Monarquia, Cidadania, Democracia


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A RAINHA – Eça de Queiroz Aclama D. Amélia

1621674_348083451996768_1397853335_nIntrodução e Recolha do texto: Miguel Villas-Boas *

Dona Maria Amélia Luísa Helena de Bourbon-Orleães, princesa de França, nasceu em Twickenhem, em 28 de Setembro de 1865, durante o exílio da família, em Inglaterra. Dona Amélia era a filha primogénita do pretendente ao trono francês Luís Filipe, Conde de Paris, neto do último Rei de França, Luís Filipe I, e de Maria Isabel de Bourbon-Orleães-Montpensier, infanta de Espanha, filha do Príncipe Antoine D’ Orleães, Duque de Montpensier e Infante de Espanha, por sua vez filho do último Rei de França.
A princesa Dona Amélia passou parte da infância em Inglaterra, até à queda do II.º Império. Então, a Casa Real de Orleães pode regressar ao país, e, embora o seu pai apenas fosse pretendente à Coroa, a princesa teve então uma esmerada educação.
Dona Amélia era uma jovem encantadora e culta, admiradora de ópera e teatro, era leitora compulsiva da melhor literatura da época, chegando a corresponder-se com os seus autores favoritos. Além disso possuía, tal-qualmente, dotes para a pintura que ultrapassavam o elementar.
Tudo parecia fadado, para que o seu casamento ocorresse com o herdeiro de uma coroa europeia, mas uma feliz coincidência impeliu os acontecimentos. De férias em Paris, Dom Carlos, Príncipe Real de Portugal e Duque de Bragança, que procurava esposa, foi apresentado a Dona Amélia e a seus pais num encontro arranjado pela Infanta Dona Maria Antónia. O encanto foi mútuo e o pedido oficial foi realizado por Dom Carlos ao Conde de Paris, a 6 de Fevereiro de 1886, sendo lavrado registo matrimonial nesse mesmo dia no Castelo d’ Eu.
A 17 de Maio de 1886, a princesa Dona Amélia, futura Duquesa de Bragança partiu de França e chegou à Pampilhosa no dia seguinte, em 19 de Maio, pelas 17 horas, a princesa foi apresentada à Corte em Lisboa.
O casamento real foi celebrado no dia 22 de Maio de 1886, na Igreja de São Domingos, e foi acompanhado pela multidão que saiu às ruas de Lisboa para acompanhar o cortejo nupcial.
Depois do casamento, e terminada a lua-de-mel, os Duques de Bragança mudaram-se para a sua nova residência, o Palácio de Belém.
Para coroar esses tempos de felicidade às 21 horas do dia 21 de Março de 1887 nascia, em Belém, Dom Luís Filipe de Bragança, o primogénito do presuntivo herdeiro do trono de Portugal. Em 15 de Novembro de 1889, nasceu o Príncipe Dom Manuel de Bragança, Duque de Beja, e completou-se assim a Família Real – uma vez que, anos antes, Dona Amélia, de esperanças de uma menina, sofrera um parto prematuro, tendo a bebé, Dona Maria Ana, sobrevivido apenas uma poucas horas.
Como mãe, a Rainha soube dar uma excelente educação aos Príncipes, seus dois filhos. Mas, também, como Rainha, Dona Amélia desempenhou um papel importante. A Rainha foi sempre o braço direito d’el-Rei Dom Carlos que incansavelmente acompanhou sempre nas suas viagens de Estado. Com a sua elegância e carácter culto, Dona Amélia influenciou de forma indelével a corte portuguesa.
Interessada pela erradicação dos males da época, como a pobreza e a tuberculose, fundou em 11 de Junho de 1899 o Instituto Nacional de Assistência aos Tuberculosos, assim como dispensários, sanatórios como o Sanatório para a assistência nacional aos Tuberculosos, em 18 de Maio de 1907; além de lactários populares, cozinhas económicas e muitas creches. Fundou o Instituto Pasteur em Portugal e o Instituto dos Socorros a Náufragos, em 1892.
Não obstante a crise política, Dona Amélia via reconhecido o seu trabalho com os necessitados, especialmente com as crianças pobres e os órfãos, por isso nesse mesmo ano de 1892, a 4 de Julho, Dia de Pentecostes, recebe do Papa Leão XIII, pelas mãos do Núncio Apostólico, a Rosa de Ouro, em sinal do reconhecimento do seu mérito.
Sua Majestade a Rainha Dona Amélia criou, ainda, a Assistência Nacional aos Tuberculosos e em 1905 foi a vez de abrir o Museu dos Coches Reais.
Mas no País as crises sucediam-se. Os políticos precipitaram uma crise política que ajudaria as más intenções republicanas a urdir a teia.
A 1 de Fevereiro de 1908, quando regressavam de Vila Viçosa, a Família Real Portuguesa foi vítima de um cobarde atentado terrorista perpetrado por membros da maléfica Carbonária, em pleno Terreiro do Paço perecendo El-Rei e o Príncipe Real Dom Luis Filipe.
O Regicídio de 1 de Fevereiro de 1908 lançou a Rainha – com filho e marido chacinados pelos terroristas – num pesar mortificado. Recolheu-se então para o Palácio da Pena, mas, com forças resgatadas de um profundo querer e abnegação pelo bem maior do seu País, sem abandonar o Rei Dom Manuel II, a quem por todos os meios procurou ajudar no reinado.
A 3 de Outubro os tiros de canhão acossam o jovem Rei nas Necessidades, então Paço Real, pelo que partiu para Mafra. Foi na Pena que a Rainha Dona Amélia recebeu a notícia da revolução republicana de Outubro de 1910, que mais uma vez, como no Regicídio foi possibilitada pela atonia dos políticos. Dona Amélia juntou-se ao filho Rei, mas nada mais havia a fazer por inépcia dos políticos.
Após a proclamação da república portuguesa em 5 de Outubro de 1910, Dona Amélia partiu da Ericeira juntamente com o Rei Dom Manuel II e o infante Dom Afonso Henriques, Duque do Porto, no iate real Amélia IV – outrora palco de tantas alegrias.
O exílio levou-os para Inglaterra, a Dona Amélia para Abercorn, Richmond Hill, Surrey e depois para Fulwell Park onde fixou residência Dom Manuel II. Após, o casamento de Dom Manuel II com a princesa Augusta Vitória, filha do príncipe de Hohenzollern-Sigmaringen, a 20 de Novembro de 1920, Dona Amélia mudou-se para França para o Castelo de Bellevue, em Chesnay, nos arredores do Palácio de Versalhes.
Em 2 de Julho de 1932, pouco depois da visita de sua mãe, sem que nada o fizesse prever, El-Rei Dom Manuel II morre imprevisivelmente em Twickenham o mesmo subúrbio londrino onde sua mãe havia nascido. Foi uma morte nada serena, pois, Sua Majestade Fidelíssima, agonizou asfixiado por edema da glote. Para uma mãe consuma-se a derradeira tragédia: perdeu o filho que lhe restara.
A 17 de Maio de 1945, com 80 anos, Sua Majestade a Rainha Dona Amélia de Portugal cruza a fronteira de Vilar Formoso e regressa a Portugal.
Como não podia deixar de ser Dona Amélia visitou as obras de caridade que fundara e, a 19 de Maio, os túmulos dos seus amados marido e filhos, em São Vicente. A 8 de Junho de 1945, Dona Amélia visitou o Santuário de Fátima, onde ofereceu à Virgem um dos seus mantos régios. O seu regresso a Portugal foi uma emotiva viagem ao passado, e, a todos os locais com que havia estabelecido laços.
Quando parte, a 30 de Junho desse ano, na Gare apinhada do seu Povo, que a acarinhou durante toda a estadia, acenou à multidão efusiva e lançou um sentido: “Viva Portugal!”
No dia 25 de Outubro de 1951, após 41 anos e 20 dias de exílio, a Rainha Dona Amélia faleceu no seu Castelo em Versalhes, aos oitenta e seis anos, em consequência de um fatal ataque de uremia. Algumas das suas últimas palavras terão sido: “Quero bem a todos os portugueses, mesmo àqueles que me fizeram mal” e depois “Levem-me para Portugal, adormeço em França mas é em Portugal que quero dormir para sempre”.
O corpo da Rainha foi embarcado na fragata Bartolomeu Dias que trouxe o féretro para Portugal e depois o corpo foi trasladado para junto do marido e dos filhos, no panteão real dos Bragança, na igreja de São Vicente de Fora. Esse foi o seu último desejo na hora de sua morte. O funeral teve honras de Estado e foi acompanhado por grande parte do povo de Lisboa.

