Monarquia, Cidadania, Democracia

Dona Amélia, Rainha de Portugal

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*Autor: Miguel Villas-Boas

296_633320410721071250_ac 63Dona Maria Amélia Luísa Helena de Bourbon-Orleães, princesa de França, nasceu em Twickenhem, em 28 de Setembro de 1865, durante o exílio da família em Inglaterra. Dona Amélia era a filha primogénita do pretendente ao trono francês Luís Filipe, Conde de Paris, neto do último Rei de França, Luís Filipe I, e de Maria Isabel de Bourbon-Orleães-Montpensier, infanta de Espanha, filha do Príncipe Antoine D’ Orleães, Duque de Montpensier e Infante de Espanha, por sua vez filho do último Rei de França.
Os Orleães encontravam-se no exílio desde a proclamação da II.ª República Francesa, em 4 de Maio de 1848, o que se manteria após o plebiscito e consequente subida ao trono, como Imperador, de Napoleão III. Durante os primeiros anos da II.ª República, Luís Napoleão Bonaparte governaria sujeitando-se à Constituição, mas o sangue falava mais alto e a 2 de Dezembro de 1851, deu o golpe que haveria de ser plebiscitado duas vezes e o levaria a proclamar o II.º Império.
A princesa Dona Amélia passou parte da infância em Inglaterra, até que, por causa da governação pessoal sem restrições do Imperador francês e marcada pelos excessos dos seus apaniguados, deu-se a queda definitiva do Império. Então, com o feliz acontecimento, a Casa Real de Orleães pode regressar ao país, e, embora o seu pai apenas fosse pretendente à Coroa, a princesa teve então esmerada educação, aquela reservada às princesas.
Dona Amélia teve uma adolescência com prerrogativa real, vivendo em palácios, viajando de visita aos seus parentes reais na Áustria e em Espanha, pois a sua avó materna era filha do Rei Fernando VII – mais tarde, através da sua irmã Dona Luísa que casaria com o infante dos Carlos de Bourbon, Príncipe das Astúrias, Dona Amélia, tornar-se-ia tia-avó do Rei Dom Juan Carlos I.
Dona Amélia era uma jovem encantadora e culta, admiradora de ópera e teatro, era leitora compulsiva da melhor literatura da época, chegando a corresponder-se com os seus autores favoritos. Além disso possuía, tal-qualmente, dotes nada básicos para a pintura.
Tudo parecia talhado, para que o seu casamento ocorre-se com o herdeiro de uma coroa europeia, sendo que as mais óbvias seriam ou uma união com a família imperial austríaca ou com a família real espanhola, ficando mesmo frustrado o noivado com o arquiduque Franz Ferdinand da Áustria, por oposição do chanceler todo-poderoso Otto von Bismarck, e que salvou Dona Amélia do destino trágico do assassinato em Sarajevo, quando a Duquesa Sofia von Hohenberg pereceu ao lado do marido, acontecimento esse que precipitou o inicio da Iª Grande Guerra.

