Monarquia, Cidadania, Democracia


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Pessoa sobre o Estado das Coisas Republicano

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Introdução e recolha dos textos pessoanos: Miguel Villas-Boas *

Vieram há uns tempos, com missão sombria, as flanelas das redacções do sistema inventar um Fernando Pessoa republicano; ora nada mais falso, pois não consta que, apesar de se ter o génio multiplicado em inúmeros heterónimos, ter alguma vez encarnado um tal Aka verde-rubro. Assim, nem foi republicano como “Also know as” e muito menos como ortónimo ou sob pseudónimo!
Tal confusão mal-intencionada só pode ser carpo do desespero ou melhor da desesperança perante o modelo republicano falido que continuam a defender sem procuração. A esta aflição republicana não é estranha, naturalmente, a acção do movimento da Causa Monárquica que tem demonstrado as virtudes e vantagens de se voltar a chamar o Rei.
«Com o tempo, uma imprensa cínica, mercenária, demagógica e corrupta formará um público tão vil como ela mesma», lembrou Joseph Pulitzer, que de tão sábio mereceu dar nome a um consagrado Prémio homónimo.
Cabe então desfazer as dúvidas e afastar os inuendos e mostrar que o grande Príncipe das Letras português nunca foi abduzido por tal repúblico alienígena.
O que fazemos aqui é um regresso ao tema, pois já anteriormente demonstramos em diversos artigos na Plataforma de Cidadania Monárquica que Fernando Pessoa vestia a camisola da Monarquia.
Mas para que não sobejem dúvidas e não pairem hesitações, aqui se vão reproduzir, em mais um rendoso Acto, mais alguns textos em prosa e verso – por datas de produção – sobre o entendimento de “Pessoa sobre o Estado das Coisas Republicano”.

FERNANDO PESSOA, escreveu:

Excertos d’O Jornal 1915:

«(…) Repare agora para o momento português actual. Qual das duas cousas lhe aparece aí a denunciar-lhe que Portugal é uma Pátria? Quebrámos com todas as tradições; até aqui nada há de mau. Resta saber se lhes substituímos qualquer coisa nova que seja de criação portuguesa. É assim? Qual é essa cousa? Os princípios em que assenta esta cousa a que se chama República Portuguesa: estes princípios são franceses. (…) Não há Portugal: há uma mistura ignóbil de «estrangeiros do interior» a governar-nos e a estropiar-nos o resto do que somos. (…) Substituí-lo [a monarquia] por um regimen que, além de não ser nacional de modo nenhum, continuava as mesmas tradições (estas sim!) de gatunagem e de incompetência, agravando, se talvez não a gatunagem, por certo que a incompetência – eis uma cousa para a qual não valia a pena ter derramado sangue, perturbado a vida portuguesa, criado maior soma de desprezos por nós do que os que já havia no estrangeiro. (…)
(…) A situação de Portugal, proclamada a República, é a de uma multidão amorfa de pobres-diabos, governada por uma minoria violenta de malandros e de comilões. O constitucionalismo republicano, para o descrever com brandura, foi uma orgia lenta de bandidos estúpidos (…)»

MARCHA FÚNEBRE – finais de 1917

«Com lixo, dinheiro dos outros, e sangue inocente,
Cercada por assassinos, traidores, ladrões (a salvo)
No seu caixão francês, liberalissimamente.
Em carro puxado por uma burra (a do estado) seu alvo,

Passa para além do mundo, em uma visão desconforme,
A República Democrática Portuguesa.

O Lenine de capote e lenço,
Afonso anti-Henriques Costa.

Mas o Diabo espantou-se: aqui entram bandidos
Até certo ponto e dentro de certo limite.

Assassinos, sim, mas com uma certa inteligência.
Ladrões, sim, mas capazes de uma certa bondade.
Agora vocês não trazem quem tivesse tido a decência
De ao menos ter uma vez dito a razão ou verdade.»

De 1919:

«É inglesa a constituição,
E a república é francesa.
É de estrangeiros a Nação,
Só a desgraça é (que é) portuguesa.»

«(…) Um Portugal onde internacionalmente só se pode ser inglês; onde nacionalmente só se pode ser francês (pois que francesas sejam as ideias republicanas que nos «governam») – um Portugal onde, portanto, tudo se pode ser («tudo» é um modo de falar) menos português, que espécie de «Portugal independente» é que é? Que independência há nisto? Triste gente que se contenta com a triste aparência das cousas, e não vê um palmo adiante das sensações quotidianas, para dentro da sua alma súbdita e oprimida! (…) O Português é hoje um expatriado no seu próprio país. Somos uma nação, não uma pátria; somos um agregado humano sem aquela alma colectiva que constitui uma Pátria. Somos… Sei lá o que nós somos? (…)»

28/12/1919:

«Clarim! Os mortos!

Contra Miguel de Vasconcellos
Republicano!

Eis outra vez o estrangeiro
Em Portugal!
Grita, clarim! Ao Conde Andeiro!
Mas quando a hora do Limoeiro
E do punhal?

Clarim, contra quem deu à França
A pátria e a grei,
Grita com fogo de esperança,
Vozes que chamem
O Rei!

E ao abismo do futuro clama
Por quem enfim
Vier, régia lusitana chama!
Pelo Rei que a Esperança chama,
Grita, clarim!»

1935:

«O rei reside em segredo
No governar da Nação,
Que é um realismo com medo
Chama-se nação ao Rei
E tudo isto é Rei-Nação.

A República pragmática
Que hoje temos já não é
A meretriz democrática.
Como deixou de ser pública
Agora é somente Ré.»

NEVOEIRO in A MENSAGEM, Quinto, 10/12/1928

«Nem rei nem lei, nem paz nem guerra,
Define com perfil e ser
Este fulgor baço de terra
Que é Portugal a entristecer –
Brilho sem luz e sem arder,
Como o que o fogo-fátuo encerra.

