Monarquia, Cidadania, Democracia

Nos Últimos Dias de Abril Morreu O Conde D. Henrique

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Em fins de Abril de 1112, provavelmente entre 24 e 29, morreu o Conde D. Henrique de Portucale.

‘Todo começo é involuntário.
Deus é o agente,
O herói a si assiste, vário
E inconsciente.
À espada em tuas mãos achada
Teu olhar desce.
«Que farei eu com esta espada?»
Ergueste-a, e fez-se.’

Fernando Pessoa | ‘Mensagem’

Pode dizer-se que o Conde de Portucale D. Henrique foi o Avô de Portugal.

Dom Henrique, pai d’El-Rei Dom Afonso I Henriques, era o 4.º filho de Henrique de Borgonha, pertencendo portanto à família ducal da Borgonha, e assim sendo bisneto de Roberto I de França e sobrinho-neto do Abade S. Hugo de Cluny, e, irmão dos também duques Odo I e Hugo I.

D. Henrique, não sendo primogénito, fez vida como cruzado, sentindo-se atraído pelas zonas de maior perigo e daqui se compreende a sua vinda para a Península Ibérica, onde a Reconquista aos mouros era mais arriscada. Portucale estava sob domínio sarraceno desde 711, e em 868, o galaico Vimara Peres, vassalo do Rei de Leão, Galiza e Astúrias reconquista a região entre Douro e Minho, incluindo Portucale, e funda o primeiro Condado de Portucale, assim designado para diferenciar do restante território.
A presúria de Vimara Peres prosperou e foi governado pelos seus descendentes, até à derrota de Nuno II Mendes pelo rei Garcia II da Galiza na Batalha de Pedroso, em 1071.
Falecido Garcia II, em 1091, o Rei Afonso VI de Leão e Castela retoma a unidade dos Estados Paternos. Porém, intensificaram-se as acometidas dos Almorávidas o que precipitou a distribuição dos poderes militares e por esta altura os territórios passaram para a administração de Raimundo de Borgonha casado com D. Urraca. Entregue a Raimundo, este, não conseguiu defender eficazmente a linha do Tejo – tendo perdido Lisboa que fora cedida aos Reis de Leão pelo califa de Badajoz. Assim Afonso VI decide fortalecer ainda mais a defesa militar ocidental, dividindo em duas a zona atribuída inicialmente a Raimundo, entregando a mais exposta a Henrique da Borgonha.
O nosso conde D. Henrique, que casara pelos trinta anos com D. Teresa de Leão – filha de D. Afonso VI de Leão e de Ximena Nunes – já antes do seu casamento se distinguira na fronteira sul da Península, no combate aos Almorávidas. Agora casado com a Infanta Teresa, e apoiado pelos interesses políticos da Ordem de Cluny, imiscui-se estrategicamente e com ambição na política no Reino de Leão e Castela, conquistando a sua pretensão poder junto da Corte leonesa.
A fim de aumentar a população, valorizar o seu território e consolidar a sua autoridade, D. Henrique deu foral e fundou novas povoações, entre elas a vila de Guimarães, onde fixou a sua habitação, num Paço, dentro do Castelo que ali fora edificado no século anterior, atraindo para ali, com várias regalias, muitos dos seus compatriotas francos. Vimaranes resultou de uma presúria de Vimara Peres e significa Quinta de Vimara (Peres) – ou seja era uma povoação, mas privada. Só com o Conde D. Henrique se tornou efectivamente uma Vila, pois o Conde atribuiu-lhe foral e, facto importantíssimo, para ser considerado “O Berço da Nacionalidade” foi aí ter sido estabelecido o centro administrativo do Condado Portucalense. Em 1095 era, também, já Senhor de Braga, ou seja, D. Henrique e sua mulher tinham a tenência dos territórios que abrangiam, Guimarães, Braga, Porto, Coimbra e Santarém. A 9 de Dezembro de 1097, em Compostela, D. Henrique intitula-se ‘Comes Portucalensis – Conde de Portucale’.
Com a morte de Afonso VI, D. Henrique age como Soberano de uma potência e território independentes.


Continuou a ilustrar-se pelas armas, e, em 1100, batalha com os mouros Almorávidas, em Malagón.
Em Setembro de 1104 estabelece com D. Raimundo um Pacto Sucessório em que reconhece este último como único herdeiro de Afonso VI e se prometem mutuamente amizade e assistência. Como contrapartida deste acordo, Raimundo promete a D. Henrique a cidade de Toledo, com parte do seu tesouro, ou, em alternativa, a Galiza. Neste pacto não há qualquer referência a Portucale. Em 13 de Setembro de 1107 morre Raimundo e no ano seguinte o infante D. Sancho que lhe deveria suceder. Em Portucale, D. Henrique continua a sua senda conquistadora, submetendo os mouros em Sintra.
Na cidade de Coimbra doa à diocese o Mosteiro de Lorvão usando o mesmo formulário de chancelaria que 15 anos antes fora usado pelo herdeiro do trono em acto análogo, o que evidencia, que a partir daquele momento começou a agir como Soberano de uma potência independente. D. Henrique tomou partido contrário a D. Urraca como herdeira de Afonso VI e, em 1110, na batalha de Campo de la Espina, vence as tropas de D. Urraca; em Novembro do mesmo ano dá-se a conferência de Monzón entre D. Henrique e D. Urraca; em Novembro do mesmo ano D. Henrique cerca D. Afonso I em Peñafiel. Este cerco foi desfeito pela intervenção de D. Teresa que convence o marido a retirar o apoio a D. Urraca enquanto esta não definir claramente os termos da aliança. Em Fevereiro ou Março de 1111, D. Henrique cerca D. Urraca, que entretanto fizera as pazes com o Rei de Aragão. Na Primavera deste ano o perigo espreita em Portucale perante a ameaça almorávida sobre o Tejo. No inverno deste último ano D. Henrique dominou territórios dependentes quer de D. Urraca quer de Afonso I, tais como Zamora, Astorga e Oca. Em 1112 faz a Paz com D. Urraca que, por sua vez, também a fizera com o filho.

Inesperadamente, D. Henrique falece, em Astorga, nos últimos dias (entre 24 e 29) de Abril de 1112, sem ver concretizada a aspiração de transformar o Condado Portucalense em Reino independente. Por sua determinação foi sepultado na Sé Catedral de Braga, e, durante a menoridade do seu filho o Infante Dom Afonso Henriques, a governação do Condado passou para a viúva Dona Teresa.
Em 1121, esta, auto intitula-se «Rainha», mas os conflitos com o Clero e a sua relação com o fidalgo galego Fernão Peres, a quem entregara o governo dos distritos do Porto e Coimbra, originou a insurreição dos Portucalenses e do próprio filho o Infante D. Afonso Henriques, invariavelmente afastados, por forasteiros, da gestão dos negócios públicos. O seguinte, já seria Portugal.

Miguel Villas-Boas | Plataforma de Cidadania Monárquica

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