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D. Manuel II – Viagem Ao Norte Do Reino

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Viagem Régia de D. Manuel II ao Norte de Portugal

Com o Regicídio, no qual foram assassinados El-Rei Dom Carlos I e o Príncipe Real Dom Luís Filipe, Dom Manuel II era o novo Rei de Portugal e era hora de rumar ao Norte do Reino para a Sua primeira viagem oficial.

Enquadrado no périplo régio de 15 dias pelo Norte do País, a 8 de Novembro de 1908, S.M.F. El-Rei Dom Manuel II de Portugal parte de comboio para o Porto com um séquito no qual seguiam o Almirante Ferreira do Amaral, Presidente de Conselho, os ministros Campos Henriques e Wenceslau de Lima – muito influentes na região norte -, o Marquês de Lavradio que era o secretário do Monarca, o Conde de Sabugosa (camareiro-mor) e o Conde de Tarouca, os coronéis António Costa e Fernando Eduardo Serpa, o capitão-de-fragata António Pinto Basto e os médicos da Real Câmara.

O novel Rei de Portugal chegou ao Porto dia 09 de Novembro de 1908, desembarcando na estação de Campanhã, num dia de chuva, o que não impediu o Monarca de logo ali experimentar um banho de multidão. Temerário, El-Rei uniformizado de Marechal-General do Exército – posto privativo do Rei de Portugal – como num desfile triunfal, seguiu num landau aberto levado por uma onda de Povo que o aclamava entusiasticamente, e, com uma guarda de honra a cavalo composta pela recém-formada Legião Azul, um grupo de jovens retintamente monárquicos que se organizou em associação propositadamente para prestigiar o Rei de Portugal na viagem régia.

S.M.F. El-Rei Dom Manuel II de Portugal quase que era alevantado – como faziam aos antigos Reis – por uma maré de gente, que bradava sem parar ‘Viv’ó Rei!’, e que parecia mover o landau, tal era a forma calorosa e arrebatada com que os Portuenses, percorrendo as ruas da capital do Norte, seguiam em cortejo até ao centro da Cidade Invicta.

De acordo com os jornais da época, facilmente comprovado pelos clichés fotográficos, sobressaiu além da Real e simpática figura d’El-Rei o Senhor Dom Manuel II de Portugal, a multidão constituída por todas as classes sociais que acorreu a ver com olhos faiscantes o novo Monarca: uma legião de cabeças, um mar de chapéus a agitar, ao som de palmas e vivas ao Rei a ressoarem na capital do Norte.

Rei pelos Altos Decretos do Destino, Sol sem ocaso, que passava sem exigida autoridade, mas que pela gema sem preço que era, tinha toda a atenção do auditório.

Suspensos pelo privilégio da Sua passagem, sugestionados pela expressão superlativa da imagem real, todos eram atraídos instintivamente por aquele íman subjectivo que era o Rei de Portugal. Pela Figura, pela Ideia cheia de honra e glória, pelo Rei engalanado de brasões da Sua Dinastia e da nossa História, passava Ele e com Ele passavam a Fundação, a Reconquista, Aljubarrota, as Descobertas, as Caravelas, a Restauração… eis Sua Majestade que Nele continha toda a História de Portugal!

O corpo e o espírito do Povo, que acorreu entusiasmado à entrada do Rei na Invicta, glorificava o seu Rei com ruidosas manifestações de sentimento, porque o trono do Rei de Portugal sempre foi alçado não num estrado mas erguido nas bases sólidas do direito público nacional e argamassado na fidelidade e amor recíproco entre Monarca e Povo.

Ó feliz harmonia do pacto do Rei com as Cortes e que fez com que desde o próprio Rei Fundador Dom Afonso Henriques, o Rei fosse sempre Aclamado e nunca imposto! Era a coesão nacional, o acordo justo e desvelado!

E à Sua passagem a Nação Portuguesa e a sua História eram evocadas e resumidas num grito pátrio: ‘VIV’Ó REI!’ Nesse alevantado sentimento se estreitava o Rei e o Povo português. Era um Triunfo Cesáreo, digno de um descendente dos Imperadores romanos da Dinastia Comnenus e Paleólogo, dos Reis Capetos de França, da estirpe real dos Orleães, dos Saxe-Coburgo e Gotha, dos Imperadores da Hispânia, do Rei Fundador Afonso Henriques. E Ele, Sua Majestade Fidelíssima El-Rei Dom Manuel II de Portugal, que descendia dos maiores Reis da Terra, mostrava-se português em tudo e não se fazia rogado em estender a mão e a Sua palavra fácil e amistosa ao Povo.