Ninguém sabe que coisa quer.
Ninguém conhece que alma tem,
Nem o que é mal nem o que é bem.
(Que ânsia distante perto chora?)
Tudo é incerto e derradeiro.
Tudo é disperso, nada é inteiro.
Ó Portugal, hoje és nevoeiro…

É a hora!
Valete, Frates»

– E agora digo eu, naturalmente sem a chama do génio: nunca a concepção republicana burguesa despertará uma intensidade de emoções comparável com qualquer assunto relacionado com a Monarquia. Existe um ELO que liga o Rei ao Povo. Essa ligação é natural e intrínseca, pelo que existe uma afectuosidade difusa entre os sujeitos que provoca um interesse atento e permanente a tudo o que são assuntos reais. Por isso o Povo dedica aos seus Príncipes uma alta estima. “Os primeiros entre os seus pares” só porque aparecem, dominam a atenção. De tudo o que parece ligar Rei e Povo, nada há que possa parecer mais natural do que aquele dom que o Monarca tem de discernir e captar a vontade do seu Povo e fazê-la convergir para um fim comum a todos, e esse juízo é uma qualidade que faz o Povo sentir uma enorme exultação e empatia pelo seu soberano.

Por isso parece que em jeito de “Conclusão” pode ficar mais esta pessoana referência para servir de motivação para a nossa Causa:

«Trabalhemos aos menos – nós, os novos – por perturbar as almas, por desorientar os espíritos. Cultivemos, em nós próprios, a desintegração mental como uma flor de preço.»
– Fernando Pessoa, excerto de “O Jornal”, 8/4/1915

Os “Novos” somos todos nós, Monárquicos, independentemente da idade, pois a república, essa sim, é Coisa Velha e de Antigos!

* Membro da Plataforma de Cidadania Monárquica


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O Rei é o Alento do Povo!

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Autor: Miguel Villas-Boas *

«O Rei fala, e um seu gesto tudo prende,
O som da sua voz tudo transmuda.
E a Sua viva Majestade esplende.»
– Fernando Pessoa, 31/07/1935

Um Rei dá ânimo e estimula a auto-estima da Comunidade, pois um Rei é um grande motivo de orgulho para o Seu Povo, que sabe ter na Figura Real a encarnação da história da Nação e da gesta de um Povo.
Existe de facto um misticismo de alta condição em torno da Figura Real!
«REI SEM POVO NÃO É REI, POVO SEM REI NÃO É POVO», afirmou certeiro Dom Luís Álvares de Castro, 2.º Marquês de Cascais, tendo como interlocutor El-Rei Dom João V.

É essa alegria quase mística que transparece por exemplo no soneto daquela que foi apelidada de “Décima Musa Portuguesa”, Soror Violante do Céu, e que o compôs após a Restauração da Independência, época de exacerbado contentamento nacional pela liberdade reconquistada após 60 anos de jugo estrangeiro.

A El-Rei D. João IV

«Que logras Portugal? Um rei perfeito.
Quem o constituio? Sacra piedade.
Que alcançaste com ele? A liberdade.
Que liberdade tens? Ser-lhe sujeito.

Que tens na sujeição? Honra e proveito.
Que é o novo rei? Quase deidade.
Que ostenta nas acções? Felicidade.
E que tem de ser feliz? Ser por Deus feito.

Que eras antes dele? Um labirinto.
Que te julgas agora? Um firmamento.
Temes alguém? Não temo a mesma Parca.

Sentes alguma pena? Uma só sinto.
Qual é? Não ser um mundo, ou não ser cento
Para ser mais capaz de tal Monarca.”

O Rei honra o Seu Povo e o Povo estima o Rei, com uma devoção e bem-querer que nunca dedicará a qualquer presidente.
“E toda a Nação o chorou numa infinita piedade.
Com el-rei D. Luís, findou um período interessante da nossa história. Durante ele, Portugal, emergindo da anarquia doutrinária que o desmantelava desde 1820, consuma o seu desquite com o passado, quebra o seu pacto com os ideólogos – e entra resolutamente, para ventura sua ou para maiores e inéditos males, no caminho do utilitarismo, do fomento e do progresso material. Para presidir a esta revolução, que cobriu a terra de instrumentos de riqueza e radicou na gente a importância dos interesses, el-rei D. Luís era, pelas favoráveis feições do seu espírito liberal, transigente, modernizado, acessível às inovações, o chefe mais congénere e perfeito. Daí proveio, entre o rei, beneficamente inclinado às reformas, e o reino, que ardentemente se reformava, uma harmonia sólida e séria que, em vinte e oito anos, não sofreu uma interposição nem foi toldada pela sombra.”, Escreveu Eça de Queiroz, sobre El-Rei Dom Luís I de Portugal.

É essa Paz que queremos, é essa comunhão entre Chefe de Estado e Povo por que todos anseiam: o Lusitano querer encarnado num Rei.
Ó Rei, com a Tua vinda venha de novo Portugal!
Ó Ponte entre o Passado e o Presente, dá-nos um Futuro!
Ó Rei volta por nós!
Regressa pela Tua grei!

* Membro da Plataforma de Cidadania Monárquica


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MONARQUIA – A Cura Para Os Males Republicanos!

