Monarquia, Cidadania, Democracia

Carta de José Lobo de Vasconcelos a D.Manuel II, Ajudante de Campo do Rei

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Senhor Dom Manuel:

Há muito que tenho vontade de escrever a Vossa Magestade porque sei quanto nos é agradável ter notícias, mesmo insignificantes, de quem nos é caro. Vossa Magestade, apesar do que deve ter sofrido, ainda, com certeza, ama a sua Pátria; mas o respeito que tenho pelo nosso Chefe, pelo meu Rei, impedia-me de o fazer e, se não fosse o bilhete que Vossa Magestade se dignou enviar-me, e implicitamente me autoriza a fazê-lo, nunca o faria.

Se no que vou escrever Vossa Magestade, porventura, encontrar alguma coisa que pareça menos respeitosa, atribua-o à minha inabilidade e nunca a falta de respeito. Conheço Vossa Magestade desde criança, sei que o cumprimento dos seus deveres foi sempre considerado por Vossa Magestade como o seu principal dever, por ele sacrificando tudo.

Calculo, por conseguinte, quantas vezes terá pensado se o cumpria ou não, e quanto lhe terá custado se algumas dúvidas se levantaram no seu espírito.

o que sucedeu tinha que suceder!

Os políticos, com que Vossa Magestade tinha de governar, segundo a Carta, que tinha jurado manter e seguir, eram completamente incapazes de O ajudarem, uns por falta de competência e sem os conhecimentos indispensáveis, (eram quasi imbecis)! Outros, a ambição desmedida cegava-os de modo que não viram que cavavam a honra da Pátria e a sua própria. E assim se formaram a série de ministérios que, não podendo vencer as dificuldades que lhe apresentavam, torneavam-nas e em pouco viam-se de tal modo encurralados (?) que, à mais pequena dificuldade nova que aparecesse, abandonavam as suas pastas, e o que é mais extraordinário, iam para a oposição, raivosos, e tentavam levantar novos obstáculos aos que lhes sucediam, para estes não resolverem o que eles não tinham sabido, ou podido, resolver, não se importando de sacrificar Aquele a quem deviam o seu poder.

Daqui a política portuguesa nunca ter uma orientação certa, determinada, umas vezes era conservadora, outras avançada, e outras um misto que ninguém percebia, o que, reflectindo-se no País, pô-lo no estado de indiferentismo em que o veio a encontrar o 5 de Outubro. A revolução não foi conta Vossa Magestade, foi contra os seus políticos, que foram os que ajudaram a fazer, protegendo os comícios, jornais insidiosos, em que se atacavam o mais vigorosamente o princípio da autoridade, premiando os que se revoltavam, consentindo que nas escolas oficiais se fizesse propaganda contra as instituições, dando lugares rendosos aos que se salientavam nessa propaganda, etc. e os políticos não tinham dúvida em se ligar com os revoltosos, se deles precisassem para derrubar ministérios, etc.

Nestas condições que poderia Vossa Majestade fazer? Nada, a não ser que quisesse por de parte a Carta e governar por si, mas, para isso precisava apoiar-se nas classes conservadoras, mas essas não o poderiam dar em Portugal.

A Aristocracia que tinha os seus membros ligados intimamente à Monarquia, não podia já servir de apoio. É certo que existem indivíduos que são verdadeiros aristocratas, mas são poucos, e não chegavam para formar uma classe útil ao fim a que se destinava.

Vossa Magestade deve ter reparado no sorriso peculiar com que os aristocratas antigos têm quando falam dos modernos.

A classe Eclesiástica essencialmente conservadora, não podia servir de apoio apesar da enorme força que tem no País, mas de que ela não sabe dispor porque é, de todas, a mais desunida.

o padres seculares, a quem em geral falta a instrução e a educação necessária foram transformados pelos políticos em galopins eleitorais, (é claro que há excepções), os párocos· só pela política alcançavam as suas freguesias, por isso eram políticos, tanto como os verdadeiros políticos. Os das ordens religiosas, que se tinham a pouco e pouco, e cautelosamente, estabelecido, de novo, no País, olhavam os seculares como uma coisa aparte, e daí a rivalidade que, cada vez, mais enfraquecia essa classe. A importância desta classe que, à primeira vista parece menos própria para servir de apoio a um Chefe de Estado, estava, principalmente, na educação que era obrigada a dar ao povo, e que oficialmente estava unicamente entregue aos párocos e aos professores de instrução primária e sob este ponto a sua influência podia ser enorme. Vossa Magestade lembra-se do pequeno do Guardão (?) Que saudades tive ao lembrar-me desse dia. Mas a maior parte não podia dar o que não tinham.

A classe Militar era de todas a que mais facilmente poderia servir de apoio eficaz mas os monárquicos tiveram a habilidade de a estragarem, de modo que serviu, ainda que vergonhosamente, para fazer cair a Instituição, e creia Vossa Magestade, que a maioria dos militares eram e são monárquicos; os militares só obedecem de boa vontade, a quem possa e saiba vestir uma farda, a quem seja militar como eles.