O povo não poupava na retribuição, como, também, se pode constatar pela mensagem lida e entregue a El-Rei pela Mocidade Monárquica do Porto:

‘Senhor DOM MANUEL II, a Cidade do Porto, mantendo as suas nunca desmentidas tradições de fidelidade, toda ela, vibrante de entusiasmo, corre a saudar e a prestar a homenagem devida à Augusta pessoa de Vossa Majestade, na primeira visita com que Vós Senhor, Vos dignastes honrá-la. (…) Ora em Vossa Majestade, encarnação sublime da Pátria, depositamos nós todas as lisonjeiras e prometedoras esperanças.

Príncipe educado numa vida de laboriosa atividade intelectual, (…) Príncipe inteligente, bom, leal, amante do seu País e amado do seu povo: – Príncipe assim, há-de ser Rei digno de sua Pátria e fazer a Pátria digna de seu Rei. (…)

Senhor, Pela Pátria e Pelo Rei, será essa a nossa divisa.’

Depois, chegado aos antigos Paços do Concelho, da varanda da edilidade, o recém Aclamado Rei de Portugal, El-Rei Dom Manuel II, proferiu o seguinte juramento:

‘Portuenses e amigos: Na vossa casa e perante vós, Eu, Rei de Portugal: Juro manter a Monarquia Constitucional; juro concorrer quanto em mim caiba para o desenvolvimento harmónico das liberdades civis e políticas, que sirvam de base ao levantamento moral e material da nossa querida Pátria!’

O Rei ficou instalado no Paço Real do Porto, o antigo Palácio dos Carrancas, Barões de Nevogilde, adquirido para uso real por D. Pedro V.

10 de Novembro de 1908, segundo dia da estada d’El-Rei Dom Manuel II no Porto, integrada na viagem régia de 15 dias pelo Norte do Reino, e mais da mesma imensa multidão entusiasta para acompanhar o Soberano num cortejo desde o Paço Real do Porto até à Igreja da Lapa para o solene Te-Deum, celebrado pelo Bispo D. António Barroso. A Igreja abarrotava de fiéis a Deus e ao Rei, e à saída a mesma multidão compacta de Povo a agitar os chapéus e a gritar vivas ao novel Monarca envolveu de novo o Soberano de Portugal.

A Mui Nobre Sempre Leal e Invicta Cidade do Porto empenhava-se em mostrar a sua dedicação e fidelidade à Coroa e à Monarquia. Foi o delírio popular com o Rei a não ser parco nos agradecimentos, nos acenos e mesmo nos cumprimentos. Visitou o Colégio dos Órfãos e à tarde o Palácio da Bolsa e o Hospital de Santo António. Depois, recolheu-se ao Paço, pois no dia seguinte seguiria para Braga, próxima paragem da viagem Régia de Dom Manuel II que percorreria todo o Entre-Douro e Minho – ainda voltaria ao Porto durante este périplo.

No dia 11, El-Rei visitou Braga, onde recebeu novo banho de multidão durante a volta pela cidade dos arcebispos; seguiu depois para Guimarães e no dia 15 voltou ao Porto.

A 15 de Novembro de 1908, S.M.F. El-Rei Dom Manuel II regressa ao Porto para festejar o Seu Aniversário, onde o aguardavam a sua Augusta Mãe a Rainha Dona Amélia e o tio Infante Dom Afonso, Duque do Porto. Mas além das reais figuras aguardava-O, também, o bom Povo portuense que enchia o largo fronteiro ao Paço Real do Norte – vulgo Palácio dos Carrancas. Constantemente cheio de gente a gritar ininterruptamente ‘Viv’ó Rei!’, Dom Manuel II vinha à janela frequentes vezes para acenar à aclamação popular. Nos elementos da Legião Azul e da Mocidade Monárquica, que quando o Rei chegara ao Porto da primeira vez formaram a Sua escolta de Honra, até se vislumbravam lágrimas de emoção.

Nenhuma outra instituição causava mais fascínio que a Real: o Rei era a personificação da História de uma Nação milenar, que pelo engenho e pela conquista traçou as fronteiras na Península e pela imaginação e curiosidade das caravelas dilatou o Império. Felizes os Povos que têm História, e que têm um Rei para encarna-la!