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O regímen republicano mostrou, definitivamente, ter sido superado pelas suas imperfeições naturais. Desde a sua implantação o republicanismo português tem mostrado não estar à altura das exigências do País.
Como sustentou Destouches: “Chassez le naturel, il revient au galop – Expulsai a natureza, ela volta a galope”. São escusados os esforços impostos em excesso à índole do indivíduo. Inauguraram um regímen inadequado às idiossincrasias do “Ser Português!”. Analisou o génio de Fernando Pessoa que «a revolução é só da superfície», e que «a maioria do país era monárquica (…)». De resto nas últimas eleições realizadas em Portugal, em 1910, durante a Monarquia, os partidos monárquicos obtiveram 93% dos votos expressos e Partido Republicano Português 7%.
Atulhados em querelas e sem bom senso para serenar as diferentes vontades politico-sociais, os “implantadores” não possuíram habilidade para curar a gestão financeira e reformar a administração do Estado; antes sim mergulharam o País na guerrilha, na bancarrota e na censura. Foi este o desfecho esperado e inevitável de uma aparente sacudidela de ideias. Volvidos estes anos todos, de equívoco republicano, o regime implodiu!
O regime político afastou-se dos anseios dos cidadãos!
Onde está a Democracia, se nos negam o direito à escolha, pois nunca foi dado aos Portugueses a liberdade de optar sobre que sistema de governo pretendem: república ou Monarquia?
Fernando Pessoa, monárquico convicto que sempre evitou colagens ao regime implantado, em 1910, continuou: «(…) Aqueles portugueses do futuro, para quem porventura estas páginas encerrem qualquer lição, ou contenham qualquer esclarecimento, não devem esquecer que elas foram escritas numa época da Pátria em que havia minguado a estatura nacional dos homens e falido a panaceia abstracta dos sistemas. (…) Serão, talvez e oxalá, habitantes de um período mais feliz (…) aqueles que lerem, aproveitando, estas páginas arrancadas, na mágoa de um presente infeliz, à saudade imensa de um futuro melhor. (…)», e, «(…) Os partidos políticos, em determinado país e determinada época, têm todos a mesma mentalidade, têm todos virtualmente o mesmo grau, pouco ou muito, de corrupção. (…)»
PESSOA CHEGA, ENTÃO, A CONCLUSÃO:
«O que é preciso, pois, é estabelecer uma fórmula de transição que sirva de declive natural para a MONARQUIA FUTURA, …»

É essa, também, a nossa percepção: a Restauração da Monarquia. Não se pretende um regresso ao passado, mas pretendemos que o futuro seja construído com base em concepções contemporâneas. Os pilares de uma nova Monarquia assentarão em premissas de exercício do poder real adequados à realidade em que vivemos. O regímen a concretizar terá a árdua tarefa, como na renda de bilros, de tecer a obra final: uma verdadeira méritocracia em Monarquia, um sistema de governo democrático, contemporâneo e modelar que é a Monarquia Constitucional Parlamentar.
QUEREMOS DEMOCRACIA EM MONARQUIA!

# Texto da autoria da Plataforma de Cidadania Monárquica


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CUMPRIR PORTUGAL!

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“Cumprir Portugal!”, na Pátria do Fado, faz desde muito tempo, mas especialmente desde a revolução republicana, parte do imaginário nacional. Muitos génios das nossas Letras, inconformados com o novo regímen, lhe dedicaram vaticinantes poemas; como Fernando Pessoa que na “Mensagem” aplicou muito do seu génio à temática. Na estrofe da segunda parte, no “Mar Português, I – O Infante”, podemos ler um desses exemplos:

«Quem te sagrou criou-te português.
Do mar e nós em ti deu sinal.
Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez.
Senhor, falta cumprir-se Portugal!»

Ou mais adiante, no Quinto poema, do NEVOEIRO, datado de 10/12/1928, na mesma obra-prima do escrever em português:

«Nem rei nem lei, nem paz nem guerra,
Define com perfil e ser
Este fulgor baço de terra
Que é Portugal a entristecer –
Brilho sem luz e sem arder,
Como o que o fogo-fátuo encerra.

Ninguém sabe que coisa quer.
Ninguém conhece que alma tem,
Nem o que é mal nem o que é bem.
(Que ânsia distante perto chora?)
Tudo é incerto e derradeiro.
Tudo é disperso, nada é inteiro.
Ó Portugal, hoje és nevoeiro…

É a hora!
Valete, Frates»

De igual forma, sobre o mesmo desiderato, escreveu Agostinho da Silva, de feição venturosa: «Vai ter de se abrir a hora de Portugal se cumprir inteiro, de ser o duplo cavaleiro do místico e do Real.»
Mas já antes do 5 de Outubro, muitos outros haviam dedicado a sua reflexão sobre o tema. Já no século XVII, o Padre António Vieira imaginava “O Quinto Império” como uma forma de legitimar o movimento autonomista português, que conseguira o fim da União Ibérica, e que seria a forma de realizar a Gesta Portuguesa.
Assim, hoje uma vez mais, o Sonho de Portugal passa pela sua autonomia, pelo granjear da emancipação face ao estrangeiro que agora assume outra forma, e, que não conquista pela força das armas, mas pelo poder do capital.
Desta forma, a Restauração da Monarquia constituirá, também, a recuperação da Soberania Nacional e, de facto, todos os supracitados grandes vultos das nossas Letras pareciam estar de acordo num facto: o Regresso do Rei é sem dúvida a única solução para que, finalmente, se “Cumpra Portugal!”


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FERNANDO PESSOA – DIÁLOGO MONÁRQUICO

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Introdução e Recolha do texto: Miguel Villas-Boas *

Fernando Pessoa, Monárquico firme, não se deixou ficar à margem da crítica à revolução republicana, que repudiou e criticou abertamente como nestes excertos de 1915, publicados em «O Jornal»: «O constitucionalismo republicano, para o descrever com brandura, foi uma orgia lenta de bandidos estúpidos», pois «quando fizemos uma “revolução” foi para implantar uma coisa igual ao que já estava.»
Mesmo correndo riscos por motivo da censura que se instalou juntamente com o regímen do 5 de Outubro, porque como lembrou: «Na monarquia era possível insultar por escrito impresso o Rei; na república não era possível, porque era perigoso, insultar até verbalmente o Sr. Afonso Costa.», Fernando Pessoa, com aquela coragem própria dos homens únicos, nunca se deixou intimidar e nunca capitulou em considerar que «o sistema monárquico seria o mais próprio para uma nação organicamente imperial como é Portugal».
Por isso, nunca se harmonizando com a Implantação da república, recusou qualquer «colagem» ao regime – ao contrário de uns e outros «adesivos» – e fez sempre questão de o demonstrar nos sublimes textos que publicou dispersamente entre 1910 e 1935, como no admirável diálogo «Na Farmácia do Evaristo», que vem completar a recolha da Plataforma de Cidadania Monárquica, que já se encontra, também, plasmada nos dois textos anteriormente publicados: «Fernando Pessoa: Da República» e «Eça de Queiroz e Fernando Pessoa – Convictamente Monárquicos».

