Monarquia, Cidadania, Democracia


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10 anos depois

Estando eu, prestes a completar, no próximo dia 19 de Agosto, 10 anos de militância monárquica na Net, gostaria de recordar com os nossos caríssimos leitores algumas passagens do que há precisamente 7 anos, no primeiro boletim do Fórum Democracia Real afirmei.

Quem se recorda desses tempos, certamente se recordará que o Fórum Monarquia-Portugal, foi a primeira grande experiência de militância a sério, da minha parte, na defesa do Ideal Real. Há pessoas que odeiam que eu fale do que fiz, com medo, presumo, de querer demonstrar algum pretensiosismo em termos de protagonismo, mas a verdade, tem que ser dita com toda a clareza: quem criou o Fórum Monarquia-Portugal fui eu, quem o manteve até ao fim, fui eu. Mas nunca me esqueceria, dos que comigo, estiveram de boa fé, na luta pela divulgação do Ideal Real.

Sempre acreditei que a Internet é o melhor meio ao dispôr dos Monárquicos para a defesa da Instituição Real. Os motivos para a construção desse espaço online, de debate, foram essencialmente, a ideia que eu tinha e continuo a ter, pois a guerra ainda não acabou, de Divulgação do Ideal Monárquico a um cada vez maior número de Portugueses. De facto, o Fórum Democracia Real acabou por se tornar conhecido do público, quando em 2007, a Assembleia da República vota favoravelmente pela transladação de Aquilino Ribeiro para o Panteão Nacional e nós, nos erguemos contra, quem na altura não só tinha votado a favor e lançámos uma petição com o título “Terrorismo não deve ter honras de Estado”, falada aliás na Imprensa Escrita, assim como no programa “Prós e Contras” – cujo tema em debate foi precisamente “Rei ou Presidente?”. Infelizmente, não fomos felizes mas mostrámos a nossa posição, entendendo que, se é um facto por demais evidente que o escritor Aquilino Ribeiro, participou em actos considerados hoje como “terroristas”, pois sabe-se que o mesmo construía bombase foi preso, precisamente por isso, no tempo da Monarquia Constitucional, também se sabe, e aliás o próprio o afirmou na sua obra “Um Escritor confessa-se”, que ajudou a matar o Rei Dom Carlos I!

Os fórum de debate online, dão como muita gente deve imaginar, imenso trabalho, mas é importante aqui referir determinados aspectos que considero fundamentais:
– nunca no FDR foram autorizadas publicações que ofendessem O Senhor Dom Duarte!

– nunca no FDR foram autorizadas publicbações que pusessem em causa a Sucessão Real – ou seja, nunca aceitámos, de forma alguma, que pessoas que são monárquicas para fins de promoção pessoal, alegando pretensões inexistentes e absurdas ao Trono de Portugal!

– Fomos sempre fiéis e Leais à Casa Real Portuguesa!

Quando a situação se tornou incontrolável, pois, obviamente, nos fóruns, mesmo os expulsos regressam com perfis com e-mails alternativos, decidi pôr fim a essa aventura e passei para a blogosfera, com o Projecto Democracia Real! – o PDR!

Com o Projecto Democracia Real procurou-se manter a linha de continuidade do Fórum Democracia Real, reunindo uma equipa de trabalho dedicada. Foi, de facto, um projecto de enorme exigência. Desde a primeira hora procurei sempre ter em mente que era importante divulgar este trabalho ao máximo de número de pessoas possível. E entretanto surgiram as Redes Sociais, como o Hi5, o Facebook, o Youtube, etc. e obviamente procurei fazer vídeos de promoção do projecto, para o youtube, e criei páginas de divulgação no Facebook, passando pelo Twitter!

Além de tudo isso, fazia-se um Boletim periódico, onde se entrevistaram, SAR O Senhor Dom Duarte, O Dr. Paulo Teixeira-Pinto, então Presidente da Causa Real, o Dr. Hernâni Carvalho. – cujas entrevistas aqui serão colocadas durante o mês de Agosto próximo!

A defesa da Instituição Real, com os seus perigos naturais, tornou-se numa paixão perigosa, e causou-me deslumbramento excessivo! É importante que todo o jovem monárquico que ler o que aqui escrevo, perceba que não é nenhum salvador da pátria! A Monarquia, em Portugal, só se restaurará se assim for vontade de todos os Monárquicos, e acima de tudo, de todos os Portugueses! Banner_PDR_final

Este foi o último logótipo do então PDR – Projecto Democracia Real. Foi, sem dúvida, um projecto que pessoalmente, muito me marcou, pois empenhei todo o meu amor à Causa em que sempre acreditei e lutei e pela qual, obviamente, continuo a lutar! Não foi um percurso perfeito, era o que faltava! Cometi os meus erros, evidentemente, a começar por dar confiança em quem, obviamente, se verificou que não merecia, mas fiz o que entendi ser justo fazer. Sempre fui Leal não só à Casa Real Portuguesa, como também ao princípio de Monarquia pela própria defendido: A Monarquia Democrática!

De nada me arrependo, pois não cometi crime nenhum! Quem nunca errou que atire a primeira pedra! BOLETIM PDR 1Esta foi a primeira capa do Boletim do PDR. capa boletim IIEsta foi a capa do II boletim.

CapaBoletim3A capa do III Boleitm, ilustra o princípio do fim.