“A RAINHA” DE EÇA DE QUEIROZ:

«(…) A rainha de Portugal recebeu do céu favorável este dom de uma beleza adoçada de graça, qu’il fait bon de regarder, e que, só porque aparece, governa. E esta qualidade de mulher se torna social, quase se torna uma virtude de Estado, entre um povo, como o português, tão prontamente, tão finamente sensível à formosura, sobretudo quando ao prendedor encanto da presença se junta, como na rainha, para mais lhe alargar a irradiação, o espírito de sociabilidade, que ela herdou da sua raça e que foi sempre uma das elegâncias morais da sua casa.
(…) Na Rainha de Portugal, este encanto de sociabilidade está todo na sua dignidade familiar, repassada de atenção, penetrada de sensibilidade, fácil em docemente se interessar, fácil em discretamente se igualar, mas séria e concertada, e que sempre um poeta um pouco precioso, como Carlos de Orleães, compararia ao arbusto grácil que se debruça, espalha perfume, derrama frescura, e logo formosamente retoma a sua elevação natural! A nós, Portugueses, povo de porte taciturno que durante séculos se embuçou sempre em grandes capotes e carregou sobre os olhos largos sombreiros, esta fácil, ridente, aberta e desembuçada sociabilidade desconcerta; e mesmo lhe impusemos outrora no começo do século, quando de França só conhecíamos, por um lado, os dançarinos e, por outro, os terroristas, o nome desdenhoso e desconfiado de francesismo. O nosso velho escarpamento moral quase nos impossibilitava de compreender que uma afabilidade sempre activa e difusa, um interesse atento que todo se alvoroça, uma efusão em que se entrega a alma no lampejar de um sorriso, não proviessem do esforço da astúcia, para captar perfidamente a clientela dos simples… E, certamente, a simplicidade conversável da Rainha, a sua afluência de simpatia, a graça acolhedora da sua expressão surpreenderam, quase inspiraram desconfiança a este povo habituado, desde o estabelecimento da monarquia absoluta, a não separar majestade de imobilidade. E data este sentimento do Portugal restaurado, porque então se cimentou entre nós a hirta pragmática cesariana, deixada em Lisboa pela realeza de Espanha, que a herdara da Casa de Áustria. No tempo dos nossos velhos reis, ao contrário, todos os educadores de príncipes lhes ensinavam o alto dever real de comunicar docemente com o povo. Na sua «Doutrina ao Infante D. Luís», o douto humanista Lourenço de Cáceres gravemente lhe recomenda “que se não aparte da afabilidade nem dê pouca parte de si ao povo, pois que não há erro mais nocivo para quem seja de senhorear ânimos portugueses!” E D. Aleixo de Menezes, na sua fala e despedida sublime a el-rei Dom Sebastião, lança estas grandes palavras: “o excesso de afabilidade, senhor, não compromete a autoridade do príncipe… Mas muitos príncipes, relaxando a sua autoridade com os validos e conservando trato altivo para o seu povo, vieram a ser aborrecidos de uns e desestimados de outros.» Hoje, deus louvado, na nossa sociedade tão igualada como um campo de restolho, já não existe possibilidade para reis «de trato altivo»: como na nossa mudada para Lisboa já não existem ruas por onde um D. Pedro I dançasse, metido com os mesteirais, ao clarão festivo das tochas, ao clangor das longas de prata.
(…) Esta afabilidade transparente da rainha permite que se distingam alguns modos do seu pensar e modos do seu sentir, sempre tão difíceis de perceber em príncipes, pois que três opacas muralhas os dissimulam: a etiqueta, o resguardo contra a familiaridade e a timidez, inconveniente tão congénere em príncipes que não faltou a Luís XIV nem a Augusto! Ora, de muitas mulheres, sobretudo de muitas rainhas, apenas se relatou a sua elegância e a sua gentileza – logo se findou a sua curta e mundana história. Na Rainha, porém, para além do brilho visível, existe ainda um harmonioso conjunto de ideias e de sentimentos, interessantes de estudar pela sua elevação e rectidão – e ainda porque, pertencendo a uma Rainha de Portugal, esses pensamentos e esses sentimentos, beneficamente reverterão, como diz a nossa velha lei, «em prol do comum e aproveitança da terra».
O que logo surpreende e cativa na Rainha é a sua completa e carinhosa nacionalização portuguesa; e, no entanto, bem sabemos, nós todos que lidamos com a história, quanto a flor-de-lis é flor difícil de enxertar! Mas aqui o lírio de França mergulhos tão profundamente a raiz no torrão português e tão gratamente absorveu a sua substância que, hoje, na forma, na cor, no aroma, já se não diferença de qualquer fresca e genuína rosa de Portugal. A Rainha ama a nossa terra como se dela houvesse brotado. Um tal amor era sempre instintivo numa rainha da Meia Idade ou ainda da Renascença – porque a realeza se compunha então de paternidade e de posse. O rei governa e protege como pai e dono. Não há vila, cabana, ovelha ou árvore a que ele não deva cuidado paternal e em que não exerça domínio senhorial – que os costumes lhe continuam, mesmo quando as leis lho arrebatam. A ternura pelo povo e pela terra é ampliação da ternura pelo filho e pelo património. Como não amaria, de resto, um rei do século XIV ou XV, numa terra toda sua, uma turba humana toda sua, dócil e filial, que para ele lavra, para ele edifica, para ele combate, para ele ergue as mãos, mesmo antes de as erguer para Deus? Mas uma rainha, hoje, sabe que o povo que a aclama lhe pertence tanto como a qualquer outra mulher que passe ao lado, com o seu cântaro, para a sua fonte. O título que ela conserva e que outrora lhe conferia, espiritualmente, um direito positivo hoje só lhe confere, socialmente, uma função cerimonial. E nem o patriotismo mais ciumento poderia reclamar que uma senhora de terra alheia, desde que entregou a mão, numa igreja, diante de um bispo, a um príncipe nosso, logo entregasse o coração todo, sentidamente, ao povo e à terra de que um contrato a ergueu rainha. Mas, realmente, a Rainha, desde que a lei a tornou portuguesa, logo se desejou portuguesa. Juntamente inteligência e sentimento, alargou os seus belos olhos, avisou o coração, tentou compreender e estimar. A terra logo a enlevou pela sua maravilhosas graça rural. Depois, conheceu a gente, o seu labor paciente, a sua robusta sobriedade, o seu carinho do lar, a sua reverência meiga e sem adulação, a risonha simplicidade com que acolhe a ventura, a tocante conformidade com que aceita a desventura. E desde que tudo compreendeu, tudo amou. Esta afeição, pois, da Rainha por Portugal é não só de simpatia, mas de raciocínio. Pôs nela toda a sua sensibilidade, mas também toda a sua vontade. E bem podemos, pois, louvar nesta Rainha, como consciente virtude, o que noutra rainha, Isabel de Portugal, uma grande santa, de grande altar, não passaria de inconsciente instinto…
De muitos modos, todos inteligentes e úteis, a rainha nutre e aviva esse seu amor por Portugal. Sem que o crespo e o seco dizer dos nossos cronistas a assuste, ela mergulha piedosamente nas nossas crónicas. As nossas velhas indústrias caseiras são um dos seus ternos cuidados. Não podendo restaurar todos os monumentos decaídos, a todos estuda, desenha e indaga a história, para se penetrar da robusta alma que os criou. E o seu entusiasmo não cessa de estimular a inesperada e prometedora renascença do nosso nacionalismo.
Uma das feições mais tocantes da sua alma portuguesa é a admiração pelos homens fortes que fizeram o reino forte. Filha de França, terra de tão alta valentia que Deus a escolheu para seu soldado e por ela fez os seus grandes feitos, gesta Dei per Francos; princesa de uma cãs onde os heróis decerto não escasseiam, pois que quarenta e nove dos seus antepassados morreram soberbamente em combate – a rainha, hoje, sem abandonar a sua afeição filial pelos paladinos da França, sente uma admiração talvez mais enternecida pelos de Portugal, ou por compreender já que eles mais concorreram para a grandeza da humanidade, ou porque, pertencendo ela mesmo à história de Portugal, se afeiçoou por aqueles que tornaram essa história tão poética e tão heróica. Talvez esse Bertrand du Guesclin, de quem, na sua infância, tanto lhe contaram, se ande já desvanecendo no seu espírito ante a sombra mais vasta e mais nobre do nosso Afonso de Albuquerque; e receio mesmo que o puro dos puros, da flor de toda a cavalaria feudal, o bom senhor de Bayard, seja esquecido por aquela maior pureza e melhor flor da cristandade, o santo e grão condestável! Mesmo na sua preferência pelas residências históricas, ela mostra esta religião do velho Portugal. Em Vila Viçosa, que contém tão curioso pedaço da nossa história, desejaria ela decerto que a corte permanecesse, com seu antigo estado paternal e solarengo, entre um povo amorável e familiar, para quem fosse menos a rainha do que a «boa senhora». Ou então, ditosamente, habitaria esse Castelo da Pena, que, sobre a fresca serra, revive, na nossa idade, um castelo de lenda, semiencantado, com mouras nas fontes, todas as tardes misteriosamente embrulhado entre nuvens, e pelas nuvens levado, e nas nuvens desfeito… De resto, Portugal inteiro a encanta e a retém, como pátria sua: e onde esta princesa de França agora se senta estranha, e vagamente exilada, é na terra de França!… Oh!, decerto a ama – porque não é esta pátria que se esqueça, sobretudo quando se vem dos reis que a criaram. Mas mesmo neste velho Paris, entre o Louvre e Notre-Dame, tão cheios dos seus, talvez ela se surpreenda a pensar saudosamente naquela quieta, e simples, e assoalhada calçadinha que sobe para as Necessidades…