«NA FARMÁCIA DO EVARISTO»

«A farmácia do Evaristo, que estivera sempre aberta, começou a receber os seus estacionários do costume. (…) A voz alta do Mendes, republicano democrático, erguia-se congratulória. Nisto assomaram à porta os dois habituais que ainda faltavam. (…)
O José Gomes, mais conhecido por o Gomes Pipa, entrou lentamente na farmácia. (…) O Gomes vinha limpando a boca.
– E o amigo Mendes contente com o restabelecimento da ordem, hein?
– Pois é claro…
– E com a conduta das tropas fiéis – isto é, fiéis àquilo a que foram fiéis?
– Àquilo a que foram fiéis? Ao governo, que é a quem tinham obrigações de ser fiéis. Ao governo, à ordem, à disciplina, às instituições! Portaram-se bem, mas não fizeram senão a sua obrigação.
– Folgo muito, Sr. Mendes, disse o Gomes sentando-se num banco e puxando pela bolsa do tabaco; folgo muito, como amigo da ordem, em vê-lo apreciar devidamente a fidelidade ao dever jurado e à obrigação militar.
– Não vejo razão para folgar tanto! Como não pode haver dúvida que eles fizeram bem cumprindo o seu dever de militares, e até de cidadãos, não é de estranhar que se ache bem que eles o cumprissem…
– Sim, senhor, respondeu Gomes Pipa. Mas não é só por isso que eu folgo com o seu aplauso a eles (…). Folgo, sobretudo, como monárquico, com a condenação, que com isso o sr. fez, da revolução e dos revolucionários do 5 de Outubro.
– Hein? O quê? Do 5 de Outubro?
O Gomes enrolou lentamente o seu cigarro vulgar.
-Sim, do 5 de Outubro. Os militares e marinheiros, que no 5 de Outubro se revoltaram, tinham jurado, como estes, manter a ordem e defender as instituições, que eram então as monárquicas. E como estes fizeram bem mantendo-se firmes ao seu juramento e ao seu dever militar, aqueles fizeram mal faltando ao deles. É com esta sua opinião que eu folgo. Estimo-a pela imparcialidade, vindo, como vem, de um republicano.
– Perdão… Não é nada disso… O 5 de Outubro é um caso diferente…
– Diferente? Diferente em quê? – E o Gomes suspendeu calmamente o acendimento do seu cigarro.
– No 5 de Outubro a revolução nasceu de um impulso nacional, correspondeu, por assim dizer, a um mandato imperativo da nação inteira, ou, pelo menos, da sua enorme maioria. Tanto assim que o movimento venceu com facilidade, e com forças aparentemente insuficientes…
– O ter vencido com forças aparentemente insuficientes não é argumento, meu amigo. Num país que está numa situação brilhante de disciplina e de ordem, como então acontecia, e com um governo fraco ainda por cima, um movimento revolucionário, desde que passe de um simples motim, facilmente vencerá, pela repugnância que há em combater compatriotas, e pela falta de hábito em fazê-lo, para que se vença essa repugnância. Deixemos isso da vitória fácil… Ou o senhor pretende basear na facilidade dessa vitória o único argumento a favor do carácter nacional do 5 de Outubro? Se vamos a isso, com muito mais facilidade venceu o chamado «movimento das espadas», com que foi ao poder Pimenta de Castro, sendo portanto consideravelmente mais nacional.
– O movimento das espadas foi um movimento exclusivamente militar, tomou toda a gente de surpresa…
– Exactamente. É isso que eu digo… Basta tomar de surpresa, apanhar os outros sem preparação condigna para vencer, sem que a vitória representa mais que os outros não estarem prontos…
– Espera lá: não é só isso… O movimento das espadas, foi exclusivamente militar; no 5 de Outubro entraram muitos civis…
– Isso quer dizer simplesmente que havia civis que estavam na conspiração e, se estavam, é natural que viessem para a revolução também. (…) O senhor diz que essa traição se justifica pelo facto de o 5 de Outubro ser um movimento nacional, uma espécie de mandato imperativo da nação. E o senhor não me citou argumento nenhum que provasse esse carácter nacional do movimento, (…). O próprio facto, que o senhor citou, de o movimento ter tido poucas forças (…) não é com certeza a melhor maneira de provar que ele representasse um mandato imperativo da nação (…).
– Talvez, Sr. Gomes, eu me exprimisse mal… (…) É a atmosfera, o ambiente, do movimento que provaram bem o seu carácter nacional…
– Oh, amigo Mendes, isso não serve… Reduza lá isso das atmosferas e dos ambientes a qualquer coisa de mais visível. Há-de haver por força sinais evidentes, distintivos, de se um movimento é nacional ou não. (…) Refere-se o senhor por acaso à circunstância, que na verdade se deu, de o movimento ter sido acolhido, em geral, com uma certa simpatia?
– Sim, sim, por exemplo… O que é que isso prova senão que…