De facto, o III Boletim, foi o meu último esforço para manter este projecto, mas infelizmente pouco depois do lançamento, o PDR era exposto às maiores barbaridades na Net, e naturalmente, entendi naquele preciso momento, já não haver mais condições para continuar. Em 2011, o Projecto Democracia Real acabava, mas o sonho e os objectivos nunca! Nunca desisti rigorosamente de nada, apenas entendi que a estratégia tinha que ser outra. Algo de diferente tinha que ser feito. Tentei lançar uma platafaforma de “regeneração nacional”, mas fui muito mal acompanhado! Entretanto, já no ano 2013, pus mãos à obra para lançar um projecto que, de facto, tem feito o seu caminho, já com quase 1000 seguidores no Facebook, A Plataforma de Cidadania Monárquica! – Todos os sites, blogues, etc. são plataformas online. Cidadania, pois, efectivamente se se defende uma Monarquia Democrática, e se uma Sociedade Democrática, tem no seu conjunto Cidadãos, iguais todos eles perante a Lei!, é evidente que a base de sustentação do apoio à Monarquia só pode vir da Sociedade Civil, da Cidadania!

Esta plataforma é também Monárquica, pois, porque o nosso objectivo último é a divulgação do Ideal Real, uma alternativa de regime contra a III República que nos governa! ou desgoverna!…

De facto, não sou nenhum génio. Fiz sempre o que entendi que podia fazer, e tenho o feito, com imenso agrado! Vejo que a Internet, de facto, veio ajudar o movimento monárquico português, e é de facto, uma arma bastante poderosa!

Conto continuar, conjuntamente com toda a equipa da Plataforma de Cidadania Monárquica, nesta luta em prol de um Portugal melhor, para as próximas gerações! Que Viva o Rei! Que Viva Portugal!

David Garcia


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Entrevista com o Dr. Nuno Pombo

Presidente RAL

Este mês de Fevereiro acaba com mais uma Entrevista, como tem sido hábito, desde Setembro do ano passado. Desta feita, o meu convidado é o Dr. Nuno Pombo, Presidente da Direcção da Real Associação de Lisboa; Real Associação esta, que por sinal, me diz particularmente respeito também!

1. Dr. Nuno Pombo, antes de mais, muito obrigado por ter aceite o nosso convite para ser o nosso entrevistado do mês de Fevereiro. Gostaria de começar esta entrevista lhe perguntando, quando é que se apercebeu que se revia na Monarquia?

Eu é que agradeço a amabilidade do convite e a oportunidade de prestar este testemunho.

Sempre me interessei por política e desde pequeno me lembro de gostar imenso de ouvir falar de política. Nasci antes do 25 de Abril e lembro-me bem de crescer num ambiente politizado. Mas a questão do regime, pelo menos em minha casa, nunca se pôs. Foi um pouco antes de entrar na Faculdade que me apercebi de que a República não fazia qualquer sentido, em Portugal. E comecei a juntar várias peças que já tinha no meu imaginário, no meu ideário, e que faziam de mim, estruturalmente, monárquico.

Quem viveu com entusiasmo, como eu, as eleições presidenciais de 1986, percebe talvez melhor o que pretendo dizer. O país praticamente dividiu-se ao meio. Metade do país queria um candidato e a outra metade, na verdade, escolheu o outro, ainda que o não quisesse. Engoliram-se sapos e sais de frutos… e no dia seguinte já havia autocolantes a dizer “O meu Presidente é outro”. À distância, diria que foi esta experiência que me fez, algum tempo depois, chegar à conclusão de que seria muito mais útil optarmos, colectivamente, por um sistema que nos “desse” um representante comum. Que nos permitisse encontrar alguém que todos representasse e em quem todos reconhecessem uma autoridade natural.

Note que este exercício foi acompanhado por outra constatação. A de que o “governo”, o administrador da coisa pública, é necessariamente efémero, contingente. Os governos sucedem-se e o País permanece. Quem se apercebe desta evidência ganha perspectiva, horizonte. O País que hoje temos de gerir, será gerido amanhã pelos nossos filhos e netos, sendo também certo que o recebemos dos nossos pais e avós. Há uma continuidade geracional. Há um feixe temporal que vai moldando esta realidade sem beliscar a sua essência. Um país não é só espaço. É também tempo. E mesmo quanto ao espaço, há que reconhecer que Portugal é muito mais do que “espaço político”, chamemos-lhe assim. É também uma enorme e global comunidade de afectos que resulta de uma experiência multissecular de partilha. De pertença. Podemos estar no outro lado do planeta e ter a sensação de que estamos em casa. Nós andámos pelo mundo todo e, talvez como nenhum outro país, somo feitos disso… de mundo.

Portanto, e para encurtar razões, a certa altura dei-me conta de que a Instituição Real, aqui e agora, é o único sistema que permite legitimar a representação nacional no que há de mais natural: o tempo e os afectos…

2. Quer nos falar um pouco sobre o seu percurso na militância Monárquica, enquanto associado da Real Associação de Lisboa?

Quando me apercebi do meu estrutural monarquismo, procurei saber se havia alguma organização monárquica em Portugal. Havia o PPM que, por ser um partido, nunca me cativou e depois soube da existência da Real Associação de Lisboa, que tinha sido criada há pouco tempo. Associei-me (sou o sócio 648) e comecei a participar, com toda a naturalidade, nas suas actividades. Não perdia uma conferência! Depois fui convidado para integrar uma lista que concorreu aos órgãos sociais e fui eleito vogal da Direcção. Foi uma experiência muito importante em termos de militância monárquica. Conheci pessoas fantásticas, na Real Associação de Lisboa e noutra Reais Associações! Acabado esse mandato, voltei à condição de mero associado e continuei a participar nas actividades e a dar a colaboração que me era pedida. Com um grupo de amigos – o João Mattos e Silva, o D. Vasco Teles da Gama, a Maria da Conceição Mascarenhas, o Raúl Bugalho Pinto e outros – fizemos o “quinta-feira.com”, um grupo informal que se reunia uma vez por mês, na última quinta-feira de cada mês, com um orador. Chegámos a ter 70 pessoas, tínhamos uma coluna mensal no Semanário e depois no Diário Digital … Alguns desses textos foram compilados em livro (“Aqui d’El-Rei!”).