A Aristocracia que tinha sofrido já golpes profundos antes da era áurea das nossas conquistas, pode restabelecer-se com essas conquistas em todo o mundo; em Alcacer Quibir e com o domínio espanhol, sofreu novos golpes mas a restauração e as campanhas que se seguiram para assegurar a independência de Portugal, de novo se levantou, de modo tal que, o Marquês de Pombal entendeu que precisava ( de) novo golpe. Deste curou-se, mas mal, pela reacção a seu favor que a crueldade do Pombal levantou em todo o País. Com os tristes acontecimentos do princípio do século passado tomou a descer no conceito público, mas a guerra peninsular a maneira como alguns aristocratas procederam tomaram a eleva-la mais longe do que tinha sido;.Com a mudança do absolutismo para o regime constitucional sofreu um golpe mortal, mas ia vivendo porque um ou outro dos seus membros conseguia distinguir-se na guerra, na política, nas ciências; o golpe de misericórdia foi-lhe dado porém, com a abolição dos morgadios.

Os aristocratas não perceberam a mudança profunda que essa abolição trazia à sociedade portuguesa, não educou, com raras excepções, os seus filhos de modo a puderem resistir a essa mudança e daí uma derrocada que lhes fez abrir os olhos e ver as suas consequências mas já sem as poderem remediar.

O Comércio e a Indústria também não podiam formar uma classe que oferecesse um apoio seguro. É verdade que os seus interesses estão ligados à paz, sossego e à ordem, mas os principais comerciantes, banqueiros e industriais são estrangeiros, e os portugueses que existem com raras excepções procuram passar à aristocracia com as comendas e benevolencias que o dinheiro merece, mas sempre considerados como intrusos.

Mas os oficiais estavam divididos em duas classes, os militares propriamente ditos que eram os que comandavam tropas, e os pseudo-militares que eram os que aproveitavam a farda para obterem lugares rendosos, ou pelo menos cómodos, e que iam às unidades: só quando a lei das promoções a isso os obrigava, e como isso se dava em dois postos de mais importância para a disciplina e instrução das tropas, capitão e coronel, pode-se calcular o mal que iam fazer nos dois anos que eram obrigados a fazer serviço, e como os outros lhe obedeciam. Vestiam fardas mas não eram militares como eles; alguns limitavam-se a comparecer no quartel e a assinarem papéis que os outros lhed apresentavam, estes eram inúteis, não eram muito prejudiciais, mas uns outros que pretendiam mostrar o seu espírito militar e em tudo se intrometiam, em tudo queriam mandar, sem nada saberem por mais que tivessem lido, esses só não eram prejudiciais quando os outros vendo a sua incapacidade se insubordinavam mansamente e faziam o serviço, como era indispensável, não se importando com o que eles diziam e deste modo dava-se o paradoxo que se só não era prejudicial quando promovia a insubordinação!

Isto juntamente com a falta de meios para o serviço a fazer e a convicção que os militares tinham que debaixo das ordens dos pseudo-militares fariam sempre má figura; talvez explique a figura vergonhosa que o exército fez e tem feito deste Outubro.

Desculpe Vossa Magestade esta comprida carta, mas, no seu País, desde que implantaram a liberdade, esta desenvolveu-se de tal modo que passou (?) do infinito e mudou de sinal, de modo que, se a sociedade do livre pensamento chegar a radiografar o nosso pensamento nem esse teremos livre e passará a sociedade de “escravo pensamento”; manifestá-lo, isso já não deixam, e, por isso é muito dificil, além de várias outras razões, encontrar pessoas com quem se possa falar: é essa a razão porque espero que Vossa Magestade me perdoe.

Lembrei-me agora duma coisa que muitas vezes me aconteceu quando estudava Cálculo: enchia a pedra com grande trabalho para chegar ao fim com o cálculo errado! Começava a emendar, perdia muito tempo sem conseguir nada, e, por fim resolvia apagar tudo e começava de novo .. , Se Vossa Magestade voltar à sua Pátria encontrará a “pedra” limpa sem ter tido o trabalho de a apagar; outros se encarregaram de o fazer, e poderá começar a resolução do seu problema. Muitas vezes à segunda tentativa acertava, (principalmente se tinha descansado) a apagar (?) e a recomeçar o cálculo.

Quando começar a resolver o seu problema não se esqueça da “Produtora”, escute-a.