– Prova que toda a gente tinha um medo medonho da revolução republicana (…). Em comparação com o que as imaginações aterrorizadas se figuravam do que fosse uma revolução, o 5 de Outubro, que realmente foi brando e limpo, foi um alívio, como o é sempre a realidade, ainda que má, quando a imaginação a figurava muito pior… Essa própria sensação de alívio deve ter despertado em muita gente uma certa hesitação esperançosa… Mas isso, amigo Mendes, são fenómenos posteriores à revolução, ambiente sobrevindo mas não preexistente… (…) Continuo, pois, a não achar aceitáveis as razões que alega para considerar o 5 de Outubro um movimento nacional…
– É difícil de explicar, realmente, mas…
– Vamos lá a ver se com o meu auxílio o senhor consegue desencaixotar a sua lógica… Vamos a um facto concreto (…)… Esse facto é o de ter ficado e durado a República…
– Ora exactamente, é isso mesmo.
– Não é, amigo Mendes, não é… A República tem durado, sim; mas tem durado de uma maneira irregular, cortada constantemente por movimentos vários, monárquicos e outros, e em perpétua atitude de sobressalto, de defesa e de confusão. E como esses vários movimentos não têm sido motins vulgares, de rua, mas revoluções em forma, algumas vitoriosas, em que entram regiões inteiras do país (como na restauração monárquica no Norte) e grandes forças do exército e numerosos civis, tem havido, ao que parece, ambiente e atmosfera para os dois lados. De modo que nada autoriza a que afirmemos que o 5 de Outubro teve mais «carácter nacional» que qualquer outra revolução ou revolta. (…) Mas agora reparo que nos afastámos do nosso caso original… Mesmo que o 5 de Outubro fosse um movimento classificável de «nacional», isso nada tinha com a questão da traição e da deslealdade dos militares e dos marinheiros que o fizeram… É esse, creio eu, o ponto que estávamos discutindo…
– Perdão, alguma coisa tem…
– Que coisa?
– A fidelidade ao juramento é realmente uma coisa importante. Mas há casos em que não é a mais importante de todas. Os interesses supremos da Pátria, que são o mais importante de tudo, podem prevalecer, se for preciso, sobre todos os juramentos e sobre todos os compromissos de fidelidade!
– Ah, sim… É verdade: o senhor foi germanófilo?
– Eu?!… Eu germanófilo?!… Mas a que propósito?
– É que esse é o argumento de que se serviu von Bethmann Hollweg naquela célebre declaração em que chamou aos tratados «farrapos de papel». (…) Vamos ao argumento… Se é legítimo faltar ao juramento e é obrigação em favor e defesa dos interesses supremos da Pátria – e por interesses supremos da Pátria entende o senhor sem dúvida aquilo que os revolucionários pensavam ser os interesses supremos da Pátria – porque não é legítimo nos actuais revoltosos, e em todos os outros que se têm revoltado durante a República, invocar o mesmo argumento? O senhor vê neste movimento, por exemplo, homens sérios e que se mantiveram sempre fiéis à defesa da ordem e do cumprimento da disciplina. (…)
– Perdão, senhor Gomes… Eu não nego, nem preciso negar, que pudesse ser boa a intenção dos chefes desta revolta. O que afirmo é que, se a sua intenção era boa, era ao mesmo tempo errada. E tanto era errada, que o movimento não correspondia a uma aspiração nacional, que se deu com ele, apesar de bem planeado, uma coisa que eu ia ainda agora objectar-lhe, mas que guardei para depois para o não interromper… É que este movimento foi sufocado; falhou… E a verdadeira prova da falta de ambiente é essa: falhar…
– Tem graça: outro argumento germânico!
– Outro argumento germânico?
– Sim. Foi o filósofo alemão Hegel que inventou o argumento de que a própria vitória é a justificação da vitória, e que quem vence é que tinha direito a vencer, por isso mesmo que vence. (…) Mas enfim, aqui estamos no mesmo caso de ainda há pouco. (…) A vitória é que prova a legitimidade, o «ambiente» de um movimento? Está bem… Ora o Sidónio venceu…
– E quanto tempo durou a situação do Sidónio, senhor Gomes?
– Durou até ao fim, como todas as coisas. (…) Não durou tão pouco que isso pese como argumento, nem acabou senão porque, estando concentrada num só homem, uma simples bala, isto é, um só homem pôde terminá-la. Mas, afinal, em que é que ficamos? O Senhor tinha-me dito que a vitória de uma revolta é que provava o seu ambiente. (…) Mas o senhor fala-me agora, já não em simples vitória, mas em duração da situação criada pela vitória, o que é uma coisa diferente… Quanto tempo é que uma situação tem que durar para o senhor a considerar legítima?
– Não é durar, meu caro senhor, é a maneira de durar…
– Também já respondi a isso… Já lhe disse que se a vida da República tivesse sido de inteira paz, (…) se poderia com efeito considerar de carácter nacional o movimento que a implantou.»