À noite a Associação Comercial do Porto presenteou o Rei com um magnífico banquete no qual marcou presença não só a fina-flor portuense, mas, também, vieram de Lisboa os restantes membros do governo, altos dignitários, Casa Militar, aristocratas, artistas e numerosas individualidades. O aniversariante real agradeceu num discurso emocionado.

No dia 17, ido do Porto o Rei de Portugal chegou com a comitiva Real à estação ferroviária de Viana do Castelo. A população de todas as classes sociais do Alto Minho acorreu a ver o novo Rei e proporcionou-lhe uma recepção apoteótica. As belas minhotas trajadas à Vianense, mordomas e lavradeiras vestidas com os trajes tradicionais de cada freguesia da capital do Alto Minho lançam pétalas de flores ao Rei e progridem com a sua comitiva pelas principais ruas do Centro Histórico de Viana do Castelo. Que espectáculo prodigioso os tradicionais e coloridos Trajes à Vianense de lavradeira, de mordoma, de noiva, de meia senhora ou com traje de festa, segurando na mão, envoltos num lenço de Viana, uma vela votiva ou um palmito e envergando ao peitilho os mais variados artefactos do chamado Ouro de Viana: gramalheiras, fios – alguns de três metros – com e sem pendente, colares de contas, peças, custódias, borboletas, cruzes de raios e de Malta, Corações de Viana em filigrana, brincos à Rainha, escravas, tudo em ouro e num valor que rondaria una largos milhões de reis. Depois Dom Manuel II de Portugal visitou os Paços do Concelho, aos asilos dos velhotes, a Misericórdia e os belos e inúmeros templos.

‘Povo bondosíssimo deste Minho tão belo e calmo que sabe sentir e vibrar de comoção ante dores e alegrias; Sabe recordar com merecido horror o execrando crime que me privou de um Rei que era pai bem-amado e de um Príncipe que era meu queridíssimo irmão, ao mesmo passo afogando em seu coração tão fundas mágoas saúda hoje com entusiasmo e alegria aquele que chamado à sucessão dos seus maiores é hoje Conde e Duque de Barcelos e Rei de Portugal.’

À noite foi oferecido ao Monarca um banquete onde estiveram presentes os altos dignitários e os representantes das mais distintas Famílias minhotas. Ao fim da noite o Senhor Dom Manuel II é brindado com um deslumbrante espectáculo de fogo-de-artifício.

Sua Majestade Fidelíssima El-Rei Dom Manuel II de Portugal permaneceria os dias 17 e 18 de Novembro na região, onde receberia mais honras e privaria com o Povo e com alguns amigos da região cujos pais tinham prestado serviço no Paço ou ocupado pastas nos Ministérios no tempo de Seu Augusto Pai o Senhor Rei Dom Carlos I.

No dia 19, El-Rei Dom Manuel II de Portugal regressou ao Porto, e depois continuou a percorrer o Norte: visitou Gaia, Matosinhos, Barcelos, Leça de Palmeira, Santo Tirso, Espinho, Feira, Oliveira de Azeméis e Aveiro e em todos estes locais foi recebido com entusiasmo e afeição popular.

Em Santo Tirso, no dia 25 de Novembro, juntaram-se aos locais, gentes de todo o Norte, e à entrada e saída dos Paços do Conselho El-Rei foi envolvido num novo mar de gente. Na Fábrica de Negrelos foi homenageado com um almoço de gala.

Na Lusa Atenas, Coimbra, as manifestações exuberantes excederam tudo quanto se possa narrar, fazendo lembrar a manifestação da delegação daquela Universidade que a 27 de Maio desse mesmo ano acorrera a Lisboa para saudar e jurar fidelidade ao recém Aclamado Rei. Sob o Pálio da Velha Universidade, o Rei, uniformizado de Generalíssimo, atravessou a cidade dos estudantes em préstito, sempre acompanhado pelos milhares de jovens universitários que o saudavam em uníssono e pelos lentes da Universitas, com veste talar e insígnias doutorais, entre a Sé Nova e o Paço das Escolas, onde Sua Majestade Fidelíssima recebeu, ainda, as homenagens na Universidade. O regresso ao Porto não o fez sozinho, mas acompanhado por 300 estudantes que fizeram questão de O seguir pelo menos durante um quilómetro.

Depois as recepções e honrarias ao Rei continuaram na Capital do Norte até 4 de Dezembro, data que, Dom Manuel II, pondo fim à viagem oficial de 15 dias, regressou a Lisboa.

Miguel Villas-Boas | Plataforma de Cidadania Monárquica

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