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Batalha de Alfarrobeira – 20 de Maio de 1449

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Assinala-se hoje o 570.º aniversário da Batalha de Alfarrobeira, ocorrida a 20 de Maio de 1449.
O Infante D. Pedro O Regente, Duque de Coimbra, filho D’El-Rei D. João I e irmão D’El-Rei D. Duarte, assumira a Regência plena do Reino desde 1439, durante a menoridade do moço Rei D. Afonso V. Foi um governante esclarecido, pois era um Infante preclaro, chamado o “Das Sete Partidas”, biógrafo e peregrino de Jerusalém, mas a sua Regedoria foi tudo menos pacífica, pois a necessidade de aumento de tributos para despesas militares face à ameaça externa, e a opção pela expansão marítima ao longo da costa africana, foram muito custosas para o povo, o que lhe granjeou o ódio dos procuradores dos concelhos; e a atribuição dos principais cargos a pessoas da sua confiança como o seu amigo e valoroso D. Álvaro Vaz de Almada, Conde de Abranches (Avranches no original), que nomeou Alcaide-Mor de Lisboa, como forma de manter o centralismo régio, desagradava muito à alta nobreza, como o seu meio-irmão D. Afonso, Conde de Barcelos (futuro Duque de Bragança), com visão tendencialmente senhorial e mesmo feudal. D. Afonso, homem ambicioso, conspirou sempre contra o meio-irmão durante a regência, não obstante ter visto o seu património sempre reforçado pelo Infante, e na breve reconciliação dos dois, em 1442, ser-lhe atribuído o Ducado de Bragança, mas que nunca foi suficiente para afastar o ressentimento do recém Duque de Bragança em relação aos irmãos, pelo facto de ser filho ilegítimo de D. João I com uma mulher solteira, Inês Pires.
Quando D. Afonso V atinge a maioridade, em 1446, convocam-se as Cortes de Lisboa, e começa a governar de pleno direito. O ex-regente D. Pedro fica, então, numa situação precária, cercado por todos lados de inimigos à procura de um ajuste de contas, e conspirando e envenenando o Rei contra si.

‘E tanto, que fizeram entender a El-Rei meu senhor que eu nunca lhe havia de entregar o regimento de seus reinos, que sempre o havia de trazer em meu poder, que fizeram com que o dito senhor me requeresse o dito regimento’, escreveu D. Pedro ao Conde de Arraiolos.

Isso, não impediu que D. Afonso V casasse com D. Isabel de Avis, filha do Infante D. Pedro, mas por Carta Régia de 15 de Setembro de 1448, Dom Afonso V condena declaradamente a política do Ex-regente e ordena inquirições aos beneficiados com a outorga de bens por D. Pedro e desmantela todo o sistema político administrativo do Infante. O Conde de Avranches é um dos partidários do Infante que é destituído, outros são mesmo presos. No sentido inverso o arquirrival do Infante, o 1° Duque de Bragança é nomeado Fronteiro-mor de Entre-Douro-e-Minho, com poderes militares superiores ao Condestável do Reino, o filho do Infante.
Foi um assalto ao poder, o que D. Afonso fez.
Perseguido e acossado, D. Pedro tinha de reagir, embora fazê-lo fosse uma sentença de morte anunciada, pois bater-se com forças desproporcionais às reais, engrossadas pelas do Duque de Bragança, era no mínimo uma acção típica do romanceado Cavaleiro Medieval. Outro exemplo do ideal de cavalaria aristocrático era o Conde de Avranches, ideal esse plasmado no seu discurso a quando da partida para recontro fatal em Alfarrobeira:

‘Antes morrer grande e honrado, que viver pequeno e desonrado, e que para isso vestissem todos, os corpos de suas armas, e os corações armassem principalmente de muita fortaleza, e que se fossem caminho de Santarém não como gente sem regra desesperada nem leal, mas como homens d’acordo, e que iam sob governança e mando, de um tal príncipe e tal Capitão, que a El-Rei seu Senhor sobre todos era mais leal e servidor mais verdadeiro, e que mandasse a El-Rei pedir e requerer, que com justiça o ouvisse com seus amigos, que lhe tão sem causa tanto mal ordenavam, ou lhe desse com eles campo, em que de suas falsidades e enganos, ele por sua limpeza e lealdade faria que se conhecessem e desdissessem. E que quando El-Rei alguma destas cousas nom houvesse por bem, e todavia quisessem. E que quando El-Rei alguma destas cousas nom houvesse por bem, e todavia quisesse vir sobre ele, que então defendendo-se morressem no campo como bons homens e esforçados cavaleiros.’

A 20 de Maio de 1449, junto à ribeira do lugar de Alfarrobeira, em Vialonga, perto de Alverca, extramuros da capital do Reino, as duas forças dispuseram-se frente a frente. Ao ver os seus homens a tombarem vítimas dos virotes dos besteiros reais e às balas dos espingardeiros, D. Pedro ordena o disparo das suas bombardas, sendo que um projéctil cai junto da tenda d’el-rei; isso traçou o destino do Infante e dos seus homens, caindo sobre eles toda a cólera do exército real. D. Pedro cai ferido de morte por uma flecha no coração. D. Álvaro Vaz de Almada varava à espadeirada a horda de vilãos que sobre tão nobre cavaleiro da Jarreteira se lançavam. Parecia que fora ontem quando o mesmo homem, bravo cavaleiro, no meio, também, de vagas de soldados franceses, quando decorria a Guerra dos Cem Anos contra a França, auxiliara o Rei inglês Henrique VI na conquista da Normandia e fizera cair a seus pés Avranches, razão pela qual foi agraciado pelo monarca inglês com o título de Conde de Avranches (Earl of Avranches), a favor de D. Álvaro Vaz de Almada e seus descendentes, por carta de 4 de Agosto de 1445. Entende-se que já antes, em 1415, tinha participado na batalha de Azincourt ao lado dos Plantageneta. Por isso, também, foi dos poucos estrangeiros e o único português que não da realeza a ser agraciado cavaleiro da Ordem da Jarreteira, a mais nobre ordem da Inglaterra, da qual é o 162° Cavaleiro. Foi ainda um dos míticos ‘Doze de Inglaterra’, Alferes-mor do Reino e Capitão-mor do Reino e do Mar.
Pelo pacto de sangue com o seu Senhor, o Infante, e o cavaleirismo de que era o epítome, sabia que estava ali para morrer, cercado dos corpos exangues dos seus homens e dos inimigos que matara, com a espada na mão, caindo aos golpes dos infanções reais que o feriam e suspirando:

– Meu corpo sinto que não podes mais; e tu, minh’alma, já tarda!

Levanta-se e de espada em riste, solta o último grito de guerra e lança-se para a morte que lhe deram os cavaleiros-vilãos de D. Afonso V e D. Afonso (I) de Bragança:

– É fartar vilanagem, rapazes!

Morre o Infante D. Pedro e o primeiro dos Condes de Avranches e último rico-homem de Portugal, e com eles uma certa ideia de justiça maior. O exército real de 30.000 soldados esmagou completamente os 6.000 homens do Infante D. Pedro de Avis, Duque de Coimbra, um dos da Ínclita Geração.

Miguel Villas-Boas | Plataforma de Cidadania Monárquica

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