Anos depois fui convidado pelo Dr. João Mattos e Silva, que conheci durante a minha primeira experiência directiva e de quem fiquei muito amigo, para voltar à Direcção e aqui continuo, com a preocupação de servir.

3.  Actualmente exerce as funções de Presidente da Direcção da Real Associação de Lisboa. Como é que interpreta a missão para a qual os associados o elegeram?

Ser Presidente da Direcção tem apenas relevância de representação institucional. Existe uma Direcção, que é um órgão colegial, e funcionamos colegialmente. Não pode ser de outra maneira.

A Real Associação de Lisboa, no panorama do movimento monárquico, tem uma enorme importância. A missão que temos, que assumimos desde o primeiro minuto, foi a de contribuir activamente para que a Instituição Real possa ser apresentada e tida como uma alternativa política. Esse é o objectivo. É a meta. O caminho passa por dar a conhecer o País que somos, que fomos e que queremos ser.

Sou dos que pensam que a solução monárquica não é de adesão evidente. São muitas as vantagens da monarquia face à república, sabemos disso, mas não sou “internacionalista”. Ou seja, não acho que a monarquia seja um modelo ideal para todos os países. Até nisto não sou republicano. O republicanismo, neste sentido, é ideológico. O meu monarquismo é muito concreto… é português e contemporâneo. Sou monárquico aqui e agora. Em Portugal, hoje, neste preciso instante, a Instituição Real muito melhor serviria o País do que esta fantasia que nos impingiram. O regime republicano que temos é artificial. É uma construção jurídica estritamente formal, assente em dogmas tão falaciosos como virtuais. Costumo dizer que um monárquico quer apenas que o Estado seja devolvido à Nação.

Portanto, temos por missão levar Portugal ao coração dos portugueses. O que interessa, verdadeiramente, é restaurar Portugal. E a monarquia faz parte desse processo. Mas, peço o favor de me perceberem, a monarquia não é o fim. O fim último é sempre Portugal. Restauramos Portugal pela Monarquia, que é a cúpula do edifício. É a cimalha. Também digo, em jeito de brincadeira, que não é por acaso que a Coroa está sobre as armas de Portugal.

4.  Actualmente a Causa Real e a sua Juventude, estão a caminhar lado a lado, na modernização das suas imagens, nomeadamente na Internet. Torna-se de facto fundamental, nesta época da alta tecnologia e do Marketing Digital, que as entidades, sejam estas Movimentos ou Empresas ou Partidos, para atraírem mais apoiantes, tenham que estar presentes nas Redes Sociais. No que toca, precisamente à Causa Real e à Real Associação de Lisboa em particular, como avalia até ao presente, a presença nesses meios de comunicação?

Temos usado essas ferramentas e o balanço que faço é muito positivo. Permite fazer chegar a nossa mensagem a muita gente e sem grandes custos. Mas julgo que também é importante perceber que o mundo não se esgota na internet. Os destinatários do nosso trabalho não estão apenas atrás de um computador. E também acho muito recomendável chamar a atenção para os perigos do “imediatismo” da comunicação. Às vezes, porque é tudo muito “instantâneo”, dizem-se coisas escusadas e geram-se polémicas que deviam ser evitadas.

Quanto à imagem, é forçoso reconhecer que ela é fundamental. A Causa Real fez um trabalho importante, dando homogeneidade nacional a realidades que são geograficamente diferentes. E foi um trabalho muito profissional. Houve critério. A imagem adoptada é arejada e moderna. Mas sobretudo, acho muito importante dar-se uma imagem nacional ao movimento monárquico, ainda que se tenha de alimentar o associativismo a nível local.

5.  Há pessoas que defendem a Monarquia por costume familiar, outras porque gostam da História de Portugal, e outras ainda por uma questão mais racional. Mas, verdadeiramente, o que é Ser Monárquico, na sua opinião?

Julgo ter já respondido a esta pergunta. Não interessa muito saber como é que alguém chegou à conclusão de que é monárquico. O importante, na verdade, é ser-se monárquico. Desde já, importa deixar claro que o monarquismo depende do amor que devotamos a Portugal. Não cometo a injustiça de pensar que quem não é monárquico não é bom português. Nada disso. Mas não se pode ser monárquico sem esse enamoramento. E também não pode ser monárquico quem não respeita a nossa História. Com isto não me assumo passadista. Não quero voltar ao passado. Quero antes projectar no futuro o que fomos e o que somos. A monarquia, como disse, permite personalizar essa ligação. Ou, mais bem dito até, permite “familiarizar” o espaço e o tempo que dão sentido a Portugal. Daí a importância da Família Real. O Rei não é sozinho. Passe o paradoxo, o Rei é a Família Real. Porque o Rei é o que é e o que há-de ser. Num país como o nosso, qual o sentido de fazer do efémero a pedra angular do sistema? Que sentido faz institucionalizar a conjuntura e a contingência? A meu ver, nenhum! E repare-se que estou a falar apenas da chefia do Estado. Da dimensão representativa que deve assumir essa chefia.