A Rainha, como a sua graça afável o anuncia, possui a bondade nas suas formas amáveis – a tolerância, a bem-querença, a doçura com os humildes, a piedade de todo o mal. Mas na sua alma portuguesa a bondade floresce principalmente, sob uma forma toda nossa e do nosso povo – a caridade. Oh!, bem sei! A caridade pertence a todas as terras, porque a todas, com um fulgor mais intenso ou ténue, penetra o espírito de Deus.
(…) Portugueses não se enredam nestas subtilezas de doutrina. Perante a mão que suplica, não parámos a desejar que ela agarrasse antes uma ferramenta para obter a abundância individual, ou que empolgasse antes uma forte para impor a igualdade social. Não: muito candidamente, escandalizando o economismo e o socialismo – palpamos o bolso, com viveza amorável, e damos.
A rainha tem esta expressão sentimental e anti-doutrinária da caridade portuguesa. É uma senhora de grande e dedicada esmola. E a sua esmola não baixa majestosamente do trono, numa salva, de alabardeiros. Ela própria a leva, sob um véu espesso, a todos os recantos, onde pressinta uma lareira apagada, farrapos tão rotos que já nem se remendam, a enxerga pisada pelo lento sofrer. Mas ao mesmo tempo, como francesa, ama a caridade nacional, que se organiza, se arma em instituição, derrama o bem por estatuto. Dessa nasceu o seu dispensário admirável. E, assim, a senhora excelente dá com a razão, dá com o coração; dá calculadamente, por livros bem escriturados, e dá compassivamente, ao acaso da sua sensibilidade, talvez errando pelo lado da ciência, mas acertando pelo lado de Deus.
(…) O encanto especial da esmola da rainha está no silêncio abafado com que a espalha. E não pelo receio de que a sua esmola pareça, aos que a testemunham, o preço tortuoso da sua popularidade – mas pelo desejo que a esmola chegue àqueles que a recebem como o escondido quinhão da fraternidade. E outro encanto ainda reside nesse complemento da caridade que os santos padres tanto exaltam, a avareza para connosco, bem apertada, acompanhando a liberalidade para os outros, bem solta! A rainha, moça, bela mas não rica, poupa no seu luxo para esbanjar na sua beneficência; e a sua simplicidade é mais que uma escolha de gosto, é uma imposição do dever.
(…) Uma bondade assim forte e activa, nos limites em que encerram a etiqueta e os costumes reais, já denota um espírito sério. Mas toda a vida da rainha constitui uma manifestação perene dessa seriedade desejável. Se percorrermos a história íntima dos estados, observamos logo, com tristeza ou com malícia, que o mal da frivolidade grassa fundamente nas rainhas, e que, ou se ocupem de luxo, ou de sentimentalidade galante, ou de intrigas dinásticas, ou de enredos de corte, ou de parcialidades de religião, ou de tramas políticas, as suas vidas se resumem em confusão e ruído estéril. Ditosa ainda a Nação, quando à poeira que elas ergueram, se não mistura sangue! Neste século, porém, mesmo sem aludir à triunfal soberana que o enche e que, como Augusto, criou uma era, a era vitoriana, abundam rainhas estimáveis pelo carácter, pela inteligência, pela compreensão da dignidade real, pelo fecundo emprego da existência. A rainha de Portugal pertence a essas soberanas bem louvadas, que, por lhes faltarem já tantos direitos e, não desejando definhar na inutilidade através das frias salas dos paços, se impõem muitos e graves e laboriosos deveres. E a dois desses deveres se aplica a rainha com tocante atenção, ao dever íntimo e teologal, como lhe chamaria um padre da Igreja, do aperfeiçoamento próprio, e ao dever público, nacional, da educação dos príncipes.
No aperfeiçoamento próprio, a rainha conserva sempre presente, além da necessidade superior de ornar o espírito, a obrigação de se abastecer, de se completar para a sua missão real. As suas leituras copiosas e cuidadas, todas se concentram sobre as memórias que oferecem ainda o mais seguro caminho de se penetrar nas almas e nos motivos humanos. Mesmo as artes, que ama com uma fidelidade fina, sobretudo a pintura, em que revela observação e a certeza fácil do traço expressivo, elas as aproveita para mais e melhor impregnar das feições, dos costumes, dos aspectos do povo e da terra que é rainha. Na música, a sua afeição vai para as cantigas populares deste velho Portugal que galanteia cantando, trabalha cantando, fala a Deus cantando e, cantando, embala a morte. E mesmo nesse robustecimento do corpo que a Antiguidade estabeleceu como um dever religioso e que nós estamos, felizmente, organizando como um dever social, a rainha prefere a todos os exercícios de um cunho rija e velhamente português; e se a sei apaixonada da Nobre e Liberal Arte de Bem Cavalgar Toda a Sela, não a suponho menos afeiçoada a toda essa destra, valente e salutar campanha que Portugal mantém com o touro, desde a ferra até à lide!
Assim, além da larga porção do cerimonial de estado que a constituição lhe impõe (e a que nós, solitários trabalhadores da pena, parece tão acabrunhadora), a rainha passa uma vida de labor intelectual, esmerado, fecundo e patriótico. Mas o seu trabalho genuinamente patriótico é o da educação dos príncipes. E não porque ela se esforce em os tornar só príncipes, no rígido sentido monárquico, mas porque neles aspira a que cresçam dois homens, no mais vasto e nobre sentido humano. A educação de um príncipe! Ponderoso problema filosófico de todo o erudito século XVII e ainda do ligeiro e generoso século XVIII! Nenhum tem, como este, afiou a sagacidade dos moralistas. Quantos suculentos e majestosos programas! Quantos tratados fecundos, embebidos de todas as preciosidades da ética, de toda a experiência do classicismo, de toda a comentação da Natureza! E o resultado desta tão repleta pedagogia do Estado, para que concorriam prelados, humanistas, magistrados, filósofos, poetas, marechais, era quase sempre, em toda a pobre Europa, era sempre uma série de príncipes detestáveis ou risíveis. Todavia, em obediência ao exemplo sublime de Alexandre, o maior dos príncipes, educado por Aristóteles, o maior dos homens, sempre os reis deram aos seus filhos, como preceptores, os personagens superiormente ilustres do seu reinado. Debalde! Fénelon transformou o Duque de Borgonha, que «nascera terrível», como afirma Saint-Simon, num filósofo cheio de dignidade e mansidão; mas todos os preceptores famosos falhavam, e das suas lições doutíssimas, dos seus cuidados piedosos, surdia ora um insignificante, ora um burlesco ora um monstro! Porquê, severos céus? Porque os nobres preceptores, já recebiam os principezinhos do escuro fundo dos paços, com a natureza irremediavelmente estragada pela camarilha interesseira de saias e librés!
Para além dos Pirenéus, só uma casa real, a Casa de Orleães, ao findar o século XVIII, educava os seus príncipes com verdadeiro amor pelo carácter e pela inteligência. (…) A uma princesa dessa casa cabe hoje educar dois filhos, príncipes de Portugal. E nesta missão, ao que parece, os seus cuidados tendem menos a ensinar prendas do que criar virtudes. Neste singelo programa de pedagogia maternal, vede já que fecunda revolução! E quando a rainha a tiver realizado, se a realizar com ventura, terá cumprido esplêndido feito. Branca de Castela quase ficou santa de calendário por ter guiado, para a santidade, S. Luís, rei de França. A sua glória reluz, também, na história, por ter feito de Luís, não o doce santo, mas o nobre rei. Todavia, mais a eleva entre as mulheres, e lhe rende os corações, o ter formado, em Luís, aquele perfeito espelho de doçura, clemência, misericórdia, e quase divina amizade pelos homens.
S. Luís é uma encantadora imagem, para que eu me detenha junto dela nestes pensamentos sobre a sua neta excelente. De resto, antes esta princesa qu’il fait bon regarder, graciosa, boa e bela, tão portuguesa, tão doce de emoções, tão recta de instintos, desejosa de bem-fazer, atenta a bem pensar, leal e amena, corajosa com a serena coragem da sua casa, sensata com o luminoso senso da sua raça, toda penetrada dos seus deveres reais, toda alvoraçada pelos seus deveres maternos, de uma dignidade benigna, de uma seriedade carinhosa – eu não tentei compor um retrato como eles se usavam e estimavam nas polidas letras do século XVIII. E como poderia? E como saberia? Sempre a obscuridade e a sorte me trouxeram alheio à corte. Na minha terra, onde nem vivo, eu sou apenas um cansado e velho fazedor de livros, que passa. Só raramente penetro no Paço, por aquela grata escada que em Versalhes se chama l’escalier des poètes, e por onde se sobe, menos à presença do rei do que ao trato interessante do erudito e do artista que é o rei.
(…) Mas uma rainha gracieuse, bonne e belle, certamente me encanta. E, pois que o nosso pobre mundo tanto necessita de doçura e bondade, sinceramente creio na vantagem social de que, por vezes, uma rainha irradie um pouco da sua doçura, da sua bondade, da sua beleza, sobre os costumes, os espíritos e as leis. Assim eu tivera a fina arte de tornar esta, que é rainha de Portugal, bem compreensível… Não tenho – porque, «pássaro solitário e humilde», como diz Camões, mal posso eu mesmo compreender quem se move em paragem tão complicada e remota da minha «riba solitária e simples…»