O Casamento e a Família

Foi, então, que, uma feliz coincidência impeliu os acontecimentos. De férias em Paris, Dom Carlos, Príncipe Real de Portugal e Duque de Bragança, que procurava esposa, foi apresentado a Dona Amélia e a seus pais num encontro arranjado pela Infanta Dona Maria Antónia. O encanto foi mútuo e o pedido oficial foi realizado por Dom Carlos ao Conde de Paris, a 6 de Fevereiro de 1886, sendo lavrado registo matrimonial nesse mesmo dia no Castelo d’ Eu. Os noivos partiram, então, acompanhados do pretendente ao trono de França, para um período de vilegiatura em Cannes, na Riviera Francesa, e que serviria para os noivos se conhecerem melhor. Por isso, pode dizer-se com toda a probidade que, apesar de, inicialmente, o casamento ser arranjado, Dona Amélia e Dom Carlos apaixonaram-se um pelo outro. Dom Carlos regressa a Lisboa a 6 de Maio, para ultimar os preparativos do seu casamento.
Em 15 de Maio, realizou-se a grandiosa festa de noivado da princesa, no Palácio da Galliéra, para 4 mil convivas, e que viria a ter consequências trágicas para a Família Real de França, pois foi encarada pelo governo francês como uma afronta a somar ao facto incómodo de verem uma Princesa de França casar com o herdeiro do trono de Portugal, desde sempre figadal inimigo. Embora, nunca o Conde de Paris tivesse qualquer intenção nesse sentido, cumprindo sempre escrupulosamente o protocolo, o orgulho e falta de poder de encaixe republicanos, em que a fraternidade abunda pouco, acabaria por ditar, em 22 de Junho de 1886, a promulgação da lei de exílio dos Orleães, que partiriam mais uma vez para Inglaterra, reino de liberdade.
No entanto, antes disso, a 17 de Maio de 1886, a princesa Dona Amélia, futura Duquesa de Bragança partiu de França e chegou à Pampilhosa no dia seguinte. Diz-se que terá descido do comboio com o pé esquerdo, e que no País do Fado esse acontecimento haveria de marcar o seu Destino. No dia seguinte, em 19 de Maio, pelas 17 horas, a princesa foi apresentada à Corte em Lisboa, que a esperava ansiosamente. Dona Amélia foi imediatamente bem recebida pelos sogros, o Rei Dom Luís I e a Rainha Dona Maria Pia.
O casamento real foi celebrado no dia 22 de Maio de 1886, na Igreja de São Domingos, e foi acompanhado pela multidão que saiu às ruas de Lisboa para acompanhar o cortejo nupcial – este haveria de ser o último casamento real a realizar-se, em Lisboa e Portugal, pois só em 13 de Maio de 1995 com o casamento do Senhor Dom Duarte de Bragança com Dona Isabel de Herédia, voltaria o Povo a presenciar tal acontecimento.
Depois do casamento, Dona Amélia e Dom Carlos partiram para uma idílica lua-de-mel que teria por cenário a romântica Sintra. Terminada esta, os Duques de Bragança mudaram-se para a sua nova residência, o Palácio de Belém, onde os tempos iniciais de casados foram de encantamento e sempre rodeados dos melhores dos amigos e geniais intelectuais que abundavam à época em Portugal. Dizia-se mesmo que Dom Carlos era o membro honorário do maior grupo intelectual que a nossa história já conheceu: “Os Vencidos da Vida”, um nome inversamente proporcional à craveira dos elementos que o constituíam.
Para coroar esses tempos de felicidade às 21 horas do dia 21 de Março de 1887 nascia, em Belém, Dom Luís Filipe de Bragança, o primogénito do presuntivo herdeiro do trono de Portugal. O príncipe foi entregue aos cuidados da ama D. Carlota de Campos e da Dama D. Isabel Saldanha da Gama. Tendo como padrinhos o avô paterno, Rei Dom Luís I, e a avó materna, a Condessa de Paris, o Príncipe da Beira foi baptizado a 14 de Abril, desse mesmo ano, na Capela do Paço da Ajuda pelo, então, Cardeal Patriarca.
O primeiro acto oficial da Duquesa de Bragança foi acompanhar o marido a Londres às Cerimónias do Jubileu dos 50 anos de Reinado da Rainha Vitória do Reino Unido, em representação do Rei Dom Luís I. Tendo causado grande impacto pelas suas feições, verdadeiramente de princesa, e, também, pela sua personalidade, Dona Amélia seria a única das princesas convidadas a ver o seu retrato estampado nas páginas do diário inglês “The Graphic”.
Regressados a Portugal, começaria a “Via Crucis” de Dona Amélia. Primeiro, em 14 de Dezembro de 1888, eclodiu um incêndio, nos aposentos de Dom Luís Filipe no Paço Ducal de Vila Viçosa, tendo as chamas atingido o berço do próprio principezinho, mas que haveria de nada sofrer. Já a Duquesa de Bragança, Dona Amélia, de esperanças de uma menina, sofreria um parto prematuro tendo a bebé, Dona Maria Ana, sobrevivido apenas uma poucas horas.
A 19 de Outubro de 1889 falece El-Rei Dom Luís I, e Dom Carlos torna-se o novo Rei de Portugal, já o muito jovem Príncipe da Beira, como presuntivo herdeiro, passa a ter o título de Sua Alteza Real, o Príncipe Real Dom Luís Filipe, Duque de Bragança, passando a ter o usufruto dos rendimentos dessa grande e real Casa, último morgadio que no seu tempo era ainda, legalmente, permitido em Portugal.
Em 15 de Novembro de 1889, nasce o Príncipe Dom Manuel de Bragança, Duque de Beja, e completou-se assim a Família Real.
Têm os jovens príncipes uma infância feliz e sem sobressaltos, aos cuidados de uma mãe extremosa, de uma cuidadosa dama de companhia e da carinhosa Calita, a aia. Por vontade da Rainha Dona Amélia os jovens príncipes convivem com outras crianças da sua idade, filhos das mais nobres famílias do Reino. Uma cuidada e rigorosa educação, revelou as qualidades inatas dos Príncipes, mas despertou-lhes também a cordialidade, a amabilidade e mesmo a bondade para com os outros, atributos de que haveriam de dar provas muito frequentemente.
Entretanto, em Setembro de 1890, o Rei Dom Carlos I fica muito doente, foi o inicio da sua diabetes de tipo II. Ao mesmo tempo começa o longo período de instabilidade política no Reino, com os governos a sucederem-se.
A maior das crises políticas, que o rei enfrentou foi, logo no início do seu governo, o Ultimato britânico de 1890 usado pelos republicanos para inflamar a insatisfação popular e acicatar o ódio à Família Real Portuguesa. O Reino Unido apresentou a Portugal o Ultimato britânico de 1890, que intimava o desígnio expansionista de Portugal, concretizado no Mapa Cor-de-Rosa a desocupar os territórios compreendidos entre Angola e Moçambique num curto espaço de tempo, caso contrário seria declarada a guerra entre os dois países. Assim se perderam importantes áreas e a propaganda republicana aproveitou o momento de grande alvoroço nacional para responsabilizar a Coroa pelos reveses no Ultramar. Em 31 Janeiro de 1891, no Porto deu-se mesmo um golpe republicano, mas que foi debelado.
O que a propaganda republicana não divulgava, pois não lhes interessava, foi o papel do Rei que soube inverter a conjuntura e, fruto do seu exímio dom diplomático instalou Portugal no centro da diplomacia europeia da primeira década do século XX.