Tinha esperanças, e ainda hoje tenho, nessa classe composta, em grande parte, do que antigamente se chamava “povo” e de membros de todas as outras a que me referi, que se dedicam ao trabalho e que, para seguir a moda da “democracia portuguesa”, chamarei “Produtora”, Essa sim que é conservadora, sabe quanto lhe custa o trabalho e por isso ama o produto do seu trabalho; quer guarda-lo e o defende até à última. Precisa de paz, sossego e ordem para continuar a trabalhar, e ainda de orientações certas e determinadas, e que só a permanência do Chefe Supremo lhe pode dar, e, por conseguinte, ,e ainda que muitos o não digam, querem a Monarquia. Não a antiga que, enredada em preconceitos e laços de toda a ordem deixou-se maniatar e morrer sem se defender, mas uma Monarquia livre, uma Monarquia … “Socialista”! Os extremos tocam-se. Vossa Magestade, segundo a sua Religião, é socialista, mas socialista “prático”, que produz o Bem e não o “utópico que produz amanhã a anarquia (?).” Amar o próximo como a nós próprios, digo, mesmo, é um dos seus mandamentos e, portanto, “deve deixar vir a mim os pequenos”.

Tenho pena de não escrever em latim, mas, por causa da “liberdade” que estou gozando desde que Vossa Magestade saiu de Portugal tenho receio que me apanhem a carta, me chamem jesuíta, e, por enquanto, ainda não estou a disposto a oferecer o meu corpo para servir de Judas no sábado … 40 dias depois de sábado gordo; toda a cautela é pouca.

Vossa Magestade foi “socialista”, foi propagandista. O que foi a sua estada no Porto, e a sua viagem ao Norte, senão verdadeira propaganda, com visitas a fábricas, oficinas, e mais estâncias de trabalho, com as visitas a hospitais, e casas de caridade destinadas a receber os proletários que adoeciam ou se inutilizavam no trabalho. E, para não haver dúvidas, Vossa Magestade nos seus discursos exortava ao trabalho dizendo que “amava os trabalhadores e que se achava bem entre eles”. Sei qual o fim mas fosse qual fosse o que é facto é que Vossa Magestade reconheceu o valor dos que trabalham e quis animá-los a continuar, ensinando-lhes que a salvação da Pátria estava neles!

A Produtora correspondeu ao seu apelo, e todos pediam que Vossa Magestade visitasse as suas estâncias de trabalho e, aí, manifestavam, de todos os modos, a gratidão a Vossa Magestade; não digo que a vaidade e rivalidades não influíssem mas isso não obsta que eles reconhecessem o poder de Vossa Magestade, em quem depositavam toda a sua esperança. A isto chamo “monarquia socialista”.

Se os políticos não estivessem cegos, e vissem aonde o caminho para Vossa Magestade começava a trilhar, e procurassem trazer para Portugal o que noutras nações mais adiantadas, há muito fora concedidavesta classe talvez o que sucedeu não houvesse sucedido …

Vossa Magestade não teve culpa, apesar dos seus 19 anos e de não conhecer o mundo, indicou-lhes bem o caminho a seguir. É mais um motivo para não deixar dominar o espírito pelas dúvidas a que acima me referi.

Se isto não bastar pense na maioria do Pais, a que não está estragada pela falsa instrução e educação ou que não está cega pela ambição desmedida, e pensa como a Produtora pensa…

Lembra-se na volta da Carregosa (?), um homem chegou-se ao pé de Vossa Magestade perguntando-lhe se era o Rei, e, quando teve a certeza, disse-lhe: “Vossa Magestade é que é o verdadeiro patriota, vem até aos pobres para conhecer as suas necessidades, não corno os que estão em Lisboa (políticos) que só se lembram de nós para pedirem votos. Se digo isto não é para pedir esmola, que eu com estas mãos calejadas (e mostrou as mãos) bastam para sustentar minha mulher e 5 filhos, mas para que façam caso de mim” e levantou um “viva ao verdadeiro Patriota” (?).

Lembra-se do carreiro na descida do Pessegueiro, quando se perguntou porque não arranjavam a estrada, dizer “os comilões de Lisboa gastam o dinheiro todo~ não querem saber de nós; para aqui é que eles deviam vir para saberem quanto custa a

ganhar a vida” (7).

Lembra-se do pequeno de Guardão (7) dizer: “Se não fosse o Rei todos nos roubavam” (?).

Eu várias vezes tenho ouvido a trabalhadores do campo e já, até, a professores primários dizer: “Se queriam a república nomeassem D. Manuel presidente”! Mostra ignorância, mas mostra que o povo português não é, como muitos diziam a Vossa Magestade, e que a revolução não foi feita contra Vossa Magestade, nem por sua culpa.

Guarda, 11 de Setembro de 1911

José Lobo

 

 

  • General de Artilharia
  • Ajudante de Campo dos reis D. Carlos e D. Manuel II

Fonte: Blogue Esquerda Monárquica

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One thought on “Carta de José Lobo de Vasconcelos a D.Manuel II, Ajudante de Campo do Rei

  1. Gostaria de saber sobre o ajudante de campo dos reis D.Carlos e D. Manuel II ( José Lobo Vasconcelos ), se era da cidade do Porto ( Portugal),pois meus bisavós eram do Porto da família Lobo e eu via contar em casa de um tio que morreu nessa época

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