Fontes:
. Eça de Queiroz in “A Rainha”, 1898

* Membro da Plataforma de Cidadania Monárquica


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EÇA DE QUEIROZ ESMIÚÇA O REPUBLICANISMO – Parte II

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Recolha de textos: Miguel Villas-Boas *

Continuamos hoje a deslindar a visão de Eça de Queiroz in «Novos Factores da Política Portuguesa», nas «Farpas» e em cartas pessoais, sobre o Partido Republicano português e a previsão catastrófica que o seu génio fazia de uma revolução republicana. Pela análise de Eça somos levados a constatar que o incipiente partido republicano que poucos anos mais tarde fez a revolução que levou à implantação do novo regime a que chamaram república, não se tratava de mais do que um “caldo” de homens que não representavam de todo a sociedade portuguesa, nem na qual os portugueses se sentiam representados ou mesmo se revissem.

É pela decomposição que faz in «Novos Factores da Política Portuguesa» que se principia a recolha efectuada, na obra sublime, de Eça de Queiroz sobre o republicanismo português:

«Depois do ultimatum de 11 de Janeiro e do frémito de indignação que percorreu todo o País até às mais obscuras vilas, houve um momento em que justificadamente se pôde supor que a Nação, enfim despertada do seu sono ou da sua indiferença, pronta a retomar a posse de si mesma, e certa de que a vida que vinha levando nestes últimos vinte anos a votava irrevogavelmente às humilhações e aos desastres, decidira, num ingente esforço de vontade, começar uma vida nova.
Não escaparam a esta ilusão cabeças que se prezam de friamente raciocinadoras. E quem estas linhas escreve, apesar de dois lustres inteiros de desilusões, chegou a crer que realmente existia no fundo da Nação, sob a sua aparente apatia, uma grande reserva de força, capaz de inspirar e de impor, sem resistências possíveis, uma reorganização política e económica do Estado.
A ilusão, como dissemos, em breve se sumiu por esses ares. Poucas semanas bastaram a evidenciar que não há no país uma força latente de onde pudesse vir o movimento de reorganização nacional, ou que, se a há (é sempre grato guardar uma esperança), o ultimatum do dia 11 e a perda de territórios maninhos de África, que quase ninguém sabia onde ficavam, não foi abalo bastante decisivo para a fazer despertar e operar.» (…)

[…]

«Constitui esta massa já considerável de descontentes um partido militante e organizado? Não, certamente. Esta massa não está ainda filiada no Partido Republicano, não pertence ainda a clubes, não obedece ainda a um programa. Quando muito lê o Século. Mas constitui essa classe, por assim dizer, não-monárquica, que no Brasil permitiu que se fizesse a Revolução no espaço de duas horas, e que é tão perigosa para a segurança das instituições pela sua total indiferença e desamor, como o seria pela sua intervenção hostil e combatente.
Tais são os elementos de que já efectivamente se compõe ou com que condicionalmente já conta o Partido Republicano. É todavia este partido um perigo imediato e iminente para as instituições? Longe de toda a ilusão optimista, afigura-se-nos que esse partido, no dia de hoje, oferece um perigo ainda mínimo, porque tem a impotência de uma multidão a que falta a direcção. Entre os republicanos organizados, filiados, arregimentados, quantos se contarão que sintam confiança real no seu directório e seus chefes oficiais? Raros, segundo nos afirmam aqueles que por experiência própria o sabem. Pode haver, e há, por esses chefes simpatia individual; pode haver, e há, crença na sua sinceridade. Mas não há já a fé na sua coragem, na sua habilidade, ou na sua competência como organizadores de um movimento. E enquanto à massa dos descontentes, dos que chamamos não-monárquicos, esses nunca consentiriam certamente em admitir como chefes, e portanto como futuros promotores da reorganização nacional, os indivíduos, aliás pessoalmente estimáveis, que hoje têm a direcção aparente, e queremos supor que real, dos interesses republicanos. E sem desejar ser descorteses para com personalidades, – somos forçados a constatar que os actuais chefes republicanos, como tais, como chefes, fazem sorrir toda a parte séria da Nação. (…)

(…) Mas ainda mesmo sem direcção, ou com uma direcção impotente porque incompetente, o Partido Republicano existe, exibe-se, fala, escreve, vota; e por este mero facto de existir obriga as classes governamentais a uma atitude legítima de defesa e de resistência. E eis aqui, se não erramos, uma outra fatalidade que vem aumentar os perigos do republicanismo. Desde que, desgraçadamente, se não pôde impedir por uma sábia administração que se viesse a formar esta massa de descontentes, prestes a tornar-se revolucionária, as classes governamentais são necessariamente obrigadas, desde que ela se formou, a mantê-la em respeito e a procurar inutilizá-la por meio da repressão. Os próprios republicanos por mais fanáticos não esperam decerto que o governo lhes entregue espontaneamente as secretarias, o tesouro e a direcção dos serviços públicos. Desde que do seu lado comece a acção – do lado do Poder deve começar a repressão. Ora esta repressão só se pode efectuar coarctando certas liberdades, – liberdade de imprensa, liberdade de reunião, liberdade de associação – que entre nós penetraram profundamente nos costumes públicos, e que formavam além disso o único recurso deixado ao descontentamento para desafogar e se consolar. A perda do direito de usar (e sobretudo de abusar) dessas liberdades vai portanto originar uma imensa irritação, e um acréscimo de descontentamento tanto mais intenso quanto mais comprimido. As repressões são sempre as grandes fautoras das revoluções. Um partido perseguido cresce na proporção geométrica dessa perseguição. Na Alemanha, há sete anos, os socialistas reuniam menos de uma dezena de milhares de votos; vieram as famosas leis de repressão, e a política terrorista de Bismarck; e ao fim de seis anos os socialistas obtinham mais de um milhão de votos, e o próprio Bismarck caía. As classes governamentais sabem isto perfeitamente bem, e não procedem por obcecação ou por um leviano desdém das repetidíssimas lições da História. Fazem o que não podem deixar de fazer – o que é o seu dever que façam; sobretudo quando o partido de revolução reclama não um conjunto de justas reformas, que elas poderiam oportunamente conceder, mas a derrocação pura e simples de todo o regímen constituído, sem um programa melhor de ideias para substituir as dele, só com o fim de destruição e de deslocação de pessoas. A repressão porém só se pode fazer com certeza de êxito pacífico quando exista por trás, a sustentá-la, uma quase unânime corrente de opinião, uma larga maioria nacional, fielmente vinculada e aferrada às instituições monárquicas, só delas esperando a salvação, e não compreendendo que a Nação possa sem elas ser nação. Foi esta funda corrente de opinião, esta forte maioria nacional que faltou no Brasil ao ministério Ouro Preto.