A Função da Rainha

Como Rainha, porém, Dona Amélia desempenhou um papel importante. Com a sua elegância e carácter culto, influenciou a corte portuguesa. Interessada pela erradicação dos males da época, como a pobreza e a tuberculose, fundou em 11 de Junho de 1899 o Instituto Nacional de Assistência aos Tuberculosos, assim como dispensários, sanatórios como o Sanatório para a assistência nacional aos Tuberculosos, em 18 de Maio de 1907; além de lactários populares, cozinhas económicas e muitas creches. Fundou o Instituto Pasteur em Portugal e o Instituto dos Socorros a Náufragos, em 1892.
Não obstante a crise política, Dona Amélia via reconhecido o seu trabalho com os necessitados, especialmente com as crianças pobres e os órfãos, por isso nesse mesmo ano de 1892, a 4 de Julho, Dia de Pentecostes, recebe do Papa Leão XIII, pelas mãos do Núncio Apostólico, a Rosa de Ouro, em sinal do reconhecimento do seu mérito. A Rosa de Ouro é uma oferta simbólica que os Papas costumam enviar a Reis, príncipes ou mesmo a altas individualidades, assim como a santuários, igrejas e cidades em sinal de particular benevolência ou em reconhecimento dos serviços prestados à Igreja Católica Apostólica Romana. Esta distinção pontifícia teve origem no século XI e pode revestir a forma de uma única flor ou de um conjunto de rosas sem ou com recipiente – este último foi o caso da distinção da Rainha Dona Amélia.
Sua Majestade a Rainha Dona Amélia criou, ainda, a Assistência Nacional aos Tuberculosos e em 1905 foi a vez de abrir o Museu dos Coches Reais. Aproveitando-se disso, a propaganda republicana, que estava adquirindo influência, apelidava-a de “beata gastadora e leviana”, como se, cuidar dos menos favorecidos da sociedade, contribuir para o salvamento de vidas e elevar a cultura portuguesa merecesse qualquer que fosse desses nomes e adjectivos depreciativos. Enfim, a intolerância jacobina republicana no seu pior.
Em 1894 sofre mais um revês, a morte do pai, o Conde de Paris, cuja cabeceira não largou até à sua partida.
Em 1896 participa nas entusiastas celebrações que decorreram em Viena da Áustria por altura do casamento do irmão.
Em 1897 foi a vez de acompanhar os derradeiros momentos da avó, A duquesa de Montpensier.
Em 30 de Outubro de 1899 volta à sua Twickenhem natal por altura do casamento da sua irmã a Princesa Isabel de Orleães com monsigneur Jean Pierre Clémente, Príncipe de Orleães e Duque de Guise, onde convive com os primos de Sua Majestade o Rei Dom Carlos, a Família Real Britânica.
A Rainha foi sempre o braço direito d’El-Rei Dom Carlos que incansavelmente acompanhou sempre nas suas viagens de Estado como em 1896 a Itália, em 1904 a Inglaterra e França, assim como no seu périplo por Portugal, ou a receber as Famílias Reais europeias no País, como em 1903 e 1905, quando recebe o Rei Eduardo VII de Inglaterra, em Janeiro de 1905 aquando da visita dos Duques de Connaught, a Rainha Alexandra de Inglaterra e o Kaiser Guilherme II em Março desse mesmo ano ou o Presidente francês Loubet em Outubro, e , também, em 1905, o Rei Afonso XIII de Espanha.