Aliás, ainda que noutra perspectiva, o exemplo que deixei das eleições presidenciais de 1986 pode ser usado hoje. O actual chefe do Estado foi eleito por cerca de 23% dos cidadãos eleitores, que não são sequer todos os portugueses. Isto para dizer que só formalmente, só na aparência, essa genuína representação se obtém por via electiva. A legitimidade democrática, entendida redutoramente como a que dimana do sufrágio directo e universal, está muito longe de assegurar a representatividade oferecida pela legitimidade histórica. Abdicarmos desta legitimidade, porque a temos, é sacrificarmos uma abrangente representatividade, que precisamos.

E também adianto que o meu monarquismo, porque não é formal, porque não renuncia a essa legitimidade histórica, que lhe é essencial, não concebe “candidatos” ao trono. Não sou dos que dizem que serão as cortes a escolher o Rei. Claro que o Rei não poderá sê-lo sem que a Nação o chame a essas funções, que isto fique claro. Mas o Rei não poderei ser eu, porque me falha essa legitimidade histórica. Portanto, fico sempre espantado quando vejo monárquicos estruturalmente republicanos. Vêem vantagens na monarquia, enquanto sistema, mas não descobriram a essência da monarquia. Em Portugal, esta legitimidade histórica repousa indiscutivelmente nos Duques de Bragança. E o Duque de Bragança é o Senhor Dom Duarte. Mas quero também aproveitar a oportunidade para dizer que não vivemos em Monarquia e que, por isso, o Duque de Bragança não é Rei, pelo que não faz também qualquer sentido, como já vi fazer, dar tratamento majestático ao Senhor Duque de Bragança. É um excesso protocolar que semeia confusão…

6. Normalmente, apontam-se como principais vantagens da Monarquia, por um lado, o facto do Rei ser independente dos partidos e outros grupos de interesse, e por outro lado que o regime Monárquico saíria mais barato aos contribuintes. Que outras vantagens encontra, para a defesa do regime monárquico para Portugal, tendo em consideração, o actual Estado da Nação?

Começo por dizer que desvalorizo por completo a questão financeira. Tenho visto análises comparativas entre os custos de algumas Casas Reais, nomeadamente a espanhola, e a Presidência da República portuguesa. Só pode comparar-se o que é comparável. Não sei se os critérios de contabilização e de orçamentação desses custos, nestes países, são os mesmos. Admito que não… Mas adiante. Mesmo que a república fosse mais barata, isso não fazia dela melhor do que é. E não é boa.

A questão da independência é fundamental, como é evidente. Se repararmos bem, todos os chefes do Estado eleitos depois do 25 de Abril foram chefes de partidos políticos. Até o Gen. Eanes, depois de sair de Belém, foi chefe de um partido. Não está em causa a vontade de quererem ser independentes. Está em causa serem-no ou conseguirem projectar na comunidade a ideia de que o são. Não é possível. Basta estarmos atentos aos mimos com que os partidos da oposição brindam o actual presidente da república que, quando era líder de uma maioria, também disse do então presidente da república o que o Maomé não diria do toucinho. O problema não está nas pessoas. É um problema genético do próprio regime.

Para além das vantagens normalmente associadas à monarquia – a preparação para o exercício da magistratura, que não se desliga do umbilical afecto com que a comunidade segue a formação dos príncipes e a dita independência – há, em Portugal, duas realidades que a tornam muito recomendável: a União Europeia e a vocação de Portugal no Mundo.

Já todos percebemos que a União Europeia comporta sérios riscos à nossa soberania. E com isto não quero formular qualquer juízo de valor sobre isso. Quero apenas sublinhar uma evidência. É para mim claro que a Coroa daria corpo institucional à nossa identidade. Não creio que a nossa identidade esteja em perigo. Em perigo, quanto muito, estará a independência. Portanto, estou firmemente convencido de que a Instituição Real traria muito maior solidez à afirmação institucional da nossa soberania. Mas há mais. Como tive a oportunidade de dizer, Portugal não é só este “espaço político” debruçado sobre o Atlântico. Não é só isso. Temos uma enorme comunidade portuguesa fora desse espaço e um conjunto imenso de pessoas que falam, rezam e sonham em português. Ora, a agregação desta imensa comunidade muito beneficiaria da Instituição Real.

7.  Naturalmente, estamos aqui todos empenhados na Causa que nos une, e por isso mesmo, gostariamos de chegar ao dia da Aclamação do Nosso Rei Dom Duarte. Como imagina que poderá ser a nossa Monarquia do futuro?

Permita-me uma nota terminológica. Não há monarquia do futuro. Poderá é haver monarquia no futuro. Porque tal como pretendi evidenciar ao longo de toda esta entrevista, a monarquia não tem tempo. Assume o tempo… Não é ela que faz parte do tempo. É o tempo que faz parte dela. É uma unidade incindível. Dizer no futuro e do futuro não é a mesma coisa, porque esta última expressão parece-me programática, o que a monarquia não é…

Mas percebo o sentido da sua pergunta, claro, e respondo-lhe que teremos a monarquia que, colectivamente, quisermos ter. Mas como é que eu imagino a nossa Monarquia? Disse há pouco que a Coroa é a cimalha do edifício. O actual sistema político, as instituições políticas portuguesas, estão em crise. Hoje, muito mais do que ontem, vejo discutir-se o sistema político. Nota-se que a erosão provocada pela crise abriu espaço a uma reflexão mais profunda sobre as instituições que nos regem. Todos temos o dever de promover esse debate e de participar nele com seriedade. De contribuir para essa reflexão. Independentemente das posições que perfilhemos, cada um de nós, sobre a economia, sobre o papel do Estado, todos vemos vantagens na existência de uma chefia de Estado real.