Existe essa maioria nacional entre nós, uma maioria amando tanto as Instituições que esteja pronta, e com alacridade, a dar por elas o dinheiro dos seus cofres e o sangue das suas veias? Infelizmente, por mais que lhe contemos e recontemos os elementos, não nos parece que exista. Na classe média uma minoria é republicana; uma parte importante é indiferente senão hostil; e uma outra parte tende para a hostilidade pelo mero facto de estar excluída do Poder e dos seus benefícios. No povo, o das cidades é republicano; e o do campo, alheio a princípios políticos, nunca se move e nunca se moverá talvez senão para defender o seu pão, se novos e fortes impostos lho ameaçassem.
Resta portanto uma metade da classe média fiel às instituições, porque fiel ao partido político que nesse momento as defenda. Mas foi essa mesma metade da classe média que no Brasil, acabando de dar uma larga maioria parlamentar ao ministério Ouro Preto, e estando justamente a promover uma subscrição para levantar uma estátua ao visconde de Ouro Preto (!) – ficou muito quieta nas suas casas, nos seus empregos ou nos seus escritórios, quando alguns jornalistas e alguns tenentes que iam reclamar uma mudança de ministério se lembraram de proclamar uma mudança de regímen! Esta curiosa lição da História actual, se outras não tivéssemos, bastaria a mostrar que confiança se pode ter, neste último quartel do século XIX, na fidelidade política da classe média.
Ora se esta maioria nacional falta às instituições, elas têm de se apoiar necessariamente numa outra força que, entre nós, só pode ser o exército. (…)

(…) Assim viemos expondo, tais como os compreendemos, os elementos da crise política que se desenha, e que, nascendo da nossa crise crónica, a crise económica, se vai ajuntar a ela ajudando a agravá-la por diversos modos.
A situação é esta. Uma parte importante da Nação perdeu totalmente a fé (com razão ou sem razão) no parlamentarismo, e nas classes governamentais ou burocráticas que o encarnam; e tende, por um impulso que irresistivelmente a trabalha, a substituí-Ias por outra coisa, que ela ainda não definiu bem a si própria. Qual pode ser essa outra coisa? Que soluções se apresentam?

Por um lado a República não pode deixar de inquietar o espírito de todos os patriotas. Ela seria a confusão, a anarquia, a bancarrota. Além disso (é de urgente patriotismo falar com franqueza) a República entre nós não é uma questão de política interna, mas de política externa. Um movimento insurreccional em Lisboa, triunfante ou semi-triunfante, seria no dia seguinte um exército de intervenção marchando sobre nós da fronteira monárquica da Espanha. E se a Espanha, pela morte da criancinha inocente que é rei, se convertesse numa república conservadora – um movimento paralelo em Portugal, apoiado por ela e coroado de êxito, seria o fim da nossa autonomia, da nossa civilização própria, da nossa nacionalidade, da nossa história, da nossa língua, de tudo aquilo que nos é tão caro como a própria vida, e por que temos, durante séculos, derramado sangue e tesouros.

Por outro lado uma «revolução feita de cima», uma concentração de força na Coroa (que a muitos espíritos superiores, e que vêem claro, se apresenta como a nossa salvação), concentração, que, apoiada na parte mais inteligente e mais pura das classes conservadoras, procedesse às grandes reformas que a consciência pública reclama, não seria compreendida pela Nação irremediavelmente impregnada de liberalismo e que nessa concentração de força só veria uma restauração do absolutismo e do poder pessoal.

Que resta no meio destas duas soluções? Restaria ainda a solução quase milagrosa de que as classes conservadoras e parlamentares, cônscias enfim dos perigos que as envolvem, procedessem heroicamente à sua própria depuração e moralização; e, tendo readquirido por esse nobre regeneramento o apoio da maioria sã do País, se lançassem à obra patriótica e exclusiva de reorganizar a Nação administrativa e economicamente. Mas este milagre não é provável. Não há exemplo na História dos séculos de que uma classe conservadora, por uma lenta evolução da consciência, a si mesma se regenere, se depure e se moralize.
Que resta pois? Resta, como esperança, o sabermos que as nações têm a vida dura, e que o nosso Portugal tem a vida duríssima. E se os que estão no poder porfiarem sempre em cometer a menor soma humanamente possível de erros e realizar a maior soma humanamente possível de acertos, muitos perigos podem ser conjurados e a hora má adiada. (…)

(…) Toda a dúvida está em saber se ainda há, ou se já não há, em Portugal, um governo capaz de sinceramente se compenetrar desta grande, desta irrecusável verdade.

Um espectador.»

Eça de Queiroz, assinou assim como “um espectador” que quanto a nós só poderia ser catalogado de “muito atento”!

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Eça de Queiroz, também, analisou a Revolução Francesa e observou de muito perto a evolução dos sucessivos actos do grande drama francês, e, a 13 de Agosto de 1893, publica em «Ecos de Paris» uma crónica sobre os festejos do 14 de Julho, que começa da seguinte forma:
«Paris está amuado com a República. E, para mostrar bem visivelmente o seu despeito, não embandeirou, não iluminou, não dançou, e não berrou, na festa nacional de 14 de Julho. Nunca tivemos, com efeito, um 14 de Julho mais silencioso, mais apagado, mais vazio, mais descontente […]. E se é certo que, em parte, justifica esta indiferença popular pelo facto de a mensagem ideológica da Revolução nada dizer ao povo que é essencialmente individualista, também não deixa de apontar como motivo fundamental a falta de carisma dos homens da República, pois que, «para que a República pudesse ter uma grande festa, devia organizá-la em favor de um grande republicano.
Mas aí é que está a dificuldade. Qual grande republicano? Nenhum reúne a admiração unânime».

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Numa carta privada, dirigida a Oliveira Martins e datada de Paris, 5 de Fevereiro de 1891, Eça refere-se em termos incisivos à Revolução de 31 de Janeiro desse ano, no Porto:
«Telegrafei-te, perguntando se querias, ou podias, fazer o artigo que a Revista não pode deixar de publicar sobre esse furúnculo revolucionário que rebentou no Porto, como sintoma de doença geral; a opinião geral é que esse é o começo da débâcle. O Governo ainda poderia afastar a hora má por algum tempo, se aproveitasse a ocasião para desorganizar inteiramente, à maneira sumária do excelente Constans, o partido republicano. É natural que o caso do Porto seja um lever de rideau, e que o partido republicano, que, em Lisboa e nas cidades da província, permanece intacto e imperturbado, sem ter perdido nem um homem, nem um ceitil, nem uma ilusão, prepare para breve o drama a sério.»

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Eça de Queiroz, in as «As Farpas», 1872, adivinha o presente futuro:
«Nós estamos num estado comparável apenas à Grécia: a mesma pobreza, a mesma indignidade política, a mesma trapalhada económica, a mesmo baixeza de carácter, a mesma decadência de espírito. Nos livros estrangeiros, nas revistas quando se fala num país caótico e que pela sua decadência progressiva, poderá vir a ser riscado do mapa da Europa, citam-se em paralelo, a Grécia e Portugal»; e acrescentou que “O país não tem dinheiro; os espíritos não têm instrução; as estradas derretem; a frequência das escolas diminui; o movimento da roda dos expostos aumenta; a agricultura paralisa-se; as nossas possessões revoltam-se; … Em Lisboa fazem-se leilões…»

Nas «Prosas Bárbaras» de 1903, publicado postumamente, onde os seus primeiros trabalhos, publicados avulso na revista “Gazeta de Portugal”, foram coligidos em livro, Eça antevê a plutocracia:
«Logo que na ordem económica não haja um balanço exacto de forças, de produção, de salários, de trabalhos, de benefícios, de impostos, haverá uma aristocracia financeira, que cresce, reluz, engorda, incha, e ao mesmo tempo uma democracia de produtores que emagrece, definha e dissipa-se nos proletariados.»

E pensar que já na sua juventude, Eça de Queiroz, quando trabalhava no Jornal «Distrito de Évora» escrevera sobre o futuro com uma actualidade assustadora:
«Hoje que tanto se fala em crise, quem não vê que, por toda a Europa, uma crise financeira está minando as nacionalidades? É disso que há-de vir a dissolução. Quando os meios faltarem e um dia se perderem as fortunas nacionais, o regime estabelecido cairá para deixar o campo livre ao novo mundo.»
EÇA É QUE É EÇA!

Bibliografia:
. Eça de Queirós, «Novos Factores da Política Portuguesa», Revista de Portugal, Volume II, Abril de 1890, págs. 526 – 541
. Eça de Queiroz, Crónica in «Ecos de Paris», 13 de Agosto de 1893
. Eça de Queiroz, Carta a Oliveira Martins, 5 Fev. 1891
. Eça de Queiroz, «As Farpas», 1872
. Eça de Queiroz, «Distrito de Évora», 1867
. Eça de Queiroz, «Prosas Bárbaras», 1903

* Membro da Plataforma de Cidadania Monárquica


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EÇA DE QUEIROZ ESMIÚÇA O REPUBLICANISMO – Parte I

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Recolha de textos: Miguel Villas-Boas *

Eça de Queiroz, para além de génio literário foi sem dúvida o maior “retratista” social e político do séc. XIX. Com a sua ironia elevada conseguiu descrever in «Novos Factores da Política Portuguesa», nas «Farpas» e nalgumas cartas pessoais, como seriam pelos menos os 40 anos vindouros e lançou bases para a percepção de muito do que hoje o nosso amado País atravessa, prevendo assim, com a maior das infalibilidades, o futuro. Sobretudo, nos «Novos Factores…», assinando como “um espectador” – que só poderia ser apelidado de “atento” – o Monárquico Eça acertou em toda a linha sobre o desacerto que traria uma revolução republicana.
N’As Farpas, Eça de Queiroz discorre sobre os mais variados assuntos, mas tendo na mira, sempre com especial dedicação, os políticos e a política como podemos constatar nestas breves transcrições:
«- E a que se chama política, meu amigo? Tenho-lhe ouvido…
– A política é uma ocupação dos ociosos, uma ciência dos ignorantes, uma riqueza dos pobres e uma fidalguia dos plebeus. – Reside em S. Bento…»
«- E não há o que chamamos homens práticos?
– Sim, desse modo se denominam os políticos impossibilitados pela inépcia de decorarem o enunciado de uma teoria. Estes sujeitos não falam, nem escrevem: meneiam a cabeça, e de quando em quando – assoam-se! São muito respeitados.»
# # #