A Mãe

Como mãe, a Rainha soube dar uma excelente educação aos Príncipes, seus dois filhos, alargando-lhes os horizontes culturais como com uma viagem, iniciada em 26 de Fevereiro de 1903, pelo Mediterrâneo, a bordo do iate real Amélia IV, mostrando-lhes as antigas civilizações romana, grega e norte-africana, especialmente, a egípcia. O barco era um navio de aço, com casco duplo, com 70,1 metros de comprimento, com 1240 toneladas que eram deslocadas por dois motores de tríplice expansão de três cilindros com 1.800 cavalos, que lhe permitia atingir os 15 nós de velocidade. Partindo do Tejo, inicia-se a viagem privada da real mãe com os seus jovens filhos pelo que pretendendo a privacidade, a Rainha, adopta o seu título anónimo de Marquesa de Villa-Viçosa – com que, mais tarde, virá a assinar muitas cartas do exílio para evitar a censura republicana a incomodar as suas amizades que ficarão em Portugal. A primeira etapa seria Cádis, onde foram recebidos com as protocolares e reais salvas de tiro pela esquadra espanhola que ignorou que a Rainha viajava incógnita. Aí encontra-se com a mãe e a irmã e seguem para Gibraltar, donde de comboio partem para Sevilha, onde estava aportado o iate. Em Sevilha, o afamado galanteio local, virava-se para a Rainha, que viajava com os oficiais e o ajudante às ordens d’El-Rei fardados, e replicavam que ”Vossa Majestade por cá não precisa disso!”, pois julgavam-nos guarda-costas da Rainha.
Seguiram-se Oran, Argel, Tunis, Malta e Alexandria. Num cruzeiro pelo Nilo a bordo do iate do Quevida Hilmi Abbas II, visitam as maravilhas do Antigo Egipto.
A Família Real haveria ainda, no seu périplo pelo Mediterrâneo, de se encontrarem em Malta com os Duques de Connaught, o Príncipe Albert I do Mónaco e sua família em Menton, Guilherme, o Príncipe Imperial alemão em Capri e em Nápoles com o Rei inglês Eduardo VII, a bordo do iate real Victoria and Albert. Em Livorno a Rainha Dona Amélia reencontra-se com a sua irmã, Princesa Helena, Duquesa de Aosta e os Príncipes Dom Luís Filipe e Dom Manuel ficarão uma temporada com a duquesa no Castelo de Capodimonte enquanto a Rainha parte para França para uma pequena viagem de recordação.
Depois foi a vez de voltar a Portugal e agudizou-se o rebuliço republicano.