Sabe, essa é uma das dificuldades do associativismo monárquico. A única coisa que verdadeiramente nos une é acreditarmos, todos, na bondade da Instituição Real. E na verdade, tudo o mais é, para uma organização como a nossa, acessório. Há quem ficasse satisfeito se amanhã o presidente da república fosse substituído pelo Rei. Outros, não. Outros diriam que isso não chega. Que é preciso alterar tudo de cima a baixo. A monarquia será o que nós colectivamente quisermos que ela seja.

8.  Convido-o a deixar uma última reflexão. Muito obrigado.

Eu é que agradeço esta oportunidade. A última reflexão é uma provocação. Aquando do centenário da república, organizaram-se debates um pouco por toda a parte e sempre privilegiei as escolas. Estive numa, em Loures, e, sem eu o saber, o meu oponente era um professor da Faculdade de Direito da Universidade Católica, onde eu também dava aulas. O debate correu lindamente. O meu colega começou por explicar a importância da democracia, da liberdade e depois, quando foi a minha vez, comecei por dizer “ouviram tudo o que foi dito até agora? Pois bem, não tem nada a ver com república!”… procurei desmontar a ideia que de nós fazem. Os miúdos – 14 / 15 anos – fizeram imensas perguntas… todas a mim. A certa altura o meu republicano colega disse, brincando, “só o querem ouvir a si!” e eu respondi-lhe “não admira! O seu discurso eles já conhecem. Pelos vistos, a novidade trouxe-a eu a esta juventude!”. Com este exemplo quero apenas significar que temos dois trabalhos pela frente: mostrar o que queremos e dizer o que não somos! E estas tarefas não são apenas da Causa Real e das Reais Associações. Devem ser abraçadas por todos os que pensam assim. É isso que tem procurado fazer, também, esta Plataforma de Cidadania Monárquica!


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Entrevista com o Dr. Luís Lavradio

Causa Real - XVIII Congresso (13)

O meu convidado deste mês, é o Dr. Luís Lavradio, Presidente da Causa Real.

1.    Dr. Luís Lavradio, é para nós uma honra o ter como nosso entrevistado neste mês de Outubro. Gostaríamos, para começar, que nos falasse um pouco de si.

E eu agradeço muito o vosso convite e a oportunidade para falar um pouco sobre a Causa Real. Aproveito também para vos dar os parabéns por este novo programa.

Quanto a mim, sou o mais velho de três irmãos, nascidos numa família muito portuguesa mas com um forte cariz internacional, no meu caso realçado por mais de 23 anos em Inglaterra e uma carreira profissional na área financeira que passou por 3 continentes! É uma característica que abre horizontes, não só em termos geográficos mas, principalmente, na forma de pensar – fundamental numa época em que o nosso mundo atravessa alterações sociais, culturais, económicas a um ritmo estonteante. Aliás, vivo fascinado com os desenvolvimentos do presente! Paradoxalmente, ou talvez não, esta abertura e “à vontade” no mundo moderno tem reforçado os ideais e os valores com que fui educado e que, com a ajuda imprescindível da minha mulher, tento passar aos nossos 5 filhos.

São precisamente essas noções, que considero intemporais,  de sentido de serviço, de seriedade e honradez, de respeito e justiça, de amor a Deus, à família e à Pátria que, aliados a um pragmatismo mais anglo-saxónico, têm demarcado o meu caminho de vida, dando-me uns alicerces fortíssimos e uma verdadeira liberdade de espírito, não obstante a enorme responsabilidade que acarretam, e as muitas fragilidades de quem as pretende alcançar!

Como disse, e após uns anos entre Lisboa e o Estoril, passei grande parte da minha vida em Inglaterra, para onde fui com os meus pais aos 6 anos, em 1973. Devo dizer que os meus pais, apesar das dificuldades que passaram, deram-nos uma vida alegríssima e lembro-me do nosso tempo em família em Londres com a maior das saudades. Dez anos depois o meu Pai aceitou um novo projecto profissional em Lisboa, para onde regressou com a família. Eu, então com 15 anos, preparava-me para os exames finais do 9º ano, 11 ao todo que iam dos mais corriqueiros – inglês, francês, matemática, física, química – aos mais exóticos (literatura inglesa, arte e russo!). Dada a sua importância, optei por ficar no colégio (Westminster School, bem no centro de Londres), como interno. Especializei-me em matemática, matemática aplicada, física e química e com as notas finais do 12º, e uma boa entrevista, consegui entrar no Universidade de Cambridge, onde me formei em economia e me dediquei à prática desportiva! Com a tão portuguesa saudade a apertar, voltei para casa onde comecei a trabalhar no sector financeiro num banco internacional, fiz a tropa na Força Aérea Portuguesa e casei-me. Três meses depois estava de volta em Londres com a minha mulher!

Quase 20 anos mais tarde, após passagens pela União de Bancos Suiços, o Banco Rothschild e o Citigroup, lancei um projecto próprio em 2011, uma empresa de assessoria financeira direccionada ao sector empresarial, estadual e supranacional. Escolhi fazê-lo em Portugal.

Foi também nessa altura que aceitei continuar o projecto do Paulo Teixeira Pinto na presidência da Causa Real, verificando, já depois de ter tomado posse, a verdadeira dimensão hercúlea do desafio a que me tinha proposto.