Mas foi, de facto, nos «Novos Factores da Política Portuguesa» que Eça de Queiroz desconstruiu o incipiente republicanismo e o partido que o advogava, fazendo um retrato claro e contundente desde a verde existência da doutrina e dos seus professos:
«Mas se fora das regiões da Política, na massa geral da Nação, o ultimatum não logrou produzir um movimento que viesse trazer transformações essenciais à nossa vida administrativa e económica, sucedeu que, dentro dessas próprias regiões da Política, esse mesmo ultimatum, e as manifestações tumultuárias que o acompanharam, vieram alterar o equilíbrio dos elementos regulares com que a Política jogava, fazendo aparecer nela elementos novos, novos factores, com que é forçoso de ora avante contar, e que, coisa estranha!, fazem o Portugal de 1890 politicamente diferente do Portugal de 1889. É esta nova situação que convém estudar com clareza e franqueza.»

«Estender sobre ela um véu pudico, disfarçar-lhe discretamente, por falsas e injustificáveis conveniências públicas, os perigos que ela contém, mão a querer dissecar abertamente com o temor de patentear realidades desagradáveis, seria o mesmo que impedir uma cura ainda possível pelo desejo de não aludir a um mal manifestamente certo, seria um crime de leso patriotismo.»

«O Partido Republicano não é certamente de criação recente. Desde 34, desde 20, sempre em Portugal existiram republicanos e jacobinos. Foi possível porém durante muito tempo contá-los, como se diz, pelos dedos de uma só mão. Eram ideólogos isolados, um pouco vaidosos do seu isolamento, vaidosos sobretudo da sua independência e isenção, e da superioridade intelectual que as suas ideias lhes davam ou lhes pareciam dar, de resto universalmente respeitados, e respeitadores eles mesmos do regímen sob que viviam e de quem por vezes aceitavam empregos.

O primeiro ensaio de republicanismo, com visos de organização, foi devido, aí por 1867 ou 68, a um guarda-livros da antiga Casa Bertrand, moço excelente, mas fanático, que consumiu o seu pecúlio e a sua saúde no empenho de fundar um clube, menos como núcleo de acção que como núcleo de propaganda. Esse clube (se nos não falha a memória) chegou a funcionar numa casa da rua do Príncipe, e a ele pertenceram alguns homens hoje ilustres nas letras, e mesmo famosos pelas suas ideias autoritárias. De resto nesse clube tratava-se mais de estimular a fraternidade humana, de libertar as raças oprimidas, etc., do que propriamente de abalar o poder que residia na Ajuda. Era um clube de humanitários e de idealistas, de onde apenas saiu um acto prático, as conferências chamadas do Casino, instrumento de propaganda que tinha naturalmente mais de literária do que de política. (…) A imprensa de oposição exibiu a costumada indignação liberal; o Sr. Dias Ferreira fez uma interpelação ao ministério; e não se falou mais nas conferências do Casino, de que apenas resta como vestígio uma verdadeira jóia de crítica histórica, um folheto do Sr. Antero de Quental, hoje muito raro, sobre a Decadência dos Povos Peninsulares. O clube da rua do Príncipe morreu de inanição, e este ensaio jacobino fundiu-se ou perdeu-se no movimento socialista que, aí por 1871 e 72, ainda sob a iniciativa do Sr. Fontana e de outros, englobou em si uma considerável porção da classe operária de Lisboa. Esse movimento socialista, que era uma ramificação entre nós da famosa Internacional, fracassou quando essa sociedade, por motivos que não vem para aqui compendiar, perdeu a sua acção sobre a massa dos trabalhadores europeus. Depois disso a corrente republicana, que várias causas tinham continuado a desenvolver surdamente, aflorou de novo à superfície e fez sentir a sua acção por ocasião do centenário de Camões. E finalmente a sua entrada como partido organizado na sociedade política pode ser datada da questão de Lourenço Marques.

Não tomámos a pena para fazer a história, ainda pouco acidentada, do Partido Republicano. Essa história, por enquanto, reduz-se principalmente a números. Um deputado republicano por Lisboa há quinze anos não reuniria cem votos. Nas últimas eleições os republicanos tiveram alguns milhares de votos. E estes milhares de votos têm uma significação grave, não tanto por virem do apoio progressista (ainda que este apoio é também significativo e sintomático), mas por virem de uma forte massa de eleitores independentes, pertencendo pela maior parte às classes liberais e à classe comercial, que até aqui se abstinham de votar.
Um tal desenvolvimento de republicanos é obra recente destes últimos anos. E a sua causa tem sido simples e unicamente o descontentamento: isto é, o Partido Republicano tem-se alastrado, não porque aos espíritos democratizados aparecesse a necessidade de implantar entre nós as instituições republicanas, como as únicas capazes de realizar certos progressos sociais – mas porque esses espíritos sentem todos os dias uma aversão maior pela política parlamentar, tal como ela se tem manifestado, com o seu cortejo de males, nestes derradeiros tempos.

O Partido Republicano em Portugal nunca apresentou um programa, nem verdadeiramente tem um programa. Mais ainda, nem o pode ter: porque todas as reformas que, como partido republicano, lhe cumpriria reclamar, já foram realizadas pelo liberalismo monárquico. De sorte que se vai para a república ou se tende para ela, não por doutrinarismo, por urgência de mais liberdade e de instituições mais democráticas, mas porque numa já considerável parte do País se vai cada dia radicando mais este desejo: antes qualquer outra coisa do que o que está!

Esta é a mais recente e desgraçada fórmula política da Nação. É a fórmula que se ouve repetida por toda a parte onde dois homens se juntam a comentar as coisas públicas. Ora que pode ser essa outra coisa? Não pode ser o governo pessoal, fórmula para que apenas se inclinam alguns espíritos superiores, mas odiosa à generalidade da Nação, de todo democratizada, ou antes irradicavelmente impregnada de liberalismo; tem pois, na ideia dos descontentes, de ser a república, uma república, que, eliminando pelo mero facto do seu triunfo todo o pessoal do parlamentarismo e as suas práticas, proceda, sem desatender os interesses conservadores, a uma reorganização administrativa e económica da Nação. Essa reorganização parece-nos, a nós conservadores, que poderia ser realizada dentro da monarquia. (…)

(…) Cremos que ninguém, com uma clara inteligência das coisas, negará ser esta a corrente de ideias ou de impressões que tem desenvolvido o Partido Republicano. Do seu mais recente e inesperado engrossamento neste último ano houveram causas mais directas e mais especiais, internas e externas. Das internas a maior foi sem dúvida o último período da administração progressista. Não queremos por modo algum nestas páginas da REVISTA, onde só podem ter cabimento as apreciações genéricas de ideias, doutrinas ou movimentos sociais, fazer acusações específicas a grupos políticos. Mas ninguém hoje contesta, mesmo dentro das fileiras progressistas onde preclaramente sobram os homens sinceros e de bem, que os erros dessa administração foram fatais ao sistema parlamentar e à monarquia que é a sua expressão suprema.
A parte sã da Nação ficou seriamente desgostosa. E as lamentáveis desordens parlamentares desse triste ano político, as violentíssimas e desmandadas polémicas, as mútuas e terríveis recriminações com que, obcecados pela paixão, os partidos se feriam uns aos outros na sua honra, deixaram no País, que assistia espantado a uma tal lavagem pública de roupa suja, o sentimento desalentado que ele exprime por esta fórmula: – Tão bons são uns como outros! É esta uma outra das recentes e desgraçadas fórmulas da opinião pública em Portugal. Ora se, dos que estão, tão bons são uns como os outros no sistema parlamentar – para onde ir, para que apelar? Naturalmente para a república e para os homens novos e puros que ela possa trazer.

