugal, e com eles uma certa ideia de justiça maior. O exército real de 30.000 soldados esmagou completamente os 6.000 homens do Infante D. Pedro de Avis, Duque de Coimbra, um dos da Ínclita Geração.

Miguel Villas-Boas | Plataforma de Cidadania Monárquica