Venho de uma família monárquica por tradição, por isso é um conceito que esteve sempre presente comigo. Só muito tarde é que me vi obrigado a questionar as minhas convicções de uma forma racional. Posso afirmar que sou convictamente monárquico, e acredito que a Instituição Real pode ser um factor decisivo na estabilidade política e no progresso do nosso País.

Vejo com enorme tristeza as nossas debilidades políticas, um “jogo” onde todos participam, desde os mais inexperientes militantes partidários ao Chefe de Estado, e onde é patente a prevalência do interesse próprio, proporcionado pela ganância, pela inveja, dando azo à corrupção, à mentira e à incompetência, sobre os casos de seriedade e pragmatismo que, graças a Deus, ainda vão aparecendo.

Vejo, também com alguma inveja, a atitude dos britânicos perante as suas instituições que, longe de serem perfeitas, mantêm-se funcionais e são obrigadas ao respeito pela a autoridade moral e a influência da Coroa que, não tendo qualquer poder político “de facto”, responde perante o País no seu todo.

Não há dúvida que o exemplo vem de cima e é um factor edificante.

2.    No passado 5 de Outubro, realizou-se em Santarém o XIX Congresso da Causa Real e também o I Congresso da Juventude Monárquica Portuguesa. Quais são as linhas de acção previstas para este novo ano político e quais foram as conclusões saídas do Congresso?

O Congresso da Causa Real realizado sob o Tema “O Estado no Terceiro Milénio”, foi uma oportunidade importante para a Direcção apresentar os frutos do trabalho desenvolvido desde a apresentação da nossa estratégia no Congresso de Lisboa.

Com uma imagem totalmente renovada, um novo sítio e um blogue, que vieram reforçar a nossa presença na Internet, concretizámos a primeira fase da constituição de uma plataforma de comunicação. Noto que já temos mais de 10.000 seguidores no facebook, número que esperamos triplicar até finais de 2014.

Continuaremos a desenvolver as várias linhas do nosso Projecto Educar, que pretende levar aos mais novos uma noção mais objectiva, acessível e divertida da nossa história, propondo também uma discussão aberta sobre a questão do regime. Estamos a estudar várias formas de dar maior visibilidade ao projecto.

Com a integração de mais três Reais Associações, cobrimos agora a quase totalidade do espaço nacional, e temos já uma presença nos EUA. É um trabalho de persistência que trará mais frutos num futuro próximo. Não posso deixar de realçar o trabalho infatigável das Reais Associações, que são fundamentais a nível regional para disseminar a nossa mensagem junto das populações locais, geralmente com o apoio do poder local, e dos meios de comunicação regionais – mais abertos aos nossos objectivos. E temos exemplos concretos de organizações muito bem sucedidas – o “Portugal Real – 100% Alto Minho” em Junho e a “Festa Azul” em Beja que vai na sua segunda edição e reúne mais de 2.000 pessoas.

Mesmo a nível administrativo, conseguimos concretizar vários objectivos, alguns com mais de 4 anos de espera!

Deixe-me dizer que me parece notável aquilo que esta equipa tem alcançado, de forma inteiramente voluntária, com muito esforço e dedicação ao longo dos últimos dois anos, tendo em conta as suas obrigações pessoais e profissionais e os problemas que todos enfrentamos actualmente.

Importante também foi a sessão da tarde, aberta ao público, que contou com intervenções de enorme qualidade e muito relevantes para o nosso trabalho político. O Prof. Doutor Lourenço Vilhena de Freitas, que fez a introdução ao tema, é um constitucionalista brilhante e está a coordenar um projecto que, para mim é fundamental para a Causa Real – a construção das bases de funcionamento de uma monarquia portuguesa contemporânea.

Há questões de fundo que carecem de respostas claras que este projecto pretende facultar. Quais os passos necessários para a transformação de Portugal numa monarquia? Quais as instituições, políticas e outras, necessárias para um sistema político mais estável, mais responsável, mais transparente? Quais os direitos e obrigações da Instituição Real como cúpula desse sistema e garante da sua estabilidade e responsabilização? Quais as fontes da sua legitimidade?

Temos agora que aperfeiçoar e alavancar a nossa plataforma de comunicação, desenvolvendo os projectos que temos em cima da mesa, e outros, para os quais a ajuda e coordenação com a JMP é indispensável.

3.    A situação actual do nosso País exige uma profunda reflexão sobre que futuro queremos para nós e para as próximas gerações. Como Presidente da Causa Real, como avalia esta responsabilidade, sabendo que lidera um Movimento Político que tem uma alternativa credível, que é a Monarquia Parlamentar e Democrática?

Bateu em dois pontos absolutamente fulcrais! A crise financeira que o mundo ocidental atravessa veio denunciar as enormes fragilidades económicas e políticas do nosso País. Que o nosso sistema político funciona mal, que não serve os interesses de Portugal e dos portugueses é, para mim, evidente, e há que repensá-lo.

Ao fazê-lo, não me passa pela cabeça não considerar todas as opções, incluindo obviamente um sistema que serviu o nosso País ao longo de 90% da sua existência! Mais ainda, sendo o regime monárquico o mais bem sucedido a nível europeu assegurando os índices mais altos de democraticidade, liberdade e progresso. Como digo, e apesar de não ser uma panaceia para todos os males da República, acredito convictamente que a Instituição Real oferece claríssimas vantagens e uma maior capacidade para servir os interesses de Portugal.