Uma outra causa exterior que veio concorrer para o engrossamento do Partido Republicano foi a revolução do Brasil. Feita por uma raça filha da nossa, que fala a nossa língua e tem tantos interesses ligados aos nossos, e feita aparentemente com uma cordura, uma generosidade, uma ordem que espantou (e enganou) o mundo, esta revolução veio entre nós, de mil maneiras indirectas, desenvolver o sentimento republicano; já provando como sem desordem social se pode melhorar um regímen político; já mostrando tentadoramente a que fastígios de poder pode galgar, numa manhã, qualquer obscuro articulista ou qualquer obscuro professor; já dando a esperança de um forte apoio moral e (porque o não diremos?) de um forte apoio material. A revolução do Brasil tranquilizando os ordeiros, excitando os ambiciosos, e dando confiança a todos pela esperança de apoio e recursos positivos – foi um golpe que das instituições brasileiras repercutiu indirectamente sobre as nossas instituições.
Não menor acção estimuladora trouxe aos nossos republicanos a consolidação da república em França, tão ameaçada, ainda antes das eleições de Setembro, pela coligação monárquico-cesarista. A França, pelo simples facto de ser república e como tal prosperar, é hoje o mais poderoso instrumento de propaganda republicana entre os povos latinos. Não se reflecte bastante que às qualidades da sua raça, não à forma das suas instituições, deve ela a sua prosperidade; e que a Exposição seria tão brilhante sob o reinado de Filipe V, como foi sob a presidência de Carnot. O que se vê é a República robustecendo o exército e a armada, construindo enormes obras de defesa, reorganizando superiormente os seus novos domínios, alargando imensamente a instrução, favorecendo o movimento dos negócios a ponto de tornar o próprio capital republicano, mantendo admiravelmente a ordem, e, apesar da sua democratização, conservando todas as elegâncias da vida e da sociedade. Tudo isto se atribui à república, quando é unicamente obra da França.

Finalmente entre as causas estranhas se pode contar o ultimatum do dia 11, que, se não arrancou o País à sua apatia, lhe deu subitamente o sentimento mais claro, e por assim dizer agudo, da sua própria fraqueza e desorganização; fraqueza e desorganização que, aparecendo dentro deste regímen, podem ser (e são) obra de certas fatalidades, mas são evidentemente também obra desse regímen. «Aqui está onde nós chegamos!» foi então a dolorida exclamação que resumia o sentir público.
Assim, progressivamente, se tem ido o Partido Republicano recrutando entre todas as classes e todas as profissões, a advocacia, a magistratura, o professorado, o comércio, e mesmo a propriedade rural, pela acção lenta de causas diferentes, das quais a maior incomparavelmente, e a única que incessantemente opera, é a de um forte descontentamento político.
E o que torna este descontentamento político tanto mais vivo, e por assim dizer activo, é que ele tem o estímulo constante de um imenso descontentamento individual, nascido das dificuldades de vida que cada um experimenta. É a nossa pobreza geral que complica singularmente a nossa crise política. Em casa onde não há pão todos ralham e todos têm razão – porque é deste modo que o provérbio deve ser entre nós emendado. (…) A oposição a um governo ou a um regímen nunca toma com efeito um carácter impaciente, violento e destrutivo quando cada um tem pão bastante na prateleira ou um saldo favorável no seu banco. Todo o regímen parece bom, pelo menos perfeitamente tolerável, ao pai de família que se sente na abundância. A mudança de regímen, e as perturbações sociais que lhe vêm inerentes, só lhes inspiram então inquietação, por poderem alterar ou anular as condições favoráveis em que a sua prosperidade se produziu. Entre nós é justamente o contrário que sucede. Ninguém vive na abundância e todos se encontram em dificuldades. (…) Todos sofrem; e ainda que muitos só se deveriam queixar da sua falta de iniciativa, de persistência, e mesmo de coragem civil, todos à uma se voltam contra um regímen que eles consideram como o causador de todos esses males públicos de onde datam os seus males particulares. Em todas estas classes se encontra com efeito a mesma opinião expressa pela mesma fórmula: -isto assim não pode continuar! Isto é a desorganização administrativa, política e económica.»

# # #
Num texto publicado no jornal “Distrito de Évora”, em 1867, Eça de Queiroz havia já analisado o estado do País apontando as falácias da política:
«O Que Verdadeiramente Mata Portugal! O que Verdadeiramente nos mata, o que torna esta conjuntura inquietadora, cheia de angústia, estrelada de luzes negras, quase lutuosa, é a desconfiança. O povo simples e bom, não confia nos homens que hoje espectaculosamente, estão meneando a púrpura de ministros; os ministros não confiam no parlamento, apesar de o trazerem amaciado, acalentado com todas as doces cantigas de empregos, rendosas conezias, pingues sinecuras; os eleitores não confiam nos seus mandatários, porque lhes bradam em vão: «Sede honrados», e vêem-nos apesar disso adormecidos no seio ministerial; os homens da oposição não confiam uns nos outros e vão para o ataque, deitando uns aos outros, combatentes amigos, um turvo olhar de ameaça. Esta desconfiança perpétua leva à confusão e à indiferença. O estado de expectativa e de demora cansa os espíritos. Não se pressentem soluções nem resultados definitivos: grandes torneios de palavras, discussões aparatosas e sonoras; o país, vendo os mesmos homens pisarem o solo político, os mesmos ameaços de fisco, a mesma gradativa decadência. A política, sem actos, sem factos, sem resultados, é estéril e adormecedora.»

A 27 de Setembro de 1893, num dos «Ecos de Paris», Eça mensura algumas das subtis incoerências da Revolução Francesa, dizendo que o Parlamento francês se tornou: «longa planície, produtiva, e chata, sem uma eminência, uma linha que se eleve para as alturas, moinho torneando ao vento ou torre airosa donde voem aves».

Em 1896, Eça de Queiroz, numa das «Cartas Familiares de Paris», publicou «A Propósito de Thermidor» onde explana uma série de reflexões sobre o impacto da Revolução Francesa, apontando as incongruências do sistema: «A Terceira República não faltou a este dever prudente: – e apenas instalada nos palácios onde habitara o Segundo Império, imediatamente desaparelhou e recolheu a Revolução. A grande época que até aí andava sempre, em pleno sol, no rumor da vida ambiente, misturada ao redemoinhar das ideias e dos interesses, penetrou no silêncio e na sombra dos arquivos e aí ficou, como cousa finda, aposentada, já catalogada.»

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(…) Continua em “Eça de Queiroz Esmiúça o Republicanismo – Parte II” a publicar em 5/11/2013

Bibliografia:
. Eça de Queiroz e Ramalho Ortigão, «As Farpas», 1872
. Eça de Queiroz, «Novos Factores da Política Portuguesa», Revista de Portugal, Volume II, Abril de 1890, págs. 526 – 541
. Eça de Queiroz, «Distrito de Évora», 1867
. Eça de Queiroz, «Ecos de Paris», 27 de Setembro de 1893
. Eça de Queiroz, «Cartas Familiares de Paris – A Propósito de Thermidor», em 1896

* Membro da Plataforma de Cidadania Monárquica


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EÇA DE QUEIROZ E FERNANDO PESSOA – CONVICTAMENTE MONÁRQUICOS

1239660_295966843875096_1870921876_nOs nossos mais internacionalmente conhecidos Príncipes das Letras, Eça de Queiroz e Fernando Pessoa, eram monárquicos convictos, e não pouparam, o primeiro o incipiente Partido republicano, e, o segundo a implantada I.ª República assim como os políticos cleptocratas que passaram a saciar-se nos cargos de relevo do nosso País. Desta forma como para eles rir era uma filosofia, ficaram para a posteridade as suas “boutades” sobre política à republicana que mais contemporâneas não podiam ser, pois atravessaram os quase 103 anos de desatino republicano com uma actualidade compressora.

1.- EÇA É QUE É EÇA:

“(…) O Partido Republicano em Portugal nunca apresentou um programa, nem verdadeiramente tem um programa.
Mais ainda, nem o pode ter: porque todas as reformas que, como Partido Republicano, lhe cumpriria reclamar já foram realizadas pelo liberalismo monárquico”.
“ (…) E sem desejar ser descortês para com personalidades somos forçados a constatar que os actuais chefes republicanos, como tais, como chefes, fazem sorrir toda a parte séria da nação.
Mas ainda, mesmo sem direcção, ou com uma direcção impotente por incompetente, o Partido Republicano existe, exibe-se, fala, escreve, vota […]
[…] a República não pode deixar de inquietar o espírito de todos os patriotas. Ela seria a confusão, a anarquia, a bancarrota.”
Eça de Queiroz, Novos Factores da Política Portuguesa, in Revista de Portugal, Abril 1890

“[…] o Partido Republicano tem-se alastrado, não porque aos espíritos democratizados aparecesse a necessidade de implantar entre nos as instituições republicanas, como as únicas capazes de realizar certos progressos sociais – mas porque esses espíritos sentem todos os dias uma aversão maior pela política parlamentar, tal como ela se tem manifestado, com o seu cortejo de males, nestes derradeiros tempos.”
Eça de Queiroz, “Novos Factores da Política portuguesa”, in Revista de Portugal, 1891