«Ora o dever de todo o homem que representa qualquer coisa em Portugal, hoje, é o de, afastado de toda a malandragem que faz política, prestar o seu auxílio, pequeno que seja, a essa criação de Portugal.»

Bibliografia:
Fernando Pessoa, «Na Farmácia do Evaristo», 1920.
Fernando Pessoa, excertos de «O Jornal», 1912, e 8/4/1915.

* Membro da Plataforma de Cidadania Monárquica


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EÇA DE QUEIROZ E FERNANDO PESSOA – CONVICTAMENTE MONÁRQUICOS

1239660_295966843875096_1870921876_nOs nossos mais internacionalmente conhecidos Príncipes das Letras, Eça de Queiroz e Fernando Pessoa, eram monárquicos convictos, e não pouparam, o primeiro o incipiente Partido republicano, e, o segundo a implantada I.ª República assim como os políticos cleptocratas que passaram a saciar-se nos cargos de relevo do nosso País. Desta forma como para eles rir era uma filosofia, ficaram para a posteridade as suas “boutades” sobre política à republicana que mais contemporâneas não podiam ser, pois atravessaram os quase 103 anos de desatino republicano com uma actualidade compressora.

1.- EÇA É QUE É EÇA:

“(…) O Partido Republicano em Portugal nunca apresentou um programa, nem verdadeiramente tem um programa.
Mais ainda, nem o pode ter: porque todas as reformas que, como Partido Republicano, lhe cumpriria reclamar já foram realizadas pelo liberalismo monárquico”.
“ (…) E sem desejar ser descortês para com personalidades somos forçados a constatar que os actuais chefes republicanos, como tais, como chefes, fazem sorrir toda a parte séria da nação.
Mas ainda, mesmo sem direcção, ou com uma direcção impotente por incompetente, o Partido Republicano existe, exibe-se, fala, escreve, vota […]
[…] a República não pode deixar de inquietar o espírito de todos os patriotas. Ela seria a confusão, a anarquia, a bancarrota.”
Eça de Queiroz, Novos Factores da Política Portuguesa, in Revista de Portugal, Abril 1890

“[…] o Partido Republicano tem-se alastrado, não porque aos espíritos democratizados aparecesse a necessidade de implantar entre nos as instituições republicanas, como as únicas capazes de realizar certos progressos sociais – mas porque esses espíritos sentem todos os dias uma aversão maior pela política parlamentar, tal como ela se tem manifestado, com o seu cortejo de males, nestes derradeiros tempos.”
Eça de Queiroz, “Novos Factores da Política portuguesa”, in Revista de Portugal, 1891

“[…] sobre esse furúnculo revolucionário que rebentou no Porto, como sintoma de doença geral […], a opinião geral é que esse é o começo da débâcle. O Governo ainda poderia afastar a hora má por algum tempo, se aproveitasse a ocasião para desorganizar inteiramente, à maneira sumária do excelente Constans, o partido republicano.
Eça de Queiroz, Carta a Oliveira Martins, 5 Fev. 1891

“O Que Verdadeiramente Mata Portugal. O que Verdadeiramente nos mata, o que torna esta conjuntura inquietadora, cheia de angústia, estrelada de luzes negras, quase lutuosa, é a desconfiança. O povo simples e bom, não confia nos homens que hoje espectaculosamente, estão meneando a púrpura de ministros; os ministros não confiam no parlamento, apesar de o trazerem amaciado, acalentado com todas as doces cantigas de empregos, rendosas conezias, pingues sinecuras; os eleitores não confiam nos seus mandatários, porque lhes bradam em vão: «Sede honrados», e vêem-nos apesar disso adormecidos no seio ministerial; os homens da oposição não confiam uns nos outros e vão para o ataque, deitando uns aos outros, combatentes amigos, um turvo olhar de ameaça. Esta desconfiança perpétua leva à confusão e à indiferença. O estado de expectativa e de demora cansa os espíritos. Não se pressentem soluções nem resultados definitivos: grandes torneios de palavras, discussões aparatosas e sonoras; o país, vendo os mesmos homens pisarem o solo político, os mesmos ameaços de fisco, a mesma gradativa decadência. A política, sem actos, sem factos, sem resultados, é estéril e adormecedora.”
Eça de Queiroz, in Distrito de Évora

“O país não tem dinheiro; os espíritos não têm instrução; as estradas derretem; a frequência das escolas diminui; o movimento da roda dos expostos aumenta; a agricultura paralisa-se; as nossas possessões revoltam-se; … Em Lisboa fazem-se leilões…”
Eça de Queiroz in Farpas, pág. 63, Janeiro de 1872

“… Nós temos por el-rei a mais sincera simpatia, e consagramos a sua majestade a rainha o respeito mais profundo. Se a nossa palavra não basta, e se a esta homenagem dos nossos sentimentos é preciso acrescentar o sacrifício das nossas vidas – tenham a bondade de as mandar buscar.”
Eça de Queiroz in As Farpas, pág. 65, Janeiro de 1872

2.- FERNANDO PESSOA “DA I.ª REPÚBLICA”

“(…) A situação de Portugal, proclamada a República, é a de uma multidão amorfa de pobres-diabos, governada por uma minoria violenta de malandros e de comilões. O constitucionalismo republicano, para o descrever com brandura, foi uma orgia lenta de bandidos estúpidos (…)”
“(…) É alguém capaz de indicar um benefício, por leve que seja, que nos tenha advindo da proclamação da República? Não melhorámos em administração financeira, não melhorámos em administração geral, não temos mais paz, não temos sequer mais liberdade. Na monarquia era possível insultar por escrito impresso o Rei; na república não era possível, porque era perigoso, insultar até verbalmente o Sr. Afonso Costa. (…)”