O Princípio do Fim

Em todo o lado que o coração estava livre de maldade e preconceito, a Rainha Dona Amélia era elogiada e mesmo louvada. Eça de Queiroz, Príncipe das Letras, em 1898 consagrou-lhe enormes elogios: “A rainha de Portugal recebeu do Céu favorável este dom duma beleza adoçada de graça, qu’il fait bom de regarder, e que, só porque aparece, governa. E esta qualidade de mulher quase se torna social, quase se torna uma virtude de estado, entre um povo, como o Português […] A rainha tem esta expressão sentimental e anti-doutrinária da caridade portuguesa. É uma senhora de grande e dedicada esmola. E a sua esmola não baixa majestosamente do trono, numa salva, de alabardeiros. Ela própria a leva, sob um véu espesso, a todos os recantos, onde pressinta uma lareira apagada, farrapos tão rotos que já nem se remendam, a enxerga pisada pelo lento sofrer”. O próprio eloquente republicano Bernardino Machado enaltece as virtudes de Dona Amélia: “A Rainha é tão boa que não há miséria de que o seu coração generoso se não amerceie; e, por onde ela passa, o seu doce sorriso reconforta as almas”.
Porém, por causa do agudizar da situação política, o presidente do governo Hintze Ribeiro proibiu as manifestações anti-patriotas e isso originou o pior episódio de desautorização pública envolvendo a Rainha. Num espectáculo tauromáquico, sentada na tribuna real, a soberana Rainha de Portugal foi vilipendiada pelo mesquinho Afonso Costa que ao entrar na Praça por entre “Vivas!”, combinados, da sua camarilha, voltou-se de costas para o lugar onde a Senhora Dona Amélia estava sentada.
Era esta a situação política e que conduziu à queda de mais um governo de Hintze Ribeiro. Então, o Rei decide chamar para formar governo João Franco do Partido Regenerador Liberal que teve o imediato apoio dos progressistas, com quem fez um governo de coligação. João Franco começou a governar à inglesa 19 de Maio de 1906, aprofundando a democracia e encerrada a questão dos tabacos, com o novo contrato dos tabacos de Outubro de 1906, João Franco dedicou-se à implantação das suas reformas.
Face à greve académica de 1907 na Universidade de Coimbra e à crescente efervescência social, o amparo parlamentar dos progressistas é retirado e os ministros progressistas demitem-se: temiam que João Franco fortalecesse o seu partido à custa do deles e contavam ser chamados para formar governo assim que Franco caísse. Enganavam-se, pois Dom Carlos toma uma atitude diferente do que se esperava, apoiando firmemente João Franco. Este, afrontado pelos constantes ataques provenientes da Câmara dos Deputados solicitou ao Rei que dissolvesse o parlamento, adiando por algum tempo as novas eleições, ao que Dom Carlos aquiesceu, e João Franco passou a governar em ditadura, à turca, a 2 de Maio de 1907. Ressalve-se que ao proceder deste modo o Rei não estava a ir contra a letra da Lei, dado que fazia parte das suas funções, mas os políticos tradicionais, lobrigavam ameaçado o seu monopólio político.
A oposição gerou então uma campanha anti-governo sem precedentes pois abrangeu, também, o próprio Rei, dizendo que se estava em ditadura. Todavia, não se estabelecera uma ditadura institucional, antes uma medida de excepção, propondo-se criar as conjunturas que possibilitassem ao partido no governo vencer as eleições subsequentes.
Traindo Dom Carlos, João Franco reaviva a falsa questão dos adiantamentos do Estado à Casa Real e que vem incrementar oposição ao Rei. Depois, acontece o episódio da entrevista ao jornal françês Le Temps, que veio agastar ainda mais os espíritos e a contestação ao Rei. Nesta entrevista dada por Dom Carlos, o monarca insiste no seu apoio a João Franco. De forma a cimentar a sua posição; a entrevista tem lugar por teimosia de João Franco, mesmo com a discórdia de outros franquistas, como Vasconcelos Porto, mas teve um efeito adverso na oposição.
Não obstante, o antagonismo crescente, o partido de João Franco alcança os acordos indispensáveis com os círculos eleitorais de maneira a garantir a desejada maioria, e são marcadas eleições para o parlamento, o que poria fim à ditadura administrativa. É neste cenário de retorno a uma normalidade e equilíbrio parlamentares, que republicanos e dissidentes progressistas desencadeiam uma tentativa de golpe de estado, em 28 de Janeiro de 1908, frustrado pela apta acção do governo, que dele tivera conhecimento pela indiscrição de um conjurado, que intentou cativar um polícia amigo, mas que o último, patrioticamente foi avisar prontamente os seus superiores. Os conjurados são detidos de imediato: António José de Almeida, o jornalista revolucionário João Chagas, Luz Almeida que era dirigente da organização terrorista Carbonária, Pinto dos Santos e Álvaro Poppe. Com o afastamento destes, a liderança do movimento recaiu sobre Afonso Costa que foi também aprisionado, junto com outros golpistas, entre eles o Doutor Egas Moniz e o Visconde da Ribeira Brava, apanhados no Elevador da Biblioteca, ainda de armas na mão, preparados para avançar para a Câmara Municipal. José Maria de Alpoim foi o único a conseguir fugir para Espanha.
Em resposta, João Franco aprontou um decreto que previa o exílio para o estrangeiro ou a expulsão para as colónias, sem julgamento, de indivíduos que fossem pronunciados em tribunal por atentado à ordem pública, e que esperava pela promulgação real.
A Família Real, como era comum no início de cada ano, encontrava-se em Vila Viçosa com os seus amigos íntimos.
A 1 de Fevereiro de 1908, quando regressavam de Vila Viçosa, a família Real Portuguesa foi vítima de um atentado terrorista perpetrado por membros da maléfica Carbonária. Quando percorriam o Terreiro do Paço num landau, a exaltação vermelha dos “primos” Manuel Buiça, Alfredo Costa e mais três fez-se “A Eles!”. O Costa dispara cobardemente pelas costas da Família Real e acerta o Rei na nuca; num acto de enorme coragem o Príncipe Real Dom Luís saca o seu Colt do coldre e começa a disparar sobre o assassino do pai, mas os solavancos da carruagem fazem-no errar a pontaria e, ao invés, acaba assassinado pelos tiros sucessivos do terrorista. O Buiça que tirara a carabina escondida no varino, também, dispara atingindo Dom Manuel no braço direito, enquanto a Rainha Dona Amélia ao gritos de “Infames!” e “armada” de um ramo de flores tenta proteger a sua amada família. O tenente Francisco Figueira trespassa o Buiça com a espada e põe-lhe fim aos intentos assassinos. Os outros acabam também às mãos da polícia.
Dom Carlos gozava de uma admiração tal por todo o mundo, que pela primeira vez um Rei inglês, simultaneamente Chefe da Igreja Anglicana, entra numa Igreja Católica, o que aconteceu na missa de requiem pelas almas d’El-Rei e do Príncipe Real, em St. James.

