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A Dor da Rainha D. Amélia

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Com o atentado terrorista de 1 de Fevereiro de 1908 que pôs de forma odiosa o mais prematuro termo à vida de Sua Majestade El-Rei o Senhor Dom Carlos I de Portugal de 44 anos e do Príncipe Real o Senhor Dom Luís Filipe de Bragança de apenas 20 anos, respectivamente augusto marido e dilecto filho da Senhora Dona Amélia, mesmo com a desmedida dor que experimentava, o novo Rei Dom Manuel II não podia deixar de se preocupar e desassossegar com o sofrimento de Sua Mãe, a Rainha, que perdera em simultâneo e de forma tão vil o Filho e o Marido! Que tamanha e insuperável dor, essa!!!!

In ‘Notas Absolutamente Íntimas’, Sua Majestade El-Rei o Senhor Dom Manuel II de Portugal deixa-nos o testemunho dessas horas de sofrimento da última Rainha de Portugal:

‘Quando a Minha adorada Mãe saiu da carruagem foi direita ao João Franco que ali estava e disse-lhe ou antes gritou-lhe com uma voz que fazia medo «Mataram El-Rei: Mataram o meu Filho». A minha pobre Mãe parecia doida. E na verdade não era para menos: Eu também não sei como não endoideci. O que então se passou naquelas horas no Arsenal ninguém pode sonhar! A primeira coisa foi que perdi completamente a noção do tempo. Agarrei a minha pobre e tão querida Mãe por um braço e não larguei e disse à Condessa de Figueiró para não a deixar.

(…) Quando a Avó chegou foi direita à minha Mãe e disse-lhe «On a tué mon fils!» e a minha Mãe respondeu-lhe: «Et le mien aussi!» Meu Deus dai-me força. Mas antes disto houve diferentes coisas que quero contar.

A minha pobre e adorada Mãe andava comigo pelo Arsenal de um lado para o outro com diferentes pessoas: Conde de Sabugosa, Condes de Figueiró, Condes de Galveias e outros falando de sempre num estado de excitação indescritível mas fácil de compreender. De repente caiu no chão! Só Deus e eu sabemos o susto que eu tive! Depois do que tinha acontecido veio aquela reacção e eu nem quero dizer o que primeiro me passou pela cabeça.

Depois vi bem o que era: o choque pavoroso fazia o seu efeito! Minha Mãe levantou-se quase envergonhada de ter caído. É um verdadeiro herói. Quem dera a muitos homens terem a décima parte da coragem que a minha Mãe tem.

Tem sido uma verdadeira mártir! O que eu rogo a Deus sempre e a cada instante é para m’A conservar!’

A própria Rainha Senhora Dona Amélia registou essa mesma dor e mágoa no seu Diário:

‘Lisboa, Palácio das Necessidades, Sábado, 1 de Fevereiro de 1908.

Escrever. Escrever para não gritar. Para não perder a razão – sim, para não perder a razão. Para expulsar, por um instante que seja, as terríveis imagens deste dia, e suportar o longo horror desta noite, a primeira de todas as que estão para vir.

Escrevo para mim. Escrevo para não enlouquecer, (…) mas a rainha de Portugal não se entrega à loucura. Ela cumpre o seu dever, ou morre como morreu hoje o rei de Portugal, D. Carlos I, como morreu hoje o príncipe herdeiro, D. Luís Filipe, como ela própria deveria ter morrido sob as balas dos assassinos.

Meu Deus, porque permitiste que matassem o meu filho? Protegi-o com todo o meu corpo, expus-me aos tiros, quis desesperadamente que eles me trespassassem a mim. E bastou uma única bala para destruir o rosto do meu filho.

A dor cobriu tudo. Esvaziou-me o Espírito. As recordações desapareceram, estou incapaz de chorar. Inerte.

Preciso de continuar a escrever até que o dia rompa, em vez de deixar que os pesadelos me invadam num sono inquieto. É preciso descrever a realidade, mais cruel do que o pior dos pesadelos.’

Introdução e recolha das ‘Notas…’ e do excerto do ‘Diário da Rainha D. Amélia de Orléans e Bragança’ por:

Miguel Villas-Boas| Plataforma de Cidadania Monárquica

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