“(…) Os partidos políticos, em determinado país e determinada época, têm todos a mesma mentalidade, têm todos virtualmente o mesmo grau, pouco ou muito, de corrupção. Há uma ressalva, que propriamente o não é, a fazer. Os partidos do governo – isto é, os partidos que frequentemente governam, e por isso, em geral, os maiores – agregam mais videirinhos e mais interesseiros, pela simples razão de que os videirinhos e os interesseiros buscam naturalmente os partidos que os podem empregar e recompensar (…). Por outro lado, os partidos da oposição – isto é, os que não vão ao poder, ou não podem ir, ou dificilmente podem ir – agregam, mais que os outros, os elementos perturbadores e anti-sociais, e fazem-no na proporção em que são extremistas (da direita ou da esquerda). (…) Os independentes podem propor-se, e algumas vezes se propõem à eleição. Mas as eleições, nas condições modernas, são a tal ponto matéria de organização e mecanismo que é com grande desigualdade que um independente se pode bater contra os candidatos nomeados pelos partidos. O triunfo de uma candidatura independente é a coisa mais rara deste mundo. (…)”
“(…) Os partidos, ainda, como têm que ter a aparência de se basear na opinião pública, buscam «orientá-la» no sentido que desejam, e assim a pervertem; e, para sua própria segurança, buscam servir-se dela, em vez de a servir a ela, e assim a sofismam. (…)”
“(…) A mais antiga tradição de qualquer país é ele não existir. (…)”
“(…) Um país unânime numa opinião de hábito não seria país – seria gado. Um país concorde numa opinião de intuição não seria país – seria sombras. O progresso consiste na média entre o que a opinião de hábito deseja e o que a opinião de intuição sonha. Figurou Camões, nos Lusíadas, em o Velho do Restelo a opinião de hábito, em o Gama a opinião de intuição. Mas o Império Português nem foi a ausência de império que o primeiro desejara, nem a plenitude de império que o segundo sonharia. Por isso, por mal ou por bem, o Império Português pôde ser. (…)”
“(…) Já acima esboçámos, em simples exemplo ocasional, qual seja a situação presente de Portugal quanto à sua opinião pública. Concentrados dos Filipes ao liberalismo, numa estreita tradição familial, provincial e religiosa; animalizados, nas classes médias, pela educação fradesca, e, nas classes baixas, bestializados pelo analfabetismo que distingue as nações católicas, onde não é mister conhecer a Bíblia para se ser cristão; desenvolvemos, nas classes superiores, a onde principalmente se forma a opinião de intuição, a violenta reacção correspondente a essa acção violenta. Desnacionalizámos a nossa política, desnacionalizámos a nossa administração, desnacionalizámos a nossa cultura. A desnacionalização explodiu no constitucionalismo, dádiva que, em reacção, recebemos da Igreja Católica. Com o constitucionalismo deu-se a desnacionalização quase total das esferas superiores da Nação. Produziu-se a reacção contrária, e, do mesmo modo que na Rússia de hoje, se bem que em menor grau, a opinião de hábito recuou muito além da província, para além da religião, em muitos casos para além da família. Surgiu a contra-reacção: veio a República e, com ela, o estrangeiramento completo. Tornou a haver o movimento contrário; estamos hoje sem vida provincial definida, com a religião convertida em superstição e moda, com a família em plena dissolução. Se dermos mais um passo neste jogo de acções e reacções estaremos no comunismo e em comer raízes – aliás o término natural desse sistema humanitário. (…)”
«(…) As qualidades mentais e morais necessárias para a conquista do poder político, ou tendentes a essa conquista, são inteiramente diferentes daquelas necessárias para governar o Estado. Pode dizer-se, até, que mais se podem ter por opostas que por sequer análogas. Pode haver, é certo, um ou outro homem que ambas reúna, como pode haver quem seja, ao mesmo tempo, filósofo e atleta; mas em ambos os casos se trata de uma excepção, e os dois tipos ou grupos de qualidades permanecem diferentes e até opostos. São três as maneiras de conquistar o poder: a astúcia e a intriga, nos regimes autoritários, como a monarquia absoluta; a eloquência e a capacidade de persuasão, com a concomitante capacidade de mentir, até a si mesmo, para melhor mentir aos outros, como nos sistemas democráticos; e a violência, nos regimes impostos revolucionariamente, sejam eles de que tipo forem. (…)”.
“(…) Se a revolução é só da superfície, feita por uma minoria organizada num país desorganizado, e, por desorganizado, apático e servil, então os organizadores da revolução algumas qualidades têm que há que ter o homem de governo: são, pelo menos, chefes e organizadores. Tal foi, em ponto pequeno, a nossa Revolução de 5 de Outubro; tal foi, em ponto grande, a Revolução Bolchevista. Em ambos os casos, a maioria do país era monárquica, sendo apenas, republicana num caso, comunista no outro, a minoria mais bem organizada. (…)”
“(…) A hipnose do estrangeiro é um dos característicos distintivos das nações que não são senão províncias. A hipnose das cidades é outro sintoma de provincianismo. Tudo o que se faz em Paris, por estúpido que seja, é motivo de gesto igual para os macacos da Europa. (…)”

Pessoa chega, então, a conclusão:

“(…) O que é preciso, pois, é estabelecer uma fórmula de transição que sirva de declive natural para a MONARQUIA FUTURA, mas esteja em certa continuidade com o regímen actual. Essa fórmula de transição, já tentada instintivamente por Sidónio Pais, é a república presidencialista, que, por ser república, não perde continuidade com o actual regímen (…). A tradição não se reata: reconstrói-se. (…)”

Bibliografia:
1.- Eça de Queiroz – Novos Factores da Política Portuguesa, in Revista de Portugal, Abril 1890 e 1891; Carta a Oliveira Martins, 5 Fev. 1891; in Distrito de Évora; As Farpas, págs. 63 e 65, Janeiro de 1872
2.- Fernando Pessoa – Textos dispersos e publicados, escritos entre 1910 e 1935.


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Fernando Pessoa “Da República”.

À excepção dos intelectuais mais teimosos e dos menos informados, já sabíamos que a I República foi um desastre para Portugal em toda a linha. Por isso, é esperança da equipa da Plataforma de Cidadania Monárquica, que os excertos que se seguem, da autoria de um dos maiores Poetas Portugueses, Fernando Pessoa, ajudem os menos esclarecidos e os mais teimosos a mudarem de opinião sobre o regime republicano.

pessoa

“Tão regrada, regular e organizada é a vida social portuguesa que mais parece que somos um exército do que uma Nação de gente com existências individuais. (…) Somos incapazes de revolta e de agitação. Quando fizemos uma “revolução” foi para implantar uma coisa igual ao que já estava. (…) Ficámos miseravelmente os mesmos disciplinados que éramos.”
Fernando Pessoa, excertos de O Jornal, 8/4/1915

«(…) Bandidos da pior espécie (muitas vezes, pessoalmente, bons rapazes e bons amigos – porque estas contradições, que aliás o não são, existem na vida), gatunos com seu quanto de ideal verdadeiro, anarquistas-natos com grandes patriotismos íntimos – de tudo isto vimos na açorda falsa que se seguiu à implantação do regimen a que, por contraste com a monarquia que o precedera, se decidiu chamar República.