A Queda da Monarquia e o Exílio

O Regicídio de 1 de Fevereiro de 1908, com filho e marido chacinados pelos terroristas, lançou a Rainha num pesar mortificado; o desgosto era enorme e Dona Amélia imersa numa suprema dor, soçobrou. Recolheu-se então para o Palácio da Pena, mas, com forças resgatadas de um profundo querer e abnegação pelo bem maior do seu País, sem abandonar o Rei Dom Manuel II, a quem por todos os meios procurou ajudar no reinado.
A 3 de Outubro os tiros de canhão acossam o jovem Rei nas Necessidades, então Paço Real, pelo que parte para Mafra. Foi na Pena que a Rainha Dona Amélia recebeu a notícia da revolução republicana de Outubro de 1910, que mais uma vez, como no Regicídio foi possibilitada pela atonia dos políticos. Dona Amélia junta-se ao filho, mas nada mais havia a fazer por inépcia dos políticos.
Após a proclamação da república portuguesa em 5 de Outubro de 1910, Dona Amélia partiu da Ericeira juntamente com o Rei Dom Manuel II e o infante Dom Afonso Henriques, Duque do Porto, no iate real Amélia IV – outrora palco de tantas alegrias.
O exílio levou-os para Inglaterra, a Dona Amélia para Abercorn, Richmond Hill, Surrey e depois para Fulwell Park onde fixou residência Dom Manuel II. Após, o casamento de Dom Manuel II com a princesa Augusta Vitória, filha do príncipe de Hohenzollern-Sigmaringen, a 20 de Novembro de 1920, Dona Amélia mudou-se para França para o Castelo de Bellevue, em Chesnay, nos arredores do Palácio de Versalhes.
Em 2 de Julho de 1932, pouco depois da visita de sua mãe, sem que nada o fizesse prever, El-Rei Dom Manuel II morre imprevisivelmente em Twickenham o mesmo subúrbio londrino onde sua mãe havia nascido. Foi uma morte nada serena, pois, Sua Majestade Fidelíssima, agonizou asfixiado por edema da glote.
Para uma mãe consuma-se a derradeira tragédia: perdeu o filho que lhe restara.