Infelizmente, nem todos pensam da mesma forma e a opção monárquica não é vista ainda como credível pela a maioria dos portugueses, nem tão pouco pelos meios de comunicação social. São barreiras culturais que assentam, em larga medida, em fantasmas, mitos e preconceitos. Reconheço por isso, que a responsabilidade da Causa Real é redobrada. Há que construir uma verdadeira alternativa política para o Portugal do terceiro milénio, demonstrando o funcionamento e os benefícios de um sistema que teria no seu cume uma instituição politicamente isenta e representativa de todos os portugueses, que só pode ser a Instituição Real.

Creio que estamos no bom caminho, embora seja necessariamente longo e refletido, requerendo tempo e paciência. Estamos apostados em quebrar esses mitos e preconceitos, alterando a forma como a Causa Real interage com os portugueses – de uma forma mais directa, desempoeirada, apelativa, surpreendendo para captar a atenção da população. Ao mesmo tempo pretendemos partilhar e discutir com a principais forças políticas nacionais a proposta para as bases de uma nova constituição para o Portugal do século XXI, que se encontra em desenvolvimento.

4.    Desde há já 6 anos a esta parte, temos vindo a assistir na Internet uma “explosão” de sites, blogues, grupos e páginas nas redes sociais, cujo tema principal é a Monarquia para Portugal. Desde espaços oficiais das organizações monárquicas, passando por iniciativas militantes de apoio variadas, como aliás a Plataforma de Cidadania Monárquica. Qual é a sua opinião sobre este fenómeno e como acha que deve ser acompanhado?

Tem havido, de facto, uma grande proliferação de informação e de interesse sobre a monarquia principalmente na Internet. O fenómeno, excluindo uma ou outra página com parca visibilidade e pouco interesse, é claramente positivo, mostra vitalidade, e tem uma tendência crescente. Creio que há uma conjugação de quatro factores que o explicam e que não desaparecerão tão depressa!

Primeiro, a enorme visibilidade que as monarquias europeias têm tido nos últimos anos, sempre objecto de fascínio, com jubileus e casamentos reais, nascimentos de príncipes, e investiduras de novos monarcas. Para além dos aspectos mais estéticos, e mesmo económicos, são acontecimentos que têm revelado o extraordinário apelo popular das Famílias Reais reinantes, demonstrando também o ciclo de vida natural da instituição monárquica, a sua contemporaneidade e a sua estabilidade. Acrescenta-se o crescimento da nossa Família Real, onde os príncipes passaram também a ser tema de notícia, e de debate.

Segundo, há um vazio de alternativas políticas no nosso País. Há uma sensação de desespero e frustração, não se vislumbrando grandes diferenças ou benefícios numa simples alteração do executivo. Parece-me claro que o actual regime passou a sua data de validade.

Terceiro, o acesso facilitado a novas tecnologias. O número de acessos à Internet quase que duplicou nos últimos 6 anos, havendo hoje perto de 6 milhões de clientes em Portugal, segundo a ANACOM. Lembro que o iPhone, que revolucionou a forma de acesso ao ciberespaço, apareceu apenas em 2008. Por outro lado, qualquer um consegue montar o seu próprio sítio ou blogue com a maior das facilidades.

Finalmente, a actuação quer do Senhor Dom Duarte, que tem mantido uma postura de Estado, alentando sempre a esperança no futuro e puxando pela nossa autoestima, quer da própria Causa Real. 2008 e 2009 foram anos de grande viragem na Causa, e há três momentos de enorme visibilidade que ajudaram a Causa a consolidar a sua posição e a chegar a uma audiência diferente e mais alargada. O debate “Prós e Contras” na RTP1 em 2008, a muito divertida substituição da bandeira municipal pela bandeira monárquica na Câmara Municipal de Lisboa, e a “celebração” do começo do ano do Centenário da República na noite de 4 para 5 de Outubro pelos monárquicos no Chiado. Claro que toda esta visibilidade tinha como pano de fundo o Centenário que com a informação disseminada sobre 1ª República foi um bónus inesperado para os apoiantes da monarquia!

Embora positivo, estou ciente do desafio que este fenómeno lança à Causa Real. A sua utilização dos instrumentos da Internet deve pautar-se sempre por um comportamento que reflicta uma atitude responsável, institucional, e pedagógica.

Apesar de encabeçar o movimento monárquico em Portugal, por força das suas características institucionais e dos seus antecedentes, neste domínio, a Causa Real não tem pretenções para além destas. É fundamental que continue a haver uma multiplicidade de intervenções sobre o tema da monarquia em Portugal, e que essa diversidade seja incentivada, nomeadamente pela própria Causa. Aliás, o nosso objectivo é que a grande maioria do País fale, de uma forma ou de outra, sobre o tema!

5.    Falando um pouco a nível internacional. O Reino de Espanha neste momento vive uma situação delicada. Por um lado temos os riscos da separação da Catalunha e por outro, temos Sua Majestade o Rei Juan Carlos I cada vez mais idoso e situações menos agradáveis relativamente à Infanta Cristina e ao seu marido Iñaki Urdangarin. Na sua opinião, considera que a Monarquia Espanhola pode estar em causa, tendo em conta que também há um crescendo movimento republicano? Como é que a Monarquia Espanhola pode sair desta situação? Deve o Rei abdicar no Príncipe das Astúrias?

Há sinais muito interessantes da realidade espanhola que, à primeira vista podem parecer contraditórios mas, analisados em maior profundidade, dão-nos algumas pistas para o seu futuro.

O movimento republicano tem crescido essencialmente a custo da necessidade de afirmação nacionalista dos catalães e dos bascos. Estes entendem, e com razão, que uma República Espanhola facilitaria em muito a conquista da sua independência. Ou seja, não é um movimento contra o regime monárquico em si, mas contra a capacidade unificadora da Coroa!