A monarquia havia abusado das ditaduras; os republicanos passaram a legislar em ditadura, fazendo em ditadura as suas leis mais importantes, e nunca as submetendo a cortes constituintes, ou a qualquer espécie de cortes. A lei do divórcio, as leis de família, a lei de separação da Igreja do Estado – todas foram decretos ditatoriais, todas permanecem hoje, e ainda, decretos ditatoriais.
A monarquia havia desperdiçado, estúpida e imoralmente, os dinheiros públicos. O país, disse Dias Ferreira, era governado por quadrilhas de ladrões. E a república que veio multiplicou por qualquer coisa – concedamos generosamente que foi só por dois (e basta) – os escândalos financeiros da monarquia.

A monarquia, desagradando à Nação, e não saindo espontaneamente, criara um estado revolucionário. A república veio e criou dois ou três estados revolucionários. (…) A monarquia não conseguira resolver o problema da ordem; a república instituiu a desordem múltipla.

É alguém capaz de indicar um benefício, por leve que seja, que nos tenha advindo da proclamação da República? Não melhorámos em administração financeira, não melhorámos em administração geral, não temos mais paz, não temos sequer mais liberdade. Na monarquia era possível insultar por escrito impresso o Rei; na república não era possível, porque era perigoso, insultar até verbalmente o Sr. Afonso Costa. (…) E o regimen está, na verdade, expresso naquele ignóbil trapo que, imposto por uma reduzidíssima minoria de esfarrapados mentais, nos serve de bandeira nacional – trapo contrário à heráldica e à estética, porque duas cores se justapõem sem intervenção de um metal e porque é a mais feia coisa que se pode inventar em cor. Está ali contudo a alma do republicanismo português – o encarnado do sangue que derramaram e fizeram derramar, o verde da erva de que, por direito mental, devem alimentar-se. (…)»

«(…) A análise do dinamismo social permite a constatação de que as sociedades se dividem, na sua linha geral de vida evolutiva e tendência política em três grupos: os indiferentes, os equilibrados e os em desequilíbrio. (…) Todo o homem normal e são se interessa (…) na vida política, colaborando nela. Nos períodos de decadência social e, portanto individual, a indiferença pela política, o ignorá-la com o sentimento, ou o medo das reformas precisas, não ter ou energia ou tendência para, com o limitado esforço as querer melhorar – eis a indiferença patológica. (…)»

«(…) Os nossos políticos não são gente. Nenhum deles mostra ter tido na sua vida uma daquelas crises espirituais donde se emerge talvez ferido para sempre, mas psiquicamente homem, personalidade espiritual. São ateus pela mesma razão que o é um burro ou uma árvore. São portugueses porque, desgraça nossa, nasceram adentro da nossa fronteira, oriundos de gente que secularmente assim tinha feito. (…)»

«(…) Ora o dever de todo o homem que representa qualquer coisa em Portugal, hoje, é o de, afastado de toda a malandragem que faz política, prestar o seu auxílio, pequeno que seja, a essa criação de Portugal. (…)»

«(…) Refiro-me ao facto de que nenhum de nós tem Pátria. O Português é hoje um expatriado no seu próprio país. Somos uma nação, não uma pátria; somos um agregado humano sem aquela alma colectiva que constitui uma Pátria. Somos… Sei lá o que nós somos? (…)»

«(…) Pessoalmente, adiro a este conceito; julgo inútil e mesquinha a cura escrupulosa de seguir as tradições. O Portugal das descobertas não seguiu tradição nenhuma: criou-se. (…) Repare agora para o momento português actual. Qual das duas cousas lhe aparece aí a denunciar-lhe que Portugal é uma Pátria? Quebrámos com todas as tradições; até aqui nada há de mau. Resta saber se lhes substituímos qualquer coisa nova que seja de criação portuguesa. É assim? Qual é essa cousa? Os princípios em que assenta esta cousa a que se chama República Portuguesa: estes princípios são franceses. (…) Não há Portugal: há uma mistura ignóbil de «estrangeiros do interior» (…) a governar-nos e a estropiar-nos o resto do que somos. (…) Paiva Couceiro é um espírito ferrenhamente tradicionalista. Podemos não concordar (…) com esse conceito tradicionalista. Mas ele é sem dúvida um conceito de nacionalidade. É preferível a conceito nenhum. Dentro do tradicionalismo pode haver patriotismo; fora dele, e não havendo a criação de novos ideais absolutamente nacionais, não vejo que patriotismo possa haver. (…) Substituí-lo [a monarquia] por um regimen que, além de não ser nacional de modo nenhum, continuava as mesmas tradições (estas sim!) de gatunagem e de incompetência, agravando, se talvez não a gatunagem, por certo que a incompetência – eis uma cousa para a qual não valia a pena ter derramado sangue, perturbado a vida portuguesa, criado maior soma de desprezos por nós do que os que já havia no estrangeiro. (…)»

«(…) Um Portugal onde internacionalmente só se pode ser inglês; onde nacionalmente só se pode ser francês (pois que francesas sejam as ideias republicanas que nos «governam») – um Portugal onde, portanto, tudo se pode ser («tudo» é um modo de falar) menos português, que espécie de «Portugal independente» é que é? Que independência há nisto? Triste gente que se contenta com a triste aparência das cousas, e não vê um palmo adiante das sensações quotidianas, para dentro da sua alma súbdita e oprimida! (…)»

«(…) Mas não há ninguém que lhes possa dar prestígio. Se eles conseguissem erguer do túmulo Nuno Álvares, o Infante D. Henrique e Afonso de Albuquerque, e os conseguissem inscrever no Centro da Rua Ivens, o que resultaria era um grande desprestígio para esses vultos da nossa história. Moralmente já nada salva aquela caranguejola de patifes. Oxalá, moral ou fisicamente, haja alguma coisa que salve isto! (…) Mas não é verdade que é duro chegar-se a este ponto? Não é verdade que dói e envergonha um português ver que a este ponto se chega? (…)»