Durante a 2.ª Grande Guerra, o governo de Oliveira Salazar ofereceu asilo político à última Rainha de Portugal de facto, mas Dona Amélia permaneceu na França ocupada, com imunidade diplomática portuguesa. De facto, a 14 de Junho de 1940, durante a 2.ª Guerra Mundial, Sua Majestade a Rainha Dona Amélia de Portugal – título oficial – viu o seu Château de Bellevue ocupado por oficiais nazis, mas recusou-se a abandonar à sua sorte aqueles que trabalhavam para si, ainda que tivesse de ficara confinada juntamente com os empregados a aposentos destinados. Os oficiais alemães capitaneados pelo general Bieneck, contudo, tendo noção da Grande Senhora cuja casa ocupavam, instalaram-se sem incomodar ou invadir os aposentos privados da Rainha Dona Amélia, o que não evitou a Sua Majestade o constrangimento de ter de dividir a sua casa com tais criaturas. Então, Salazar não fica quieto e consegue através das negociações do seu emissário declarar o castelo e o parque, que o rodeia, território neutro sobre protecção de Portugal, e a bandeira – verde e encarnada – de Portugal é içada no portão principal.
Após o fim da guerra a rainha Dona Amélia recebe o convite do Estado português para visitar o País de que fora a última Rainha soberana. Ainda antes da sua visita a Portugal, Dona Amélia aceitara ser madrinha de baptismo de Dom Duarte Pio de Bragança, nascido, em 15 de Maio de 1945, na Legação de Portugal, em Berna, Suiça, confirmando a reconciliação dos dois ramos da família Bragança assente em acordo no “Pacto de Dover”.
Então, a 17 de Maio de 1945, com 80 anos, Sua Majestade a Rainha Dona Amélia de Portugal cruza a fronteira de Vilar Formoso e regressa a Portugal.
Como não podia deixar de ser Dona Amélia visita as obras de caridade que fundara e, a 19 de Maio, os túmulos dos seus amados marido e filhos, em São Vicente. A 8 de Junho de 1945, Dona Amélia visitou o Santuário de Fátima, onde oferece à Virgem um dos seus mantos régios. O seu regresso a Portugal foi uma emotiva viagem ao passado, e, a todos os locais com que havia estabelecido laços. Foi distintamente recebida por Salazar, mas mais do que isso foi acarinhada pelo seu Povo.
Em 30 de Junho desse ano, na Gare apinhada desse seu Povo, acena à multidão efusiva e lança um sentido: “Viva Portugal!”
No dia 25 de Outubro de 1951, após 41 anos e 20 dias de exílio, a Rainha Dona Amélia faleceu no seu Castelo em Versalhes, aos oitenta e seis anos, em consequência de um fatal ataque de uremia, falecendo às 9h e 35m da manhã. Algumas das suas últimas palavras terão sido: “Quero bem a todos os portugueses, mesmo àqueles que me fizeram mal” e depois “Levem-me para Portugal, adormeço em França mas é em Portugal que quero dormir para sempre”.
O corpo da Rainha foi embarcado na fragata Bartolomeu Dias que trouxe o féretro para Portugal e depois o corpo foi trasladado para junto do marido e dos filhos, no panteão real dos Bragança, na igreja de São Vicente de Fora. Esse foi o seu último desejo na hora de sua morte. O funeral teve honras de Estado e foi acompanhado por grande parte do povo de Lisboa.

 

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