Neste momento de crise quando, naturalmente, todos os regimes estão fragilizados, é de destacar as sondagens em Espanha que dão ao Rei uma nota positiva, apesar de todos os problemas que temos testemunhado. Creio que que não haverá neste momento na Europa um único chefe de estado republicano com o mesmo nível de aceitação. E há que lembrar a história de Espanha dos últimos 40 anos. Um país miserável, saído de uma horrenda guerra civil e de um período de autoritarismo feroz, tornou-se numa das economias mais pujantes da Europa, e num exemplo internacional a nível cultural, político, diplomático e até desportivo. Tal não seria certamente possível sem uma estratégia verdadeiramente nacional, suprapartidária, assegurada pela autoridade, independência e estabilidade oferecidas pela Coroa.

Há duas sondagens recentes muito reveladoras. Uma afirma que 75% dos espanhóis são a favor do actual regime, e a outra que 78% dos espanhóis consideram o Príncipe Felipe plenamente capacitado para tomar as rédeas do trono. Ou seja, Espanha afirma-se, não “juancarlista”, mas francamente monárquica e pronta para a passagem de testemunho.

6.    De vários países do leste europeu, como a Sérbia, a Roménia e provavelmente a Albânia, têm surgido sondagens favoráveis a uma restauração da Monarquia. Se tal facto se verificar, acha que pode haver um “efeito bola de neve” para os países vizinhos?

Esses países, que têm a vantagem de ter uma página de papel em branco, estão há quase 25 anos a testar diversas formas de governo, atentos também aos exemplos, bons e maus, da Europa Ocidental. Veja-se por exemplo a Hungria que, concordando-se ou não, reescreveu por completo a sua constituição.

Na maior parte dos chamados países de leste há uma forte tradição monárquica e uma relação relativamente recente com o regime. Apesar das consequências aterradoras da Segunda Guerra Mundial e do obscurantismo com que muitos viveram durante a Guerra Fria, ainda há uma memória viva da monarquia de uma parte significativa da população. Não é estranho que a monarquia seja tema de conversa ou mesmo uma alternativa séria. Recordo que em Portugal no princípio dos anos 50, apenas 40 após a revolução de 1910, estivemos à beira de uma restauração monárquica.

Mas, qualquer hipótese de restauração tem que temperar o saudosismo e a ligação meramente emotiva com a Coroa e a Família Real com algum pragmatismo e a conquista da chamada “intelligentia”. Há lá, como cá, barreiras culturais consideráveis. No entanto, aparecendo num desses países a monarquia como alternativa credível, seria expectável que outros também pusessem essa hipótese.

7.    Alguma nota final que deseja acrescentar?

O maior obstáculo para uma discussão séria sobre a monarquia como alternativa para Portugal é a nossa própria mentalidade, a mentalidade dos portugueses. Não é pela força do raciocínio que esta se conquista. Assim como não é pela força da razão que se consegue convencer um miúdo que não há monstros debaixo da cama. Há que fechar as portas do quarto para o bicho não escapar, apagar as luzes e, silenciosamente, com uma lanterna numa mão e a criança na outra, levantar as saias da cama para revelar o que não existe.

No final do Congresso em Santarém, tive a oportunidade de me dirigir aos congressistas, onde já se incluíam os jovens da Causa, regressados do seu congresso fundador. Centrei-me em factos. Pois é com factos que se combatem mitos e preconceitos, fantasmas e monstros. E gostava de deixar aqui alguns!

Lembro que, excluindo a Andorra, o Liechtenstein, o Mónaco e o Vaticano, que não aparecem geralmente nestes índices, há apenas 12 monarquias ditas ocidentais – 3 nórdicas, 3 do Benelux, Espanha, o Reino Unido e as suas 3 antigas colónias e o Japão.

O Economist Intelligence Unit publica anualmente um “Índice de Democracia” fruto de uma análise complexa de várias características políticas de 167 países (processos eleitorais, separação de poderes, participação e cultura política, níveis de liberdade social e cívica, etc.). Dos primeiros cinco países, quatro são monarquias. Nos primeiros 10 há 7, e o 11º é o Grão-Ducado do Luxemburgo, onde quase 20% da população é portuguesa. Todas as monarquias ocidentais encontram-se entre os 25 países mais democráticos do mundo.

A Reporters Without Borders, órgão independente gerido por jornalistas, publica um índice anual de “Liberdade de Imprensa”. Dos primeiros 10 países, 8 são monarquias.

O “Índice de Liberdade Humana”, públicado pelo Fraser Institute do Canadá, o Liberales Institut da Alemanha e o Cato Institute do EUA, acrescenta uma análise de 34 factores de liberdade cívica ao “Índice de Liberdade Económica” do mesmo Fraser Institute. Quatro do primeiros cinco países são monarquias.

A  OCDE observa anualmente 24 indicadores de qualidade vida dos seus países membros para construir o “Better Life Index”. Entre os dez países com melhor qualidade de vida, 7 são monarquias.

Um análise de causa e feito é sempre discutível mas, como já tenho escrito, é um facto incontornável que os ideais de liberdade e de justiça social convivem bem, aliás parecem florescer, com o desígnio nacional, com a estabilidade política, e com a autoridade moral, independência e representatividade proporcionados pelas monarquias ocidentais no século XXI.

Por fim, desejo à Plataforma de Cidadania Monárquica a melhor sorte, esperando também que vá ao encontro de mais factos que nos ajudem a dissipar os monstros que nos perseguem!