“[…] sobre esse furúnculo revolucionário que rebentou no Porto, como sintoma de doença geral […], a opinião geral é que esse é o começo da débâcle. O Governo ainda poderia afastar a hora má por algum tempo, se aproveitasse a ocasião para desorganizar inteiramente, à maneira sumária do excelente Constans, o partido republicano.
Eça de Queiroz, Carta a Oliveira Martins, 5 Fev. 1891

“O Que Verdadeiramente Mata Portugal. O que Verdadeiramente nos mata, o que torna esta conjuntura inquietadora, cheia de angústia, estrelada de luzes negras, quase lutuosa, é a desconfiança. O povo simples e bom, não confia nos homens que hoje espectaculosamente, estão meneando a púrpura de ministros; os ministros não confiam no parlamento, apesar de o trazerem amaciado, acalentado com todas as doces cantigas de empregos, rendosas conezias, pingues sinecuras; os eleitores não confiam nos seus mandatários, porque lhes bradam em vão: «Sede honrados», e vêem-nos apesar disso adormecidos no seio ministerial; os homens da oposição não confiam uns nos outros e vão para o ataque, deitando uns aos outros, combatentes amigos, um turvo olhar de ameaça. Esta desconfiança perpétua leva à confusão e à indiferença. O estado de expectativa e de demora cansa os espíritos. Não se pressentem soluções nem resultados definitivos: grandes torneios de palavras, discussões aparatosas e sonoras; o país, vendo os mesmos homens pisarem o solo político, os mesmos ameaços de fisco, a mesma gradativa decadência. A política, sem actos, sem factos, sem resultados, é estéril e adormecedora.”
Eça de Queiroz, in Distrito de Évora

“O país não tem dinheiro; os espíritos não têm instrução; as estradas derretem; a frequência das escolas diminui; o movimento da roda dos expostos aumenta; a agricultura paralisa-se; as nossas possessões revoltam-se; … Em Lisboa fazem-se leilões…”
Eça de Queiroz in Farpas, pág. 63, Janeiro de 1872

“… Nós temos por el-rei a mais sincera simpatia, e consagramos a sua majestade a rainha o respeito mais profundo. Se a nossa palavra não basta, e se a esta homenagem dos nossos sentimentos é preciso acrescentar o sacrifício das nossas vidas – tenham a bondade de as mandar buscar.”
Eça de Queiroz in As Farpas, pág. 65, Janeiro de 1872

2.- FERNANDO PESSOA “DA I.ª REPÚBLICA”

“(…) A situação de Portugal, proclamada a República, é a de uma multidão amorfa de pobres-diabos, governada por uma minoria violenta de malandros e de comilões. O constitucionalismo republicano, para o descrever com brandura, foi uma orgia lenta de bandidos estúpidos (…)”
“(…) É alguém capaz de indicar um benefício, por leve que seja, que nos tenha advindo da proclamação da República? Não melhorámos em administração financeira, não melhorámos em administração geral, não temos mais paz, não temos sequer mais liberdade. Na monarquia era possível insultar por escrito impresso o Rei; na república não era possível, porque era perigoso, insultar até verbalmente o Sr. Afonso Costa. (…)”

“(…) Os partidos políticos, em determinado país e determinada época, têm todos a mesma mentalidade, têm todos virtualmente o mesmo grau, pouco ou muito, de corrupção. Há uma ressalva, que propriamente o não é, a fazer. Os partidos do governo – isto é, os partidos que frequentemente governam, e por isso, em geral, os maiores – agregam mais videirinhos e mais interesseiros, pela simples razão de que os videirinhos e os interesseiros buscam naturalmente os partidos que os podem empregar e recompensar (…). Por outro lado, os partidos da oposição – isto é, os que não vão ao poder, ou não podem ir, ou dificilmente podem ir – agregam, mais que os outros, os elementos perturbadores e anti-sociais, e fazem-no na proporção em que são extremistas (da direita ou da esquerda). (…) Os independentes podem propor-se, e algumas vezes se propõem à eleição. Mas as eleições, nas condições modernas, são a tal ponto matéria de organização e mecanismo que é com grande desigualdade que um independente se pode bater contra os candidatos nomeados pelos partidos. O triunfo de uma candidatura independente é a coisa mais rara deste mundo. (…)”
“(…) Os partidos, ainda, como têm que ter a aparência de se basear na opinião pública, buscam «orientá-la» no sentido que desejam, e assim a pervertem; e, para sua própria segurança, buscam servir-se dela, em vez de a servir a ela, e assim a sofismam. (…)”
“(…) A mais antiga tradição de qualquer país é ele não existir. (…)”
“(…) Um país unânime numa opinião de hábito não seria país – seria gado. Um país concorde numa opinião de intuição não seria país – seria sombras. O progresso consiste na média entre o que a opinião de hábito deseja e o que a opinião de intuição sonha. Figurou Camões, nos Lusíadas, em o Velho do Restelo a opinião de hábito, em o Gama a opinião de intuição. Mas o Império Português nem foi a ausência de império que o primeiro desejara, nem a plenitude de império que o segundo sonharia. Por isso, por mal ou por bem, o Império Português pôde ser. (…)”
“(…) Já acima esboçámos, em simples exemplo ocasional, qual seja a situação presente de Portugal quanto à sua opinião pública. Concentrados dos Filipes ao liberalismo, numa estreita tradição familial, provincial e religiosa; animalizados, nas classes médias, pela educação fradesca, e, nas classes baixas, bestializados pelo analfabetismo que distingue as nações católicas, onde não é mister conhecer a Bíblia para se ser cristão; desenvolvemos, nas classes superiores, a onde principalmente se forma a opinião de intuição, a violenta reacção correspondente a essa acção violenta. Desnacionalizámos a nossa política, desnacionalizámos a nossa administração, desnacionalizámos a nossa cultura. A desnacionalização explodiu no constitucionalismo, dádiva que, em reacção, recebemos da Igreja Católica. Com o constitucionalismo deu-se a desnacionalização quase total das esferas superiores da Nação. Produziu-se a reacção contrária, e, do mesmo modo que na Rússia de hoje, se bem que em menor grau, a opinião de hábito recuou muito além da província, para além da religião, em muitos casos para além da família. Surgiu a contra-reacção: veio a República e, com ela, o estrangeiramento completo. Tornou a haver o movimento contrário; estamos hoje sem vida provincial definida, com a religião convertida em superstição e moda, com a família em plena dissolução. Se dermos mais um passo neste jogo de acções e reacções estaremos no comunismo e em comer raízes – aliás o término natural desse sistema humanitário. (…)”
«(…) As qualidades mentais e morais necessárias para a conquista do poder político, ou tendentes a essa conquista, são inteiramente diferentes daquelas necessárias para governar o Estado. Pode dizer-se, até, que mais se podem ter por opostas que por sequer análogas. Pode haver, é certo, um ou outro homem que ambas reúna, como pode haver quem seja, ao mesmo tempo, filósofo e atleta; mas em ambos os casos se trata de uma excepção, e os dois tipos ou grupos de qualidades permanecem diferentes e até opostos. São três as maneiras de conquistar o poder: a astúcia e a intriga, nos regimes autoritários, como a monarquia absoluta; a eloquência e a capacidade de persuasão, com a concomitante capacidade de mentir, até a si mesmo, para melhor mentir aos outros, como nos sistemas democráticos; e a violência, nos regimes impostos revolucionariamente, sejam eles de que tipo forem. (…)”.
“(…) Se a revolução é só da superfície, feita por uma minoria organizada num país desorganizado, e, por desorganizado, apático e servil, então os organizadores da revolução algumas qualidades têm que há que ter o homem de governo: são, pelo menos, chefes e organizadores. Tal foi, em ponto pequeno, a nossa Revolução de 5 de Outubro; tal foi, em ponto grande, a Revolução Bolchevista. Em ambos os casos, a maioria do país era monárquica, sendo apenas, republicana num caso, comunista no outro, a minoria mais bem organizada. (…)”
“(…) A hipnose do estrangeiro é um dos característicos distintivos das nações que não são senão províncias. A hipnose das cidades é outro sintoma de provincianismo. Tudo o que se faz em Paris, por estúpido que seja, é motivo de gesto igual para os macacos da Europa. (…)”

Pessoa chega, então, a conclusão:

“(…) O que é preciso, pois, é estabelecer uma fórmula de transição que sirva de declive natural para a MONARQUIA FUTURA, mas esteja em certa continuidade com o regímen actual. Essa fórmula de transição, já tentada instintivamente por Sidónio Pais, é a república presidencialista, que, por ser república, não perde continuidade com o actual regímen (…). A tradição não se reata: reconstrói-se. (…)”

Bibliografia:
1.- Eça de Queiroz – Novos Factores da Política Portuguesa, in Revista de Portugal, Abril 1890 e 1891; Carta a Oliveira Martins, 5 Fev. 1891; in Distrito de Évora; As Farpas, págs. 63 e 65, Janeiro de 1872
2.- Fernando Pessoa – Textos dispersos e publicados, escritos entre 1